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Por que mulheres com direito ao aborto legal ainda enfrentam barreiras invisíveis no SUS?

Embora seja garantido por lei em casos específicos, o aborto legal é cercado por barreiras institucionais que dificultam o acesso

Por Lorraine Moreira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 Maio 2026, 18h00
Foto de um cartaz com a frase: Aborto legal gratuito nos hospitais
Desinformação, entraves políticos, desigualdade regional e barreiras institucionais afetam acesso ao aborto legal (Paulo Pinto/Agência Brasil)
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Por que mulheres com direito ao aborto legal ainda enfrentam barreiras invisíveis no SUS? Priorizar nos meus resultados Google

O aborto induzido não é considerado crime no Brasil quando a gravidez é resultado de estupro, representa risco de vida para a gestante ou quando o feto não possui cérebro. As mulheres que se enquadram nessas situações têm respaldo para obter gratuitamente o aborto legal através do SUS, sem um prazo limite para a realização dele, mas diversas barreiras dificultam o acesso por quem tem esse direito.

“O acesso ao aborto legal nunca foi fácil no Brasil, se lembrarmos que o direito está posto desde 1940 (para os casos de risco à vida e gravidez por estupro), e no entanto foram necessários quase 50 anos para que se criasse o primeiro serviço público de atendimento”, segundo Laura Molinari, codiretora da campanha Nem Presa Nem Morta.

Aborto legal no Brasil: por que mulheres ainda enfrentam barreiras para acessar o direito garantido pelo SUS

Um dos casos mais recentes a afetar o direito ao aborto legal foi o encerramento do serviço no Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, em 2023, pela gestão Ricardo Nunes (MDB). Depois de multa e pedido de recurso, apenas em março de 2026 a Justiça determinou que a Prefeitura paulistana retomasse o atendimento.

Laura enumera algumas outras ações que buscam ampliar as barreiras de acesso ao aborto legal: “No Congresso Nacional, através de propostas que querem garantir personalidade jurídica a fetos e embriões, acabando com as hipóteses de aborto legal; nas casas legislativas locais, que aprovam projetos de lei para disseminar desinformação sobre aborto nos serviços de saúde”.

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Em novembro de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que suspende os efeitos de uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), de dezembro de 2024, que regulamenta o direito de menores ao aborto legal. O texto vai ao Senado.

“Meninas e mulheres negras, pobres, com baixa escolaridade, que não têm condições financeiras, são atingidas de forma mais incisiva. Elas possuem mais dificuldade ao acesso à informação e enfrentam a morosidade na concessão do direito ao procedimento, acabando por interromper a gestação em fases já mais avançadas”, segundo a antropóloga Débora Diniz, uma das principais pesquisadoras sobre aborto no Brasil.

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De acordo com Laura, no próprio oferecimento ou na divulgação de conteúdo nas redes sociais existem ações articuladas para evitar o aborto legal. 

“Aparecem nos serviços, em que profissionais e gestores de saúde demandam burocracias desnecessárias para garantir o que está na lei, como uma suposta necessidade de autorização judicial para abortar; nas redes sociais, em que organizações antiaborto investem milhões em publicidade que reforçam estigmas sobre o tema”, diz ela.

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Aborto legal: só 4% das cidades brasileiras oferecem acesso ao procedimento previsto em lei

Fotos de manifestantes que foram às ruas com cartazes contra o PL 1940 e sobre criança não ser mãe
Existe uma concentração dos serviços de aborto legal (Paulo Pinto/Agência Brasil)

Além disso, existe uma diferença no acesso ao aborto legal dependendo de onde você está. Apenas 4% do território brasileiro tem serviços disponíveis para o aborto legal, segundo uma pesquisa divulgada em 2021

Os locais estão concentrados em 200 cidades, a maioria delas no Sudeste. Isso significa que existem diversas áreas nas quais esses serviços não são realizados. Pessoas que têm direito à realização, então, acabam precisando viajar para outras regiões.

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Outro ponto vem de um estudo que analisou a atuação de 19 Defensorias Públicas estaduais e do DF, desenvolvido pelo Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, pela campanha Nem Presa Nem Morta e por Ipas – Parceiros por Justiça Reprodutiva. 

A pesquisa descobriu que existem diferenças nas atuações das defensorias, na estrutura das instituições e na capacidade de articulação com a rede de saúde. O problema é que as defensorias são fundamentais para a realização do aborto legal porque atuam na defesa dos direitos das mulheres que enfrentam barreiras nos serviços de saúde.

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Mesmo garantido por lei, aborto legal no Brasil enfrenta desinformação, entraves políticos e falta de acesso

Segundo Laura, com as pressões políticas e sociais, as defensorias também são afetadas de outra maneira. “A pressão externa acaba impactando o acesso efetivo das pessoas ao aborto legal, o que resulta em maior demanda de intervenção das Defensorias Públicas para um procedimento autorizado desde 1940 e que não depende de qualquer intervenção judicial.” 

As pressões também podem impactar na adoção de posicionamentos sobre o tema. “Muitas vezes, o acesso ao aborto legal depende da estrutura disponível naquela defensoria. Quando não há fluxos claros, registro adequado ou protocolos formalizados, o direito acaba ficando condicionado a iniciativas isoladas”, afirma Julia De Lucio, uma das pesquisadoras do estudo sobre a atuação das Defensorias Públicas no Brasil.

Através de notas técnicas e ações de litígio estratégico para a defesa do direito ao aborto legal, porém, as defensorias têm se posicionado contra tentativas de retrocessos no campo do acesso ao aborto legal, de acordo com Laura.

Outra ponto é a diferença entre a procura pelo serviço e o número de mulheres que se enquadram no grupo de pessoas que possuem direito ao aborto legal. “Mesmo em estados que têm defensorias mais estruturadas e núcleos especializados, a procura é muito baixa se comparada às estatísticas relativas à violência sexual e a gestações na infância, por exemplo, que são uma das hipóteses não criminalizadas de aborto.”

De acordo com ela, “a discrepância entre a procura pelo acesso ao aborto legal junto às defensorias públicas e as estatísticas que evidenciam que existem muitas pessoas em situação de aborto legal que não acessam o procedimento é consequência do desconhecimento, por parte dessas pessoas, sobre o seu direito”.

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