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A artista de 92 anos que usa mapas para falar de poder e território

Com vontade de viver e refletir sobre as consequências de um país reprimido, a artista acaba de inaugurar uma obra no RJ

Por Beatriz Lourenço 14 fev 2026, 05h00
Typus Terra Incógnita, que acaba de ser inaugurada no Parque Bondinho Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, a convite do Projeto Maravilha – que propõe um diálogo entre arte, natureza e tecnologia
Anna Bella Geiger, aos 92, inaugura imponente escultura no Pão de Açúcar, refletindo sobre mapas, poder e o futuro incerto (Divulgação/Divulgação)
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Em meados da década de 1960, Anna Bella Geiger passou a se dedicar ao estudo dos mapas – desde aqueles produzidos no Brasil durante a chegada dos portugueses até os que retratam a China em outros séculos.

Para a artista, essas imagens estão longe de ser neutras: elas revelam um território construído a partir de modelos eurocêntricos, que hierarquizam espaços, culturas e formas de existência.

A partir dessa investigação, ela passou a interferir nesses objetos por meio de colagens, desenhos, textos e fotomontagens. É daí que veio a ideia da escultura de grande porte Typus Terra Incógnita, que acaba de ser inaugurada no Parque Bondinho Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, a convite do Projeto Maravilha – que propõe um diálogo entre arte, natureza e tecnologia.

A obra se organiza em três nichos: um mapa-múndi vazado feito em aço corten; duas gravuras que remetem à pesquisa iniciada nos anos 1970 sobre o território brasileiro e os modos de nomear a terra; além de um frame do filme Passagens 2 (1974), no qual a artista entra e sai lateralmente do quadro, deslocando o corpo no espaço gráfico da imagem.

Tudo isso fica dentro de uma gaveta de madeira, nomeada Fronteiriços, representando a memória do que não é novo. 

Anna Bella Geiger, aos 92, inaugura imponente escultura no Pão de Açúcar, refletindo sobre mapas, poder e o futuro incerto
A escultura Typus Terra Incógnita, acaba de ser inaugurada no Parque Bondinho Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro (Jaime Acioli/Divulgação)
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“A terra incógnita que está no título e reflete a imagem têm a ver não só com o ambiente físico, mas com a instabilidade de um futuro que parece ser perigoso. A ecologia do planeta está em risco”, explica.

“A situação geopolítica do mundo também me faz pensar assim. Vivemos ameaças de países que querem ocupar outros e governos autoritários que ainda dominam alguns lugares.”

Aos 92 anos, Anna Bella está longe de querer parar. “Ninguém me obriga a trabalhar. Eu tenho ideias, vontade e uma saúde que ainda me deixa fazer as coisas”, comenta.

Na verdade, a arte é um dos escapes para as mazelas que viveu durante a Ditadura Militar. “Meu marido [o geógrafo Pedro Pinchas Geiger] foi preso e só voltou depois de alguns dias porque consegui falar com as pessoas certas. Voltou todo sujo e todos nós ficamos com medo. Esses dias de ameaça dão medo para o resto da vida.”

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Na verdade, a arte é um dos escapes para as mazelas que viveu durante a Ditadura Militar. “Meu marido [o geógrafo Pedro Pinchas Geiger] foi preso e só voltou depois de alguns dias porque consegui falar com as pessoas certas. Voltou todo sujo e todos nós ficamos com medo. Esses dias de ameaça dão medo para o resto da vida.”
Aos 92 anos, Anna Bella está longe de querer parar. “Ninguém me obriga a trabalhar. Eu tenho ideias, vontade e uma saúde que ainda me deixa fazer as coisas”, comenta (Manuel Águas/Divulgação)
Foi nessa época, inclusive, que criou as obras do período denominado “visceral”. As pinturas e gravuras em metal evidenciam órgãos humanos: cérebro, fígado e coração se dividem entre masculino e feminino.

A imagem de um embrião entre duas pernas expressa a potência de um corpo que precisa ser reconhecido por suas forças.

“Isso veio do fundo da minha alma. Falávamos sobre feminismo de um jeito diferente, pelo olhar da sobrevivência.”

Seja abordando o planeta ou a mulher, a produção de Geiger segue atual e provocadora, lembrando que a arte é um instrumento de resistência, memória e imaginação de futuros possíveis.

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