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Aos 45, Mariana Ximenes abre o jogo sobre maternidade: “Eu tô em paz”

Mariana Ximenes, estrela de “Quem Ama Cuida”, relembra na capa de CLAUDIA os momentos que moldaram sua família, escolhas e visão artística

Por Carol Castro 14 ago 2026, 10h00
Mulher de pele clara e cabelos loiros ondulados na altura dos ombros, olhando diretamente para frente. Ela veste uma blusa rosa clara que deixa um ombro à mostra, em um ambiente com detalhes verdes e dourados ao fundo
Mariana Ximenes estrela a capa da Revista CLAUDIA de agosto (Tauana Sofia/CLAUDIA)
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Groaíras, Ceará, 1962. Muitos anos depois, numa tarde distante das câmeras, Mariana Ximenes haveria de lembrar daquele dia remoto em que sua mãe, ainda menina, ergueu o braço e decidiu, sem saber, o destino das futuras gerações. “Eu quero ir”, disse Fátima, aos 7 anos.

Naquele início dos anos 1960, Maria do Carmo, avó de Mariana, suava no sertão cearense para encher a barriga de seus quinze filhos. Faltava dinheiro, mas sobrava amor no quintal dos Ximenes — até para compartilhar com aqueles que amargavam o triste gosto de tentativas frustradas de gravidez.

A infância de Mariana Ximenes no Ceará e a história da família

Mulher de cabelos loiros ondulados, vestindo blusa vermelha de renda, deitada em um sofá estampado, olhando para cima com expressão serena. Ao fundo, objetos de cerâmica decorativos em tons terrosos.
Look completo Cris Barros (Tauana Sofia/CLAUDIA)

É que a fábrica de filhos não se replicou na família toda. Um dos tios, com a vida financeira um pouco mais tranquila, morava no Rio de Janeiro — recém-destituído, à época, do posto de capital federal — e não conseguia de jeito nenhum ter um filho com a esposa. Decidiu, então, fazer uma proposta à cunhada: adotar uma de suas crianças.

Os pais, de acordo com o pedido, reuniram as crianças e perguntaram. “Alguém gostaria de se mudar para o Rio?”. Fátima, corajosa, topou. E, assim, o avô e a mãe de Mariana viajaram de pau de arara até a Cidade Maravilhosa.

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“É bonita essa história, tenho orgulho. Minha mãe era muito forte já desde pequena. Nunca perdeu o vínculo com minha avó, que é outra mulher maravilhosa, com meu avô, que morreu cedo, e com os irmãos”, diz a atriz, que, atualmente, interpreta a personagem Dora, em Quem Ama Cuida, novela das nove da Globo.

A pequena Fátima cresceu, estudou e se formou em fonoaudiologia. Numa das viagens a trabalho em São Paulo, conheceu o amor. Trocou as praias cariocas pela selva de pedra paulistana e se casou com o advogado José Nuzzi. Como fertilidade é coisa séria na família, logo veio a primeira filha: Mariana, em abril de 1981. Um ano e meio depois, veio Rafael.

Fátima diria sim ao Rio, outra vez, 17 anos depois do nascimento da primogênita. Só que agora não era para sonhar com uma vida melhor. Era para ver Mariana viver os próprios sonhos. 

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Como Mariana Ximenes descobriu a vocação para a atuação

Mulher loira de cabelo ondulado, vestindo um vestido rosa claro de renda com ombros à mostra, deitada no chão com um livro ao lado, olhando para o lado direito. Ela está sob uma mesa de madeira escura com detalhes dourados e verdes, em um ambiente com móveis antigos
Look completo Paula Raia (Tauana Sofia/CLAUDIA)

“O coração de o’cêis é bão, é terra boa pra crescer o amor. E eu tô muito gardecida de receber o primeiro pedaço de bolo que vai ficar sargado de tanta lágrima que vai cair”. Poderia ser a fala da avó Maria do Carmo, no casamento de Fátima. Mas era só um trecho de novela.

Não de qualquer novela, mas de Chocolate com Pimenta (2003). Na cena, Carmem (interpretada por Laura Cardoso) agradece, emocionada, a homenagem feita pela personagem de Mariana, a neta Aninha (Ana Francisca), em seu casamento.

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“Minha filha, que Deus lhe potreja para sempre” poderia ser a continuação do discurso da vó Carmem. Mas realidade e ficção, às vezes, parecem brincar juntas. Esta não era uma fala encenada por Laura Cardoso. Era o amor de Maria do Carmo com a neta, no leito de hospital, lá pelos idos de 2010.

“Achei a frase tão singela, sabe?”, relembra. A matriarca viveu tempo suficiente para ver Mariana brilhar nas telinhas e no cinema. E se orgulhava ao ver a neta ser reconhecida pelos corredores do hospital.

