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A nova ameaça invisível: como os óculos da Meta viraram arma de assédio contra mulheres

Óculos inteligentes da Meta têm sido usados para filmar mulheres sem consentimento, expondo uma grave regressão social e assédio

Por Ana Luiza Bezerra 10 ago 2026, 17h34
Homem negro com cabelo trançado, vestindo jaqueta verde-escura, ajusta óculos de sol Ray-Ban Stories com a mão direita, exibindo um anel prateado no dedo anelar. Ele olha para a frente, em um fundo cinza-escuro
Óculos inteligentes da Meta viram nova ferramenta de assédio contra mulheres (Meta/Divulgação)
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“Sorria, você está sendo filmada!” Quantas vezes você já parou para pensar que poderia estar sendo gravada? Não, nós não estamos falando das clássicas medidas de segurança adotadas por alguns espaços. Até poucos anos atrás, para ter a imagem utilizada por outras pessoas, o processo era inevitavelmente visível: uma câmera estrategicamente posicionada, um celular sendo apontado, e por aí vai. Mas, com os avanços tecnológicos, esse processo tem sido cada vez mais facilitado.

Desde o ano passado, temos visto o boom dos óculos da Meta, empresa responsável pelo Instagram e Facebook. Lançados originalmente em 2021, os óculos inteligentes ganharam novas versões em 2023, já com tecnologia de ponta, recursos de inteligência artificial e uma câmera de alta capacidade.

O pacote perfeito para influenciadores e criadores de conteúdo garantirem os melhores cliques a partir do próprio olhar, sem deixar de viver experiências. Mas quem poderia imaginar que, como outros inúmeros avanços tecnológicos, os óculos também se tornariam uma espécie de arma contra o público feminino, não é mesmo?

Mulher de cabelos escuros e longos, com maquiagem leve, abaixando óculos de sol pretos para revelar os olhos castanhos, em fundo claro
O consentimento virou detalhe? O que os óculos inteligentes revelam sobre vigilância feminina (Meta/Divulgação)
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Quando a inovação encontra um velho comportamento

Nas redes sociais, inicialmente vimos alguns vídeos de pessoas gravando as clássicas pegadinhas, outras aproveitando para registrar momentos inesquecíveis de forma que os seguidores pudessem se sentir vivenciando a mesma experiência, como vimos nos jogos da Copa do Mundo de 2026.

Só que rapidamente outros conteúdos passaram a tomar as plataformas: homens que começaram a aproveitar o aspecto discreto da câmera para filmar mulheres sem consentimento, alguns até mesmo se valendo de situações de vulnerabilidade e distração para cometer assédio.

O problema não são os óculos

Inicialmente, é importante destacar que toda essa questão não está centralizada nos aparelhos, pensados principalmente para serem facilitadores na criação de conteúdo. A Meta inclusive afirma que os óculos contam com recursos de privacidade, como uma luz indicadora de gravação, e anunciou atualizações para desativar a câmera caso o LED seja adulterado ou destruído.

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O problema mesmo está em como a tecnologia tem avançado com o objetivo de auxiliar a vida humana, mas, com ela, percebemos também o tamanho do regresso social. Um bom exemplo é o uso criminoso de inteligência artificial para adulterar e sexualizar fotos de mulheres.

A tecnologia pode até ser nova, mas a lógica não é. O que muda é o formato da ferramenta. O comportamento continua sendo o velho conhecido: homens usando qualquer brecha para transformar mulheres em objeto de desejo e constrangimento.

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Mulher negra de cabelo curto e escuro, usando óculos de sol pretos e jaqueta bomber marrom-escura, ajustando os óculos com a mão direita. Ela tem lábios brilhantes e brincos de argola duplos prateados, com expressão confiante em fundo cinza
As câmeras discretas do óculos abrem margem para uma nova discussão (Meta/Divulgação)

O consentimento virou detalhe?

Como se não bastasse já termos que conviver com a sensação constante de vigilância no transporte público, na academia, na praia, em festas e até em momentos simples do dia, agora temos que nos preocupar até mesmo se aquilo é apenas um par de óculos ou se há o uso indevido da nossa imagem.

E, quando a captação se torna quase imperceptível, o consentimento corre o risco de virar detalhe. A pessoa não sabe que está sendo filmada, onde aquele vídeo será publicado ou se sua imagem será usada em um contexto sexualizado ou humilhante. O pior é que, quando esses registros chegam às redes, muitas vezes ainda são tratados como entretenimento banal.

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Estar em público não significa estar disponível 

É comum que esse tipo de discussão seja rapidamente atravessada pela justificativa de: “mas ela estava em um espaço público”. Como se estar na rua ou qualquer outro lugar fosse o mesmo que autorizar alguém a transformar seu corpo em conteúdo.

Só que existe uma diferença enorme entre aparecer ao fundo de uma imagem e ser deliberadamente filmada por alguém que te escolheu como foco. E existe, principalmente, diferença entre tecnologia de uso cotidiano e tecnologia usada como extensão de um comportamento invasivo.

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O ponto é que, quando um dispositivo facilita a gravação discreta em espaços públicos, ele também exige uma conversa muito mais séria sobre limites. A pergunta deveria ser: por que, sempre que uma nova tecnologia surge, as mulheres precisam ser as primeiras a se preocupar com a forma como ela poderá ser usada contra elas?

Inovar também deveria significar proteger. E, enquanto a privacidade feminina seguir sendo tratada como efeito colateral do progresso, toda novidade tecnológica chegará com a mesma promessa sedutora de futuro, mas carregando nas lentes um problema antigo.

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