Elas preferem os novinhos: mulheres 40+ contam por que deixaram os mais velhos de lado
Sem medo do julgamento alheio, mulheres procuram homens mais jovens para se relacionar em busca de dinâmicas mais igualitárias e a redescoberta do desejo
Por Paola Churchill
16 ago 2026, 15h00
Mulheres maduras têm falado cada vez mais abertamente sobre relacionamentos com homens mais jovens, em busca de vínculos com mais liberdade e desejo (Dandara Araújo/CLAUDIA)
Mulheres maduras estão cada vez mais felizes em relacionamentos com homens mais jovens, desafiando tabus e estereótipos. A advogada Bruna Fonseca compartilha sua jornada de autodescoberta e especialistas explicam como essa escolha reflete maior autonomia feminina e o desejo de viver o afeto sem amarras.
Principais Tópicos
O relato da advogada Bruna Fonseca Casais com mulheres mais velhas: uma nova realidade A ciência explica por que esses relacionamentos funcionam Por que a sociedade ainda julga?
Autonomia e prazer feminino na maturidade
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Se alguém dissesse à advogada Bruna Fonseca de dois anos atrás que ela terminaria namorando um homem mais novo, ela teria rido na cara da pessoa.
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Aos 37, influenciadora digital, passou a vida convencida de que relacionamento bom era com homem mais velho, afinal, era o que via em casa, no casamento dos pais, em que o pai é dez anos mais velho que a mãe.
“Eu sempre achei que, para ter um relacionamento bom, eu também tinha que me relacionar com um homem mais velho. Só que descobri que estava errada”, diz.
O ponto de virada foi o último namorado, dez anos mais velho, que ela descreve sem meias palavras: controlador, manipulador, machista, convencido de que a idade o tornava superior.
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“E ele não era nada disso.”
Depois dele, vieram outros mais velhos, e o veredito foi o mesmo: “completos idiotas”.
“Nunca fui tão feliz”
Hoje, com um rapaz dez anos mais novo, o resumo é direto: nunca foi tão feliz.
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E ela tem teoria para o que mudou. “Esses meninos mais novos foram criados por pais diferentes, cresceram numa geração em que as meninas têm direito de fala, direito de trabalho, e são tão importantes quanto os homens”, afirma.
No dia a dia, conta, o parceiro entende seu trabalho, comemora suas conquistas e divide as tarefas sem drama.
Mulheres mais velhas, homens mais jovens
A história de Bruna não é um caso isolado, e é exatamente isso que chama atenção.
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Nos últimos anos, os relacionamentos em que a mulher é a mais velha do casal saíram do armário social.
No TikTok e no Instagram, vídeos de mulheres na faixa dos 30, 40 e 50 anos relatando experiências com parceiros mais jovens acumulam milhões de visualizações.
No mundo das celebridades, casais como o da primeira-dama francesa Brigitte Macron, mais de duas décadas mais velha que Emmanuel; o da cineasta Sam Taylor-Johnson e o ator Aaron Taylor-Johnson, com 23 anos de diferença; ou o da atriz Gabrielle Union, mais velha que o marido, o ex-jogador Dwyane Wade, ajudaram a tornar essas uniões mais visíveis, ainda que a cobertura sobre elas costume ser bem mais cruel do que a dedicada a homens mais velhos com parceiras jovens.
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O que está mudando nos relacionamentos após os 40?
Mas há uma mudança real acontecendo ou as mulheres apenas passaram a falar mais sobre o assunto?
Para as especialistas ouvidas por CLAUDIA, as duas coisas ao mesmo tempo.
“Existe uma mudança concreta na forma como as mulheres estão se relacionando e escolhendo seus parceiros, especialmente após os 40 anos”, afirma a psicóloga Letícia de Oliveira.
“Hoje muitas têm maior autonomia emocional, financeira e liberdade para decidir o que desejam viver afetivamente.”
