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Emprego para vítimas de feminicídio: o projeto de café na Índia que impressiona

Na Índia, o Sheroes Hangout é um café que empodera mulheres vítimas de ataques com ácido, oferecendo trabalho e um novo começo

Por Ana Carolina Palermo 12 Maio 2026, 12h02
Quatro mulheres posam juntas usando camisetas brancas com a frase "My Beauty Is My Smile" e uma ilustração colorida. Algumas têm marcas de queimadura no rosto. Atrás delas há uma parede coberta de mensagens escritas à mão e bolsas coloridas bordadas penduradas. O ambiente parece ser o Sheroes Hangout, um café na Índia gerenciado por sobreviventes de ataques com ácido.
Funcionárias do Sheroes Hangout em Agra, Índia (Chhanv Foundation'/Reprodução)
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A poucos quilômetros do Taj Mahal, um lugar chama atenção. No Sheroes Hangout, o massala chai é servido pelas mãos de mulheres sobreviventes de ataques com ácidos. Elas são o rosto e a força do café fundado em 2014, em Agra, no Norte da Índia, pela Fundação Chhanv, com o propósito de gerar oportunidades de trabalho e incentivar a autonomia a mulheres vítimas desse tipo de violência.

Violência com ácido é recorrente na Índia

Na Índia, a violência com ácido contra mulheres ainda é muito presente. De acordo com o India’s National Crime Records Bureau  (NCRB), são reportados aproximadamente duzentos casos por ano e 80% das vítimas são as mulheres. 

Muitos casos estão ligados à rejeição amorosa, disputas familiares ou conflitos relacionados a propriedades.

O ácido, vendido ilegalmente de maneira relativamente acessível, é utilizado como arma para desfigurar e intimidar mulheres. As consequências físicas e psicológicas costumam ser permanentes, exigindo dezenas de cirurgias e longos processos de recuperação. 

Como surgiu a ideia do projeto

A ideia do café surgiu com a dificuldade que muitas sobreviventes encontravam ao tentar ingressar no mercado de trabalho após os ataques. Em sociedades com altos índices de desigualdade gênero, muitas vítimas chegam a deixar de frequentar espaços públicos por conta do estigma e preconceito. 

O primeiro Sheroes Hangout nasceu a partir de uma dessas histórias. Geeta Mahor foi atacada pelo marido enquanto dormia com suas filhas. O golpe brutal do ácido não marcou apenas a vida de Geeta, mas também das meninas.

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Com uma filha morta e outra cega, sem renda, nem apoio, sua trajetória chegou ao cofundador Ashish Shukla, que decidiu criar o Sheroes como alternativa de sobrevivência. O café foi inaugurado na cidade de Agra, em Uttar Pradesh, e posteriormente ganhou unidades em Lucknow e Noida.

Homem de kurta branca cortando uma fita vermelha em uma cerimônia de inauguração na Índia, rodeado por jovens mulheres de camiseta branca e várias outras pessoas ao fundo. Há uma guirlanda de flores laranjas e um banner amarelo à esquerda.
Sheroes Hangout em Agra, Índia (Chhanv Foundation'/Reprodução)

O nome “Sheroes” mistura as palavras “she” e “heroes”, algo como “elas heroínas”, que evidencia o protagonismo dessas mulheres. 

Administrado pelas próprias sobreviventes, funciona como um espaço de autonomia financeira e reconstrução da autoestima.

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Durante anos, o estabelecimento operou no modelo “pague quanto quiser”, justamente porque as funcionárias nunca haviam trabalhado em restaurantes e queriam criar um ambiente mais livre e acolhedor para os visitantes. 

Muito mais que um café

Além de servir refeições e bebidas, o espaço também abriga exposições, debates e campanhas de conscientização sobre violência de gênero.

Nas paredes, fotografias e frases motivacionais dividem espaço com relatos das mulheres que trabalham ali. O café se tornou um ponto turístico , atraindo visitantes interessados na história de sobrevivência das funcionárias.

Segundo a fundação responsável pelo projeto, mais de 100 sobreviventes de ataques com ácido já receberam assistência médica, apoio jurídico, educação e oportunidades de emprego por meio da organização.

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O Sheroes também financia cirurgias reconstrutivas e mantém projetos de capacitação profissional para mulheres vítimas de violência. “Elas querem ser normais, e normal significa acordar de manhã e ir trabalhar” , afirmou Alok Dixit, o outro fundador da Chhanv Foundation, em entrevista ao jornal The Times

Duas fotos lado a lado. Na esquerda, quatro mulheres de camiseta branca fazem joinha para a câmera atrás de um balcão com potes de vidro e produtos à venda. Algumas delas têm marcas de queimadura no rosto. Na direita, uma jovem com uniforme de chef branco e chapéu alto segura uma bandeja vermelha com dois copos de bebida. Ela também tem marcas de queimadura no rosto e sorri para a câmera.
Imagem sem fonte Funcionárias do Sheroes Hangout em Agra, Índia (Chhanv Foundation')

Até 2014, o ano de inauguração do primeiro Sheroes Hangout, os ataques com ácido não eram considerados crimes de alta gravidade na Índia.

Os agressores recebiam apenas três meses de pena de prisão. A trajetória das mulheres de Sheroes é um movimento inspirador e necessário para a mudança desse cenário, impedindo a normalização desse tipo de violência.

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