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Trend “caso ela diga não” expõe avanço da misoginia nas redes

Do humor à violência, a trend “caso ela diga não” revela o avanço da machosfera e seus efeitos na vida real

Por Gabriela Nassif 25 mar 2026, 08h00
Mulher escondendo o rosto e se protegendo com o braço esticado em fundo rosa
Trend ‘caso ela diga não’ viraliza e expõe onda de violência contra mulheres no Brasil (Reprodução/Freepik)
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Apenas dois dias após o Dia Internacional da Mulher, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar a trend “caso ela diga não”, que circulou nas principais plataformas de vídeo. Nos conteúdos, homens de diferentes idades simulam como reagiriam a uma rejeição amorosa, com encenações que incluem socos, chutes, tiros e até facadas.

Embora muitos dos vídeos não tenham sido gravados em 2026, eles voltaram a circular com força após o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro, reacendendo o debate sobre a banalização da violência contra a mulher nas redes.

Trend violenta nas redes acende alerta

Montagem mostra homem usando camiseta com o escrito
Montagem mostra Vitor Hugo Simonin usando camiseta com o escrito “regret nothing” e vídeos da trend “treinando caso ela diga não”, no TikTok. (G1/TikTok/Reprodução)

Em imagens exibidas pelo Fantástico, da TV Globo, os quatro homens envolvidos no crime riam e debochavam da vítima após o estupro.

Um dos investigados, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, se apresentou à delegacia usando uma camiseta com a frase “regret nothing” (“não se arrependa de nada”, em tradução livre). A expressão é associada ao movimento redpill, que dissemina discursos de ódio e subjugação contra mulheres.

Na mesma semana, o tenente-coronel Geraldo Neto foi preso e se tornou réu por feminicídio e fraude processual após a morte da esposa, a soldado Gisele Alves.

Em mensagens analisadas pela polícia, ele se autodenominava “macho alfa” e afirmava que a esposa deveria ser uma “fêmea beta obediente e submissa”, além de exigir relações afetivas e sexuais em troca do sustento financeiro da casa.

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Os números que mostram a gravidade

Gráfico mostra índice de casos de feminicídio por ano
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Reprodução)

Os dados ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o país registrou 1.568 casos de feminicídio em 2025 — o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015.

Ao mesmo tempo, cresce a presença de comunidades digitais que propagam discursos misóginos. De acordo com levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), canais brasileiros desse tipo somam mais de 23 milhões de inscritos e tiveram aumento de 18,5% desde abril de 2024.

O avanço da machosfera

A misoginia — caracterizada pelo ódio, aversão ou desprezo às mulheres — nem sempre se apresenta de forma explícita. Muitas vezes, esses discursos surgem disfarçados de conselhos sobre relacionamentos e comportamento.

Nessas narrativas, homens são colocados em posição de liderança, enquanto mulheres são incentivadas a assumir papéis de submissão.

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O termo “redpill” tem origem no filme Matrix. Na trama, a pílula vermelha revela a “verdade” sobre a realidade. No contexto atual, o conceito é apropriado por grupos que defendem a ideia de que os homens estariam perdendo espaço para as mulheres.

“Os adeptos acreditam que, com a ascensão do feminismo, o mundo passou a privilegiar as mulheres”, explica Erika Chioca Furlan, doutoranda em Ciências Sociais pela Unicamp, advogada criminalista e ex-delegada de polícia.

Segundo ela, há também uma espécie de cartilha informal com comportamentos considerados aceitáveis para uma parceira. “Para esses grupos, a mulher deve ser obediente, delicada, falar baixo, não usar roupas curtas e reconhecer o homem como chefe da casa”, afirma.

Quando a violência vira resposta

A especialista aponta ainda para o conceito de backlash — uma reação conservadora que busca frear avanços nos direitos das mulheres.

“Essa lógica enxerga a violência como uma forma de corrigir a mulher que está ‘fora da linha’ e colocá-la de volta em uma posição inferior”, diz.

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É nesse contexto que a trend “caso ela diga não”, o estupro coletivo no Rio de Janeiro e os índices recordes de feminicídio se conectam. Não são episódios isolados, mas manifestações de um mesmo fenômeno.

O impacto na vida real

Para Erika, esses movimentos representam um retrocesso nas conquistas femininas. “É como se déssemos um passo à frente e dois para trás. Há uma tentativa de manter privilégios e posições de poder”, afirma.

No cotidiano, esse tipo de discurso contribui para a formação de homens que não sabem lidar com frustração — seja diante de uma rejeição, um feedback negativo ou uma perda.

Comportamentos antes naturalizados, como piadas machistas, já não são mais socialmente aceitos. Ainda assim, quem não ressignifica esses padrões tende a reproduzir a violência.

Para a especialista, a solução vai além da punição. “É preciso investir em educação, diálogo e reflexão sobre o papel do homem na sociedade e nos relacionamentos. Entender limites e construir novas formas de convivência é essencial”, conclui.

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