O que fazer no País Basco: museus, vinícolas e cidades fora do roteiro comum
Na região espanhola, a arte de Chillida e Balenciaga encontra uma gastronomia rica e paisagens verdes
“A única coisa inalcançável é o horizonte.” A frase é do escultor e artista plástico espanhol Eduardo Chillida e descreve, de certa forma, uma obviedade: quanto mais nos aproximamos do encontro entre o céu e a terra, mais ele se desloca para frente, numa busca frustrante e, ao mesmo tempo, estimulante.
Mas o pensamento também define a forma como esse artista, conhecido por suas esculturas contorcidas em ferro e aço, enxergava o mundo e a sua obra. O espaço, para ele, é a grande revelação da arte, a camada em que o movimento se manifesta e a transformação acontece.
Suas criações misturam a geometria engendrada pela ação humana e a forma orgânica da natureza: trazem linhas retas, mas que foram intencionalmente desgastadas pela mão do artista e se encontram em ângulos ligeiramente imperfeitos. Colega de Picasso e Balenciaga, Chillida se tornou um dos grandes nomes da arte do século 20 e é também o filho que mais bem representa a sua terra natal: o País Basco, um lugar em que a natureza e a engenhosidade humana esculpiram uma cultura única.
O País Basco é a região noroeste da Espanha, fronteiriça à França, banhada pela Baía de Biscaia, e que, no papel, pouco tem a ver com o que imaginamos desse país europeu. Ao contrário das regiões espanholas mais visitadas, como a Andaluzia, a Catalunha ou as ilhas Maiorca e Menorca, Euskadi (seu nome no idioma basco) é chuvoso o ano inteiro — cinzento, até. Graças a isso, ostenta uma natureza exuberantemente verde e fértil.
Tudo nasce por lá, e em boa qualidade: hortaliças, legumes, videiras, animais de criação. Não à toa, é o local da boa comida, dos bons vinhos e da alta gastronomia. San Sebastián, uma de suas três capitais, carrega o título de cidade com o maior número de estrelas Michelin per capita do mundo. É a terra de chefs como Juan Mari Arzak, Martín Berasategui e Josean Alija, e de uma cultura gastronômica que nasceu dos bares de pintxos e dos txokos, sociedades gastronômicas fechadas, em que homens se reúnem para cozinhar e testar novas receitas (sim, você leu certo).
Qualquer taberna ou café serve comida para deixar os visitantes emocionados. Toma-se chuva em Euskadi, mas se come maravilhosamente bem por lá também.
Eduardo Chillida não escolheu o ferro como matéria-prima de sua arte por acaso. Esse minério moldou a política, a cultura e a economia da região nos últimos séculos, e a transformou em uma das mais ricas da Espanha. O País Basco é um polo industrial e tecnológico (há empresas bascas trabalhando na construção do metrô de São Paulo, por exemplo) e goza de autonomia fiscal do resto do país. Ou seja, tem o direito de arrecadar e distribuir os impostos de sua população da maneira como julgar melhor.
A região também abriga a última língua não-indoeuropeia do continente, o misterioso basco. Ele não tem parentesco com nenhum outro idioma conhecido no planeta e é preciso muita boa vontade para arriscar mesmo as mais básicas das expressões com os locais (“Bom dia, onde fica o banheiro, por favor?” vira “Egun on, non dago komuna, mesedez?”). Para a sorte dos brasileiros, não há quem não fale o espanhol por lá e o pedido por um “baño” resolve qualquer emergência.
Fora do roteiro
Quando se pensa em turismo no País Basco, a maior referência costuma ser o museu Guggenheim, em Bilbao, projetado por Frank Gehry, com suas pontas de titânio que avançam para o céu. San Sebastián é o segundo destino no imaginário, uma cidade-balneário de urbanismo parisiense e queridinha entre surfistas e gourmands.
Mas há um País Basco menos óbvio — e igualmente pitoresco — longe dos principais centros urbanos. A começar pelo próprio Chillida Leku, a antiga casa de Eduardo transformada em museu a céu aberto, em que visitantes flanam entre castanheiras e gramados felpudos para admirar as esculturas espalhadas pelo jardim. A 10 quilômetros de San Sebastián e pouco conhecido até entre espanhóis, o museu é o tipo de dica que agrada aos amantes das artes, da natureza e tudo que fica no meio.
Outro museu que vale a visita é o dedicado ao grande amigo de Chillida, o estilista Cristóbal Balenciaga. No meio do caminho entre San Sebastián e Bilbao, a instituição abriga fotos, documentos e peças originais do desenhista basco que, aos 12 anos, encantou uma marquesa local e se tornou um dos mais celebrados da Espanha. Balenciaga foi um gênio na modelagem de roupas, muitas vezes feitas a partir de recortes de um único pedaço de tecido, um feito que se compreende nos moldes em 3D que estão expostos no Museu. “Nós fazemos o que podemos com o tecido. Balenciaga faz o que quer”, disse certa vez Christian Dior sobre o colega.