Ao mesmo tempo, diz ela, caiu o medo de falar sobre isso: o que antes era escondido, por receio das críticas, hoje pode ser uma escolha consciente assumida em voz alta.
O que a ciência já descobriu sobre esses casais
Relacionamentos com homens mais jovens ganham espaço entre mulheres que buscam novas formas de viver o afeto e o desejo (Dandara Araújo/CLAUDIA)
Não é só percepção. A antropóloga Mirian Goldenberg, da UFRJ, pesquisa arranjos conjugais brasileiros há mais de três décadas e dedicou um livro inteiro à provocação contida no título Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?
Ao entrevistar 52 casais nesse formato, encontrou algo que contraria o senso comum: a união de mulheres mais velhas com homens mais novos tende a minimizar os jogos de dominação, as disputas e os conflitos tão comuns nos casamentos convencionais.
Para ela, quando a mulher amadurece, descobre que a melhor rima para felicidade é liberdade.
Do lado de fora do Brasil, a socióloga canadense Milaine Alarie entrevistou 55 mulheres de 30 a 60 anos que se relacionam com homens mais jovens e derrubou de vez a imagem da “cougar” (predadora) à espreita: na prática, pouquíssimas se viam como caçadoras, e em boa parte dos casos eram os homens mais novos que tomavam a iniciativa.
Já um estudo da London Metropolitan University publicado em 2025, que analisou 126 pessoas em relações com diferença de pelo menos sete anos, desarmou outro clichê: a percepção de “ganho financeiro” simplesmente não apareceu entre os homens mais novos que namoram mulheres mais velhas.
A história do rapaz interesseiro atrás do dinheiro da madura não se sustenta nos números.
O mesmo levantamento apontou que homens e mulheres relataram mais satisfação sexual quando o parceiro era o mais jovem da relação.
Por que incomoda tanto?
Se os relatos são majoritariamente positivos, por que esses casais ainda provocam tanto burburinho?
A resposta, segundo as especialistas, tem menos a ver com idade e mais com poder.
“Historicamente, o envelhecimento masculino foi associado à experiência, ao poder, à estabilidade”, explica Letícia. “O feminino, por sua vez, foi relacionado à busca pela juventude e à aparência.”
A psicóloga integrativa Laura Zambotto, especializada em saúde emocional feminina, acrescenta o componente biológico que sustentou o padrão por séculos: o homem mais velho com uma mulher jovem foi normalizado porque mantinha a possibilidade de ter filhos.
À mulher, ao contrário, ensinou-se que envelhecer é perder a fertilidade, beleza, valor.
“Loba”, “cougar”, “MILF”: o peso dos rótulos
É aí que entram os apelidos. Quando uma mulher madura se relaciona com um homem mais novo, vêm os rótulos: “loba”, “cougar”, “MILF”.
Apsicóloga Fernanda Purificação, especializada em sexualidade e neuropsicologia, não tem paciência com eles.
“Se um homem mais velho sai com uma jovem, ele é o poderoso, o bem-sucedido. Se a mulher faz o mesmo, vira piada, fetiche ou personagem de história”, diz.
Para ela, o problema não é a palavra, e sim o peso dela: “Esses termos pegam uma mulher inteira e a reduzem a uma fantasia rasa. Apagam sua inteligência emocional, sua bagagem e sua autonomia.”
E arremata: “O incômodo real não é com a diferença de idade. É ver uma mulher que não pede licença para sentir prazer.”
Voltar a se enxergar depois dos 40
Mulheres mais velhas que se envolvem com homens mais jovens ainda enfrentam rótulos e um julgamento que não costuma recair da mesma forma sobre os homens (Dandara Araújo/CLAUDIA)
Por trás da estatística e do debate de gênero, há uma experiência íntima que se repete.
Muitas mulheres descrevem a maturidade — em especial a virada dos 40 — como um momento de quase desaparecimento.
“É comum a mulher se sentir invisível, deixar de ser vista como mulher, se perdendo da própria identidade”, observa Laura.