Não era para menos. Desde Ana Francisca, sua primeira protagonista, Mariana Ximenes nunca mais passaria despercebida pelas ruas. Mas aquele não foi, nem de perto, o primeiro papel dela.

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A brincadeira começou cedo, aos 7 anos, quando uma professora da escola, a tia Vivi, colocou os alunos para interpretarem a história de Cinderela. “Nós somos amigas até hoje e ela sempre diz que, lá atrás, já via uma vocação em mim, que tinha alguma coisa diferente”, conta.  E tinha. As duas sabiam. 

Foi o filme E o Vento Levou (1939) que consolidou de vez a vontade da garota. Escondida dos pais, numa madrugada sozinha em casa com o irmão e uma cuidadora, Mariana colocou o filme para rodar. Dali em diante, não parou mais de perguntar aos pais sobre cinema — como eram gravados os filmes, quem escrevia os personagens, etc. Era o pai quem sempre a acompanhou nessa imersão cultural.

A menina cresceu, estudou teatro na Escola Célia Helena, atuou em campanhas publicitárias, e passou no vestibular para cursar cinema. Mal deu tempo de começar os estudos. Aos 17 anos, fez o caminho inverso da mãe na ponte aérea São Paulo-Rio, deixando para trás os ipês floridos do inverno paulistano, que adora. Fátima foi junto.

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Dali em diante, Mariana despontou e colecionou papéis e prêmios — os principais deles foram o Grande Otelo, em 2003, pela atuação no longa O Invasor (2001), e o Kikito, em 2015, pelo filme Um Homem Só (2015), em que atuou e produziu. O mais recente, a avó já não pôde ver. Mas não faltaram motivos para ela partir com o coração em paz.

Os papéis que marcaram a carreira de Mariana Ximene

Mulher de cabelos loiros ondulados, com blusa preta transparente e calça escura estampada, deitada de costas em uma poltrona mostarda, olhando para cima com expressão séria. As mãos estão apoiadas nos braços da poltrona e os pés, com sapatos vermelhos, estão elevados. O fundo é cinza escuro.
Calça e camisa Gucci (Tauana Sofia/CLAUDIA)

Por pouco, Mariana não se despediu da vida antes mesmo que a avó. Foi num dia que o mar de Itapuã, em Salvador, parecia querer levar alguém com ele. Um passo a mais e a atriz se viu perdida numa vala, sem conseguir boiar ou nadar.

Paulo José, com quem gravava cenas do longa Quincas Berro D’Água (2010), se perdeu um pouco mais — Iemanjá o levou para depois da arrebentação. Mariana foi logo resgatada. Ele, mais distante, precisou de mais tempo para ser salvo.

“Salvos não, devolvidos”, explicou depois uma mãe de santo para eles. E quem é devolvido precisa agradecer. Não se sai do mar de graça, sobretudo de um mar baiano, guardado pela energia dos orixás. Era preciso agradecer, no exato lugar em que quase se afogaram.

Assim fizeram. Voltaram àquela água, dessa vez pedindo licença, e depositaram flores. No dia seguinte, exatamente ali, nasceu um arco-íris, como se tivesse sido convocado — em terra de Jorge Amado os santos costumam responder rápido.

Emocionado, e ainda de resguardo, Paulo José fotografou aquela cena e, como só os momentos especiais pedem, imprimiu a foto e escreveu: “Mariana, a vida é mágica. No mesmo lugar: 1° dia, quase se afogaram; 2° dia, levaram oferenda à Iemanjá; 3° dia: subiu um raio de luz celebrando a vida. E os dois ficaram amigos para sempre”. 

Ela guarda a foto como relíquia — enquadrou, para mantê-la a salvo dos desgastes do tempo. “Foi um símbolo, para mim, muito forte de amizade. Os encontros que nascem das histórias que ajudo a contar são as coisas mais preciosas da vida.”

Não é essa a única relíquia que Mariana guarda da Bahia. Numa de suas andanças — momentos em que ela se esconde um pouco do mundo para se reconectar consigo mesma —, conheceu a arte de Seu Zé, um dos principais artesãos de Maragogipinho, no Recôncavo Baiano. Aprendeu com ele a usar o torno e a reconhecer as peças dele em qualquer lugar, mesmo distante da Bahia.

Quase por acaso se reencontrou com o artista, ainda que remotamente, na sessão de fotos para esta reportagem de CLAUDIA. Ao avistar algumas peças de Seu Zé na locação, pediu para que fizessem parte do cenário. “São obras muito específicas, dá para reconhecer. Ele faz também uns azulejos. Comprei muitas panelas e obras de cerâmica lá.”

