Conheça o BLW, o novo método de introdução alimentar para bebês
Frutas e vegetais em pedaços em vez de papinhas e purês. Essa é a premissa do BLW, que incentiva a autonomia e propõe um contato maior com alimentos
Francisco tinha 6 meses quando sua mãe, a estudante gaúcha Mauren Borges, 26 anos, o colocou no cadeirão e lhe ofereceu morangos no lanche. O bebê, que até então só mamava, se deliciou com a fruta. Depois, ganhou brócolis e, aos poucos, outros alimentos.
“Cozinhava os vegetais até que ficassem macios, a ponto de ele conseguir amassar com as gengivas, já que os dentes só vieram no oitavo mês”, lembra ela. Mauren descobriu o método BLW (baby-led weaning, ou desmame guiado pelo bebê) em pesquisas na internet.
O assunto tem despertado polêmica entre profissionais da saúde e grupos de mães no WhatsApp e no Facebook – Mauren é, inclusive, administradora de um deles, com mais de 30 mil participantes.
Criada pela britânica Gill Rapley, mestra em alimentação infantil, a abordagem descrita no livro Baby-Led Weaning – BLW: O Desmame Guiado pelo Bebê (Timo) prega que a partir dos 6 meses a criança dite o que vai comer, a quantidade e o ritmo.
“A proposta é deixá-la experimentar sem colher nem garfo. E sem um adulto levando o alimento à sua boca”, explica a especialista em nutrologia pediátrica Mônica de Araújo Moretzsohn, do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
No entanto, para ela o método não deve ser exclusivo, e sim conciliado com papinhas e amamentação. “Nessa idade, o ideal é que a criança consuma preparos com consistência pastosa, sem pedaços. Conforme ela vai crescendo, podem ser oferecidos alimentos mais sólidos”, ressalta.
Apesar dessas recomendações – repetidas pela maioria dos médicos –, a popularidade do BLW vem crescendo. Livros sobre o tema já foram publicados em mais de 15 idiomas. Entre os motivos listados por mães e especialistas para esse fenômeno estão a ênfase que a idealizadora dá ao desenvolvimento da independência e das habilidades motoras e sensoriais da criança.
“Eu queria que meu filho entendesse o formato dos ingredientes, explorasse o cheiro, a textura e o sabor”, conta Mauren. Francisco, hoje com 1 ano e 7 meses, adaptou-se totalmente.
Segredos para o sucesso
Conquistar a simpatia dos bebês exige dedicação à apresentação dos alimentos. Cenouras, beterrabas e batatas devem ser cortadas em tiras e as frutas em meia-lua para que a criança consiga segurá-las. São proibidos temperos, assim como comidas em rodelas, devido ao risco de asfixia.
Nos grupos do Facebook, as mães adeptas sugerem esquecer o pratinho e colocar legumes e frutas direto no cadeirão (bem limpinho, claro). O prato seria uma distração.
Só pode ser iniciado no BLW o bebê que conseguir controlar a cabeça e o tronco, sentar sem apoio e fazer o movimento de pinça com as mãos. Mais importante: o reflexo de protrusão (quando usa a língua para expulsar alimentos da boca) precisa ter diminuído, o que geralmente acontece em torno dos 6 meses. O adulto deve supervisionar, pois engasgos podem acontecer.
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“Um dia fui jantar na casa do meu pai. Como ele não sabia nada sobre corte de segurança, deu uma coxa de frango inteira para o meu filho. Um pedaço ficou preso na garganta de Heitor. Percebi que ele não conseguia cuspir. Mantivemos a calma e meu pai fez a manobra para desengasgar”, relata a professora paranaense July’anne Pereira da Silva, 22 anos.
A situação não é incomum. A gerente financeira Isabella Gomes Lustoza, 24 anos, mãe de Henrique, 1 ano e 1 mês, também enfrentou alguns engasgos dele. “Quem nunca passou por isso se espanta, mas eu intervinha com tranquilidade, e meu filho logo cuspia o que estava obstruindo a garganta.”
Muitas vezes o reflexo de gag, movimento fisiológico normal em que o bebê cospe a comida, é confundido com engasgo. A criança não tem controle sobre essa reação, pois, após meses só mamando, ainda está ganhando familiaridade com o alimento.
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A falta de suporte da família e a dificuldade em manter a rotina atrapalharam Isabella. Ao iniciar o BLW, percebeu que Henrique não levava nada à boca. “Não conseguia deixá-lo sem comer, apesar de ouvir que, com fome, ele tomaria a iniciativa. Acabava dando da maneira tradicional, auxiliando e com talher.”
Mesmo contando com acompanhamento pediátrico, ela sofria com os pitacos da família e de amigos. “As pessoas diziam que tinha que oferecer o alimento amassadinho, que BLW fazia muita bagunça, que ia tudo para o chão. Como sou mãe de primeira viagem, me questionava.”
No caso da gaúcha Mauren, a incerteza partia do pediatra. “Quando eu sugeri, ele tomou um susto. Acho que imaginou que eu ia dar comida de adulto”, comenta. A saída foi buscar um nutricionista que estivesse familiarizado com o método e pudesse oferecer o suporte necessário.
Já July’anne se surpreendeu com o incentivo da pediatra que atendia seu filho no Sistema Único de Saúde. “Ela me passou uma lista de comidas e falou que ele saberia comer sozinho se eu deixasse”, lembra.
Olhar atento
July’anne entrou em um dos grupos do Facebook de mães que se interessam por BLW quando Heitor tinha 4 meses. Antes de tentar em casa, dois meses depois, ela pesquisou e tirou dúvidas com outras mulheres que já praticavam o método.
“Sempre respeitei a autonomia do meu filho. Sabia que ele não ia comer logo de cara, porque a criança precisa primeiro sentir a textura do alimento, brincar um pouco. Assim, mesmo com a pressão da família para desistir, eu me sentia segura.” Contudo, após Heitor completar 8 meses, July’anne começou a oferecer uma colher na hora das refeições.
“Pensei que o talher ajudaria, mas deixava-o livre para tentar com ou sem. Eu tinha a sensação de que, às vezes, ele comia pouco”, recorda. Esse risco existe. Não há comprovação de que o BLW garanta todos os nutrientes necessários para o desenvolvimento na quantidade adequada.
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“A criança precisa do ambiente certo para crescer e aprender a comer, e não existem estudos suficientes para dizer qual a vantagem de oferecer somente alimentos sólidos”, destaca a nutricionista infantil Priscila Maximino, do Instituto Pensi, em São Paulo.
Blw a fundo
- Associações de saúde de países como Canadá, Nova Zelândia e Estados Unidos não recomendam oficialmente o método por falta de dados sobre o impacto no crescimento da criança, a deficiência da ingestão de micronutrientes e calorias e sobre a segurança do método.
- No Brasil, a Sociedade de Pediatria é contra o uso exclusivo. Em um guia publicado na internet, sugerem, no início, dar alimentos com consistência de papa, mas não peneirada nem batida no liquidificador.
- Um estudo publicado pelo British Medical Journal concluiu que bebês que se alimentam sozinhos têm menor risco de se tornarem crianças obesas. Isso porque desde cedo eles aprendem a identificar o momento de saciedade.
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