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Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, influenciadora leva socos de desconhecido e expõe limites da lei

Carla Lemos foi agredida por um desconhecido em um samba no Rio. O caso expõe um ponto cego da lei sobre violência de gênero fora das relações

Por Carol Castro 12 ago 2026, 14h16 | Atualizado em 12 ago 2026, 15h25
Mulher de tranças com olho roxo e corte na testa segura uma camiseta branca suja de sangue, estampada com três sambistas e a frase O MAIOR ENCONTRO do SAMBA
Carla Lemos segura a camiseta que usava na noite em que foi agredida durante um samba na Fundição Progresso, na Lapa, no Rio de Janeiro (Carla Lemos/Acervo pessoal)
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A influenciadora carioca Carla Lemos, 40 anos, amanheceu na última sexta-feira, 7 de agosto, com seis pontos no supercílio esquerdo. Naquela madrugada, ela se divertia com os amigos em um samba na Fundição Progresso, uma casa de show na Lapa, região central do Rio, quando presenciou um início de confusão entre homens. 

Um deles, aparentemente bêbado, esbarrava em outras pessoas. Incomodado, um homem o avisou que não aceitaria outro empurrão. Os dois começaram a discutir – e o primeiro passou a esbarrar em Carla.

“Na moral, agora tem espaço livre aqui na frente, dá dois passinhos porque você tá caindo em cima de mim”, pediu Carla. Ele saiu. Mas, segundo relatos de Carla, um dos amigos dele, identificado como Lucas Henrique Baldusca Braz, contrariado, lançou no ar a bebida que segurava, se virou para onde ela e os amigos estavam, e a agrediu.

“Quando olho para minha mão ensanguentada, percebo que essa mulher sou eu”

“A partir daí, eu só lembro de violência. O bêbado me dá um empurrão de um lado, depois um soco na maçã do rosto que doeu bastante, e, na sequência, um soco na testa que ardeu. Sigo tentando me defender. Percebo um monte de gente se juntando ao meu redor. Ouço a cantora no palco falando: ‘tão agredindo uma mulher, ela tá sangrando’. Quando olho pra minha mão toda ensanguentada, percebo que essa mulher sou eu”.

Outra mulher, outro samba, uma agressão semelhante

No domingo anterior, dia 2 de agosto, Maithe Pedroni estava com cinco amigos – sendo dois deles homens – em outro samba, na rua do Passeio, também na Lapa. Puxaram a mesa onde estava o balde de cerveja mais para trás, para abrir mais espaço. Foi quando um homem desconhecido disse que os amigos logo retornariam àquele lugar, onde dançavam. 

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“Sem problema, quando elas voltarem, a gente se realoca”, negociou Maithe. 

Segundo ela, depois de vinte minutos, o homem a cutucou e ameaçou jogar a mesa para cima, caso eles não a retirassem de lá. Ela repassou o pedido ao amigo, que começou a afastar a mesa. O homem repetiu e, num ímpeto, jogou tudo para o alto. 

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Maithe conta que esticou o braço para manter distância e questionou se ele estava maluco. Na hora, o homem desferiu um soco no supercílio de Maithe. 

Dois casos, o mesmo desfecho: lesão corporal leve

Tanto Carla quanto Maithe foram para a 5a Delegacia de Polícia, ali perto. O caso das duas teve o mesmo desfecho: lesão corporal leve, homem solto. 

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Violência de gênero ou “briga generalizada”?

A advogada Thaiz Sardinha estava no mesmo samba de Carla quando ouviu a cantora anunciar que uma mulher estava apanhando. Correu para lá. “Aquela é minha principal frente de trabalho, não é algo que eu tenho só no trabalho, mas na minha vida. Em questão de gênero, mulher, criança, adolescente, eu não tenho como estar ali e não prestar suporte”, explica.

Ela alega que Carla foi vítima de violência de gênero. “Ela não estava ali e do nada levou um soco. Pelo contrário, ele a escolheu. Tinha outro rapaz que já tinha o confrontado por estar caindo bêbado em cima das pessoas, e ele em nenhum momento foi pra cima desse rapaz. Foi pra cima da minha cliente”, diz. 

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“Ele puxou o cabelo, a cantora precisou falar duas vezes, ele não parou até outras pessoas o pararem. Quando a gente fala em tentativa de feminicídio, existe essa insistência na agressão que pode indicar o risco assumido de matar. Dentro da delegacia, ele passou debochando da Carla, mandou beijinho. Isso caracteriza menosprezo”, completa. 

Do outro lado, Gabrielly Lima Cruz, advogada do acusado, diz que ele saiu em defesa do amigo. “Um homem alto, branco e magro fez ofensas racistas ao amigo dele. Os dois começaram a brigar, foi um jogo de empurra, empurra. Todo mundo dentro do grupo começou a bater. Pode ser que tenha acontecido algum golpe ali no meio”, afirma. Ela não sabe quem é o homem supostamente racista, mas alega ser “amigo de Carla”.

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A delegacia classificou da mesma forma: briga generalizada. “Eles não pediram imagens das câmeras, o agressor não se manifestou. A cantora testemunhou que não houve briga generalizada, apenas aquela. Não sei de onde tiraram a informação de que foi uma briga generalizada. A Fundição irá encaminhar para os autos um parecer alegando que não se tratou disso”, explica Sardinha. 

O que mudaria com a ampliação da Lei Maria da Penha?

Simbolicamente, na noite em que Carla foi agredida, a lei Maria da Penha havia acabado de completar 20 anos de vigência. E o Supremo Tribunal Federal julgaria, no mesmo dia, a ampliação das concessões de medida protetiva para casos fora do âmbito doméstico, sem a necessidade de vínculo entre vítima e agressor – a votação foi adiada e deve ser reiniciada nesta quarta-feira, 12.

Segundo Sardinha, a extensão da lei resolveria um problema concreto que ela viu de perto no caso de Carla: hoje, sem vínculo, não existe nenhum mecanismo de proteção nem tratamento especializado. “A delegada fica remotamente, numa central, e nem sabe o que o agressor está fazendo dentro da delegacia. Se houvesse vínculo prévio, ela estaria amparada por medida protetiva, ele seria preso em flagrante na mesma hora, ela teria ido para uma delegacia especializada”.

“Não vamos resolver isso só remendando a Maria da Penha”

Sem qualquer ligação com os casos de Carla e Maithe, a advogada Isabela del Monde, cofundadora da Rede Feminista de Juristas, apoia a ampliação da lei – mas ainda acha insuficiente. “Defendo, evidentemente, a expansão. Mas, nesse caso [de Carla], seria útil só depois, porque o STF está decidindo especificamente sobre medidas protetivas. 

Na avaliação dela, o Brasil segue “fazendo puxadinho” na legislação de proteção às mulheres – resolvendo lacuna por lacuna, caso a caso, em vez de criar uma resposta abrangente. “A gente tem uma resposta exclusivamente para violência doméstica, embora ela seja fundamental. Mas isso deixa de fora todas as outras violências baseadas em gênero que ocorrem em outros âmbitos, no trabalho, na educação, no acesso a recursos”, afirma.

Por isso, ela defende a criação de uma lei única e abrangente, que reúna num só marco normativo os direitos e interesses das mulheres. “Eu acho que a gente precisava ter um pouco mais de ousadia. Não vamos resolver isso só remendando a Maria da Penha”, diz.

Enquanto essa discussão não avança, a recomendação prática de del Monte para mulheres vítimas de agressão por gênero é buscar diretamente uma delegacia especializada, mesmo sem vínculo com o agressor.

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