Mais para os lados de Bilbao, a 70 quilômetros sentido interior, fica outra joia da região: o Valle Salado de Añana. Trata-se da mais antiga região salina em atividade do mundo. Desde os tempos Neolíticos, há 7 mil anos, seres humanos evaporam a água naturalmente salgada que brota por lá para obter o mineral tão essencial para a culinária. Durante o Império Romano foram criadas as instalações que estão em atividade até hoje: canaletas de água que enchem centenas de tanques rasos ao ar livre, que então são evaporados pelo sol e pelo vento, formando flores e escamas de sal.
O destaque, porém, vai para umas inacreditáveis estalactites de sal, formadas a partir do que vai se acumulando na borda das canaletas. Essas rochas delicadas viraram moda entre chefs estrelados: leva-se elas à mesa junto com um ralador de queijo, para que possam ser raladas em frente aos convivas, salgando saladas e sobremesas, e servindo de material para risadas genuínas.
Tintos e brancos
Mas já que nos sentamos à mesa, chegamos a mais um assunto imperdível da região: o vinho. O País Basco abriga um pedaço da denominación de origen calificada (DOC) Rioja, a Rioja Alavesa, famosa por seus vinhos Tempranillo envelhecidos em barris de carvalho. É possível fazer um roteiro por Euskadi com base apenas na visitação das bodegas, que são verdadeiros centros de cultura e gastronomia. É o caso da vinícola Marqués de Riscal, cuja sede também foi projetada por Frank Gehry, em atividade desde 1858 e que exporta suas garrafas para 110 países. A dica aqui é aproveitar o restaurante dentro do hotel-sede depois da degustação.
Eles servem as tradicionais croquetas de Echaurren, feitas com jamón e molho bechamel (!), que são um acontecimento explosivo no paladar. Outra vinícola que merece a visita é a Bodegas Faustino, desenhada pelo arquiteto inglês Norman Foster, que produz os premiados vinhos de mesmo nome. Para além da degustação, apenas a vista do centro de visita, todo em madeira e voltado para as videiras, já impressiona.
Mas para uma experiência verdadeiramente local, nada supera os vinhos brancos de uva Txakoli, uma variedade basca na sua essência. Até recentemente, essa variedade tinha pouca aceitação entre forasteiros por sua alta acidez e aspereza na boca, e costumava ser servida como uma bebida casual entre amigos.
Nos últimos anos, no entanto, enólogos vêm se esforçando para torná-la mais palatável e sofisticada, como é o caso da Bodega K5, especializada nessa variedade. O vinho segue bem ácido, mas tem sua “interessância”: vai bem com os pintxos mais gordurosos, como as croquetas ou os empanados de frutos do mar. Em todos os pontos, o País Basco se revela para quem tem a curiosidade e o estômago bem aguçados.
O que fazer no País Basco?
KAIA KAIPE
A poucos passos do Museo Balenciaga fica esse restaurante com vista para o porto de Getaria. Sente-se na varanda e observe o braseiro instalado do lado de fora da casa, de onde saem peixes fresquíssimos, pescados há poucas horas.
Não deixe de provar as valorizadas kokotxas, uma iguaria basca feita com a garganta do bacalhau, de textura gelatinosa e sabor característico. O filé com foie gras (acima) é outro destaque.
PERRETXICO TABERNA
Nenhuma ida ao País Basco estará completa sem uma noite passada num tradicional bar de pintxos (ou tapas, para o resto da Espanha). Este aqui fica em Vitoria-Gasteiz, e oferece um menu fechado de petiscos, para que se tenha a experiência completa.
Para começar, prove as tostadas cobertas com peixe e embutidos, depois passe para a deliciosa La Gilda, um espetinho feito com as melhores anchovas que você vai comer na vida, azeitonas verdes e uma pimenta em conserva chamada piparra. Aqui, vale pedir uma garrafa do vinho Txakoli para uma vivência realmente típica.
NERUA
Colado ao Guggenheim, fica o estrelado Nerua, do chef Josean Alija. De ambiente minimalista e serviço impecável, a casa foca em criações com produtos locais.
O menu varia de acordo com a estação, mas o destaque no dia da visita foi o prato com o Guisante Lágrima, uma espécie de ervilha raríssima que só nasce no litoral do País Basco. Com um dulçor inesperado, sua colheita ocorre em poucas semanas do ano e precisa ser feita manualmente, o que faz com que custe até 300 euros o quilo.
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