Como Mariana Ximenes constrói suas personagens

Mulher loira de cabelo ondulado, vestindo um blazer creme oversized e uma saia de tule branco transparente, posa em frente a uma estante com objetos de cerâmica e um espelho redondo
Blazer Atelie Roger Coutinho; Sapatos Christian Louboutin (Tauana Sofia/CLAUDIA)

Se tem uma coisa que Mariana gosta é de entender profundamente as pessoas — e os objetos, como a foto do arco-íris que ela exibe com carinho, ou as peças de Seu Zé, entregam partes da personalidade da atriz. E é exatamente assim que ela começa a construir suas personagens: num mergulho psicanalítico para entender quem é aquele ser. 

Nessa busca, encontrou a pessoa certa para entrar nesse jogo com ela — a psicanalista Katia Achcar, mãe do ator Marcelo Faria e do diretor Régis Faria. Há mais de 15 anos, as duas destrincham cada personagem antes de tirá-la do papel.

“Como essa pessoa se expressa no mundo? Isso fala sobre caracterização, sobre o figurino. Porque você tem um jeito de se vestir que é você, diz um pouco sobre você. O mesmo acontece com os personagens. A gente constrói assim: Ela colocaria um decote? Usaria muita joia? Faz esporte? Isso tudo faz com que você configure quem é ela no mundo”, revela.

Não existe tempo ruim para nenhuma personagem — ela topa quase tudo, desde que a história a conquiste. “Eu preciso sentir vontade, sou muito sensível. Acho que, nessa profissão, a gente precisa querer contar as histórias.

É quando elas te puxam, como se fossem mais fortes que você, como se você precisasse contá-las”, descreve. “E o nosso papel é político também. Então, são histórias que você quer ou precisa ou acha necessário contar para instigar, provocar reflexão no público.”

A partir daí, a dança começa com os pares que contracenam com ela — e se o par for conhecido melhor ainda. Essa sinergia rolou, na novela atual, com o ator Tony Ramos, que interpreta Otoniel, avô de Adriana (Letícia Colin), presa injustamente pelo assassinato de Arthur Brandão (Antônio Fagundes). Os dois haviam trabalhado juntos anos atrás, nas novelas Passione (2010) e em Guerra dos Sexos (2012), remake de 1983.

Mariana interpreta Dora, empresária, proprietária de uma escola de dança. Após presenciar um ataque de Fábia (Flávia Alessandra) a Otoniel, a personagem se assenta com ele e o acolhe. 

“Era uma cena pequenininha, a gente estava conversando, sentou lá num lugar, e o diretor falou assim: ‘eu vou ligar a câmera, eu vou deixar vocês aí. Fizemos a cena e depois começamos a improvisar. Terminamos num abraço. Saímos de cena muito felizes!”, revela.

“Estávamos tão concentrados, tão conscientes de nossos personagens, atentos ao que o outro nos provoca, que a criação aconteceu num lugar coerente. Voltando para o camarim, começamos a discorrer sobre a importância da escuta — a escuta em cena, mas, sobretudo, a escuta na vida.”

Mariana Ximenes fala sobre desejo de ser mãe

Mulher de pele clara, cabelo castanho-claro puxado para trás, batom vermelho-escuro, vestindo um blazer verde-escuro com gola em V e uma blusa de renda preta por baixo, posando em um ambiente com paredes cinzas e iluminação suave
Blazer Jacquemus @nkstore; Vestido Gianni Versace vintage arquivo @alexversacecollector (Tauana Sofia/CLAUDIA)

A escuta dela, em vida, também transborda para o futuro. Mariana, que cresceu no meio de uma família grande, nunca negou o sonho de ser mãe. Mas não abre mão de encontrar alguém — ela sempre diz que procura um parceiro com quem tenha um “pacto de amor”, como ela mesma vivenciou durante sua infância e adolescência ao lado dos pais. 

“Essa construção de família… Meu pai, minha mãe, meu irmão e eu somos muito ligados. Meus pais casaram de novo e todos nós passamos o Natal juntos, com madrasta e padrasto. São novas configurações familiares.”

Aos 45 anos, com óvulos congelados, ela não tem pressa. “Vai ser quando for para ser. Deixa o tempo dizer. O tempo é sábio. Eu tô em paz. Como diz Oscar Wilde, ‘não sou jovem o suficiente para saber tudo’.”

Créditos

  • Styling Gi Macedo
  • Beleza Daniel Hernandez 
  • Edição de arte LaÍs Brevilheri  
  • Locação Galeria Teo
  • Light designer Renato Machado 
  • Produção de moda Matheus Guedes
  • Assistente de moda Naraya Pontes
  • Retouch Leonardo Miguel 
  • Assistente de beleza Graziela Magalhães

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