Entre 70% e 90% das agressões contra mulheres atingem o rosto; entenda por quê
90% dos casos de agressão contra as mulheres atingem o rosto. Impactos psicológicos, financeiros e sociais são observados nas vítimas
Era 6 de fevereiro quando Alana Rosa, 20, recebeu mais de 15 facadas no rosto, no pescoço e nos braços. Um homem invadiu sua casa após passar meses insistindo em namorar com ela, apesar das recusas e da jovem dizer que estava focada nos estudos. O caso repercutiu nos jornais, nas redes sociais e nas conversas de rua, mas a direção dos golpes passou despercebida.
O que muitas meninas e mulheres vítimas de feminicídio ou de tentativa de feminicídio têm em comum é que seus rostos são a principal mira dos agressores. De fato, estudos das áreas de odontologia e medicina apontam que entre 70% e 90% das agressões físicas contra mulheres têm o rosto como alvo, segundo a promotora Fabíola Sucasas, em entrevista ao Fantástico.
“Não basta ferir, é preciso marcar, humilhar e reduzir a vítima à condição de alguém que carregará, todos os dias, a lembrança da violência sofrida”, diz Gabriela Fernandes Cazalli, advogada e pós-graduanda em Direito de Gênero.
Segundo a advogada, a agressão direcionada ao rosto funciona como uma forma de controle. “É uma violência que repercute na forma como ela se vê e como acredita ser vista pela sociedade. É como: ‘Se eu não posso controlar você, vou destruir aquilo que faz você se reconhecer e ser reconhecida’.”
Os impactos de uma violência contra a mulher direcionada ao rosto
“A nossa identidade está profundamente ligada à forma como nos percebemos e como nos apresentamos ao mundo, e o rosto é uma das regiões mais observadas nas interações sociais”, afirma Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora da University of Saskatchewan, no Canadá.
“No caso de uma desfiguração, o impacto emocional pode ser ainda maior, pois a dor passa a ser constantemente lembrada pelo reflexo no espelho e pelo olhar das outras pessoas”, diz Priscila Esteffania, terapeuta e autora de A Mulher que Rompe Padrões.
Diversas vítimas deixam de sair de casa. “Elas frequentemente acabam se responsabilizando pela violência que sofreram. Ainda é comum que a mulher seja questionada com perguntas como ‘o que você fez?’ ou ‘o que aconteceu?’, em uma tentativa, ainda que inconsciente, de encontrar uma justificativa para o comportamento do agressor”, afirma Renata.
Também não é raro que abandonem atividades profissionais e evitem novos relacionamentos, de acordo com as especialistas entrevistadas. Há ainda o impacto financeiro, já que muitas recorrem a cirurgias reparadoras ou estéticas para reduzir as sequelas das agressões.
Como uma desfiguração pode influenciar a tipificação do crime ou a definição da pena
“Sob a perspectiva jurídica, a desfiguração do rosto da mulher não é apenas uma consequência física da agressão. Ela pode representar um elemento capaz de alterar a própria classificação do crime e aumentar a responsabilização penal do agressor”, afirma Gabriela.
No ordenamento jurídico brasileiro, a existência de deformidade permanente por conta de uma agressão altera a classificação da lesão corporal. Nessas situações, a conduta passa a ser enquadrada como lesão corporal gravíssima, nos termos do artigo 129, § 2º, inciso IV, do Código Penal, o que implica a aplicação de pena mais elevada, conforme explica a advogada.
Segundo a especialista, a análise também deve considerar a perspectiva de gênero quando a violência ocorre no contexto doméstico. “A desfiguração do rosto frequentemente constitui um mecanismo de dominação, punição e controle sobre a mulher, perpetuando os efeitos da violência muito além do momento da agressão. A Lei Maria da Penha exige que a violência seja compreendida em toda a sua complexidade.”
O processo de recuperação
O processo de recuperação precisa ir além dos cuidados físicos, de acordo com Priscila. “É fundamental oferecer acolhimento psicológico. Por isso, a terapia é tão importante. Conhecer a própria identidade permite que a mulher entenda que a violência sofrida não define quem ela é.”
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