Bruna Martins: “Meu legado na gastronomia é um pouco político”
À frente de restaurantes que marcaram Belo Horizonte, a chef fala sobre a infância na cozinha, o preconceito que enfrentou e novos projetos
Todo mineiro conhece — ou deveria conhecer — a chef Bruna Martins. Aos 36 anos, ela se consolidou como um dos principais nomes da nova gastronomia belo-horizontina, ajudando a ampliar o espaço das mulheres na cozinha e criando oportunidades para outras profissionais.
À frente de restaurantes celebrados como Birosca, Gata Gorda e o recém-encerrado Florestal, ela agora prepara a abertura da choperia Vira-lata, prevista para o fim deste ano, enquanto reforma um casarão histórico em Belo Horizonte que abrigará um estúdio voltado para novos projetos.
Autodidata, Bruna construiu a carreira enfrentando desafios financeiros, preconceito e um mercado ainda dominado por homens. Em conversa com CLAUDIA, ela relembra o início da trajetória, fala sobre criatividade, empreendedorismo, política na gastronomia e revela os bastidores de seus próximos passos.
CLAUDIA: Você cozinha desde muito nova. Quando percebeu que a gastronomia faria parte da sua vida?
Bruna Martins: Cozinho desde criança. Era uma coisa muito lúdica. Meu pai chegou a construir um fogãozinho a lenha para mim, e eu passava horas brincando de cozinhar. Sempre gostei desse universo. Ao mesmo tempo, também tinha uma paixão enorme pela música e cheguei a estudar Música na UFMG. No fim, percebi que queria unir essas duas paixões.
“O Birosca foi minha maior escola”
CLAUDIA: Como nasceu o Birosca?
Bruna Martins: Foi um projeto de vida muito precoce. Eu tinha apenas 22 anos quando aluguei o imóvel. Vendia sanduíches na faculdade para complementar a renda e vinha de uma família de classe média baixa. Vi aquela casa em Santa Tereza por um aluguel que parecia possível pagar e achei que abrir um restaurante seria simples. Descobri rapidamente que não era.
Na época, na universidade, existia um debate sobre a falta de espaços para músicos se apresentarem em Belo Horizonte. Eu queria criar um lugar onde música e gastronomia coexistissem. Santa Tereza, bairro do Clube da Esquina, fazia todo sentido.
CLAUDIA: Você imaginava que se tornaria uma chef reconhecida nacionalmente?
Bruna Martins: De jeito nenhum. Eu não tinha ambição de ser uma chef famosa. Só queria fazer meu restaurante funcionar. Mas fui percebendo que havia algo especial ali: a casa vivia cheia. Isso despertou em mim a vontade de estudar cada vez mais. Virei uma pessoa muito autodidata.
CLAUDIA: Você já contou que sofreu preconceito no começo da carreira. Como isso aconteceu?
Bruna Martins: Sofri bastante bullying dentro da cena gastronômica. Percebia que, para ser reconhecida, eu precisava ser realmente muito boa. Aquilo acabou virando combustível. Eu estudava, mudava cardápio, aprimorava técnicas e trabalhava sem parar.
Ao mesmo tempo, o Birosca sempre teve um olhar político. Montei uma cozinha formada apenas por mulheres, algo muito raro na época. O restaurante nunca foi só sobre comida.
“Depois da pandemia, o comportamento mudou”
CLAUDIA: Por que decidiu tirar o Birosca de Santa Tereza?
Bruna Martins: Foi uma decisão muito madura. Depois da pandemia, o comportamento do público mudou completamente. As pessoas passaram a jantar mais cedo, a prefeitura alterou horários de ônibus, a equipe começou a enfrentar dificuldades para voltar para casa e o faturamento caiu.
Além disso, administrar tudo sozinha estava ficando muito pesado. A mudança para Lourdes permitiu trazer sócios, oferecer mais segurança para a equipe e manter todos os empregos.
CLAUDIA: Houve resistência dos clientes?
Bruna Martins: O Birosca de Santa Tereza marcou uma geração. Era um restaurante com piano todas as noites, numa praça deliciosa, fora da rota tradicional da gastronomia da Zona Sul. As pessoas tinham muito apego ao lugar.
Por isso fiz questão de transportar aquela alma para a nova casa. Trabalhamos arquitetura, objetos e decoração para que o restaurante mantivesse a mesma identidade afetiva.
“O Florestal cumpriu sua missão”
CLAUDIA: O Florestal nasceu em um momento muito diferente da sua carreira. Como surgiu o conceito?
Bruna Martins: A pandemia mudou completamente minha forma de enxergar o mundo. Passei a pensar muito sobre sustentabilidade, agricultura familiar e produção de alimentos.
Queria provar que um restaurante praticamente vegetariano poderia conquistar qualquer pessoa, inclusive quem come carne todos os dias. O menu era 95% vegetariano, mas não tinha discurso de comida saudável. Eu queria fazer comida deliciosa.
Mapeei pequenos produtores, trabalhei diretamente com agricultura familiar e até organizei uma horta na fazenda do meu pai para abastecer os restaurantes. Durante um período, chegamos a produzir cerca de 80% dos ingredientes que utilizávamos.
CLAUDIA: Foi difícil encerrar o restaurante?
Bruna Martins: Existe um sentimento de luto, claro. Mas acho que o Florestal cumpriu exatamente a missão que tinha.
Foi um restaurante extremamente político, que abriu muitas janelas na minha cabeça e mostrou que gastronomia vegetal pode ser criativa, saborosa e popular.
“O Gata Gorda nasceu para surpreender”
CLAUDIA: O Gata Gorda tem uma proposta completamente diferente.
Bruna Martins: Sim. Eu queria fazer um restaurante que dialogasse com aquilo que as pessoas gostam de comer, mas sem abrir mão da criatividade.
Percebi que quase todos os restaurantes de cozinha internacional em Belo Horizonte olhavam para França ou Itália. Resolvi seguir outro caminho: a Espanha.
Pesquisei muito, viajei diversas vezes para São Sebastião e construí uma identidade inspirada nesse universo, mas sem fazer uma cozinha espanhola tradicional. É uma interpretação muito livre, muito pop.
“O Vira-lata será uma choperia diferente”
CLAUDIA: O que podemos esperar do Vira-lata?
Bruna Martins: Sempre sonhei em abrir uma choperia, mas não queria fazer mais um boteco tradicional.
Comecei a pesquisar as conexões entre Brasil e Portugal, especialmente a cultura dos petiscos, dos enlatados e das choperias.
O restaurante vai trabalhar muito essa identidade luso-brasileira de forma irreverente. Queremos produzir nossos próprios enlatados, servir pequenas porções, brincar com esse imaginário da lata e reinterpretar tradições portuguesas sob um olhar contemporâneo.
“Meu legado é político”
CLAUDIA: Quando olha para sua trajetória, qual legado gostaria de deixar?
Bruna Martins: Nunca pensei em legado como fama. Mas existe uma coisa que me deixa muito feliz. Quando comecei, praticamente não havia mulheres comandando cozinhas em Belo Horizonte. Hoje existem muitas — e a maioria passou pelos meus restaurantes.
Todos os meus restaurantes têm mulheres na liderança da cozinha. Ainda hoje isso é exceção. Acho que meu legado é um pouco político.
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