A explicação, para ela, está nos muitos papéis acumulados ao longo da vida — esposa, mãe, profissional —, todos voltados a cuidar dos outros e quase nunca de si.
“Esse lugar levou as mulheres à exaustão.”
A menopausa, somada ao fim da rotina centrada em filhos pequenos, abre uma janela: a de voltar a se olhar. “Esse movimento faz com que ela resgate seu lado mulher.”
“Achei que essa fase da minha vida já tinha acabado”
No consultório de Fernanda, o roteiro é parecido.
“Muitas pacientes contam que recuperaram a vitalidade, que se sentem vistas, ouvidas e desejadas de verdade outra vez”, relata.
Na intimidade, descrevem um clima mais leve, curioso, livre dos papéis engessados dos casamentos longos.
É o que Bruna conta à sua maneira: para ela, os parceiros mais novos cresceram já sabendo que “as mulheres também querem sentir prazer”.
A frase que Fernanda mais escuta no consultório? “Achei que essa fase da minha vida já tinha acabado.”
Descobrir que não acabou, diz a psicóloga, é libertador.
Nem tudo é libertação
Seria simplista, no entanto, tratar o fenômeno como uma fábula de empoderamento sem sombras.
Existe, nas redes, uma versão bem mais crua do mesmo discurso.
É o caso da fisioterapeuta Renata Vieira, 40. Ela conta em entrevista que cansou dos homens da própria idade, com aquela “síndrome de professor”, sempre achando que sabem mais, e resolveu testar rapazes de 22, 23 anos.
O apelo, para ela, é quase matemático: “O homem mais novo, se bem escolhido, olha para você com admiração.”
De acordo com ela, fariam de tudo para agradar uma mulher mais velha: “Você fala ‘lava a louça’, ele lava.”
No vocabulário dela, “esse é o caminho do sucesso”.
Quando os papéis apenas se invertem
É a “loba” em sua caricatura mais escancarada e, no fundo, a mesma lógica de dominação e instrumentalização da qual tantas mulheres dizem estar fugindo, apenas com os papéis invertidos.
Escolher um parceiro pela vulnerabilidade que ele carrega, para mantê-lo dócil, não é exatamente liberdade; é a velha desigualdade vestida com outra roupa.
E mostra que nem todo relato sob a bandeira do “novinho” fala de afeto ou de igualdade.
Idade não é garantia de maturidade
As próprias especialistas fazem questão de evitar generalizações.
Maturidade emocional, lembram Letícia e Laura, não é questão de idade: existem homens jovens ainda muito presos a padrões tradicionais e homens mais velhos profundamente disponíveis.
A psicóloga e sexóloga Michelle Sampaio, diretora da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), descreve a geração mais nova como um verdadeiro “campo de batalha” entre dois modelos: de um lado, rapazes que defendem a divisão igualitária das tarefas e falam abertamente sobre sentimentos; de outro, expectativas machistas que sobrevivem, muitas vezes alimentadas pelas próprias redes sociais.
A abertura emocional que tantas mulheres elogiam nos parceiros mais novos existe de fato — “mais curiosidade, menos defesa, mais vontade de falar sobre emoções”, nota Michelle —, mas não vem com garantia.
O desejo na maturidade não pede desculpas
Talvez seja essa, no fim, a verdadeira novidade: não o fato de mulheres maduras desejarem homens mais jovens — isso sempre existiu, só que em silêncio —, mas o fato de elas estarem dizendo isso em voz alta, sem pedir desculpas.
“Uma mulher que deseja, escolhe, diz não, experimenta e assume o que quer é uma mulher que ninguém consegue controlar”, define Fernanda.
“É por isso que o desejo na maturidade incomoda tanto. Ele grita que a mulher não acaba quando envelhece.”
E deixa um recado que poderia ser o resumo de toda essa transformação: “Envelhecer não devia ser sinônimo de sumir. Pode ser sinônimo de consciência, liberdade e de se apropriar do próprio corpo.”
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