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Dani Moraes

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Dani Moraes é escritora, jornalista e especialista em escrita terapêutica

Setembro amarelo – conversas corajosas sobre o inexplicável

No mês da prevenção ao suicídio, falar sobre emoções, dores e perdas, além de acolher quem passa por tempos difíceis, é necessário

Por Dani Moraes 20 set 2023, 07h44 | Atualizado em 4 jun 2026, 15h23
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Setembro amarelo é o mês de prevenção ao suicídio (Pixabay/Pexels)
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Dor não se compara! O que dói mais: as contrações do trabalho de parto ou as cólicas renais? Que perda é mais sofrida: a de um amigo ou de um pet? Por que isso seria importante, se sofrimento não tem medida?! O que precisamos, diante dele, é apenas acolher, apoiar, abraçar. E dar pertencimento ao que nos entristece é um jeito de fazer com que nossos sentimentos sejam vividos sem negações, o que acaba por ser um caminho para algum alívio.

Uma das dores mais profundas que já senti veio da perda de um ser amado que abreviou a própria existência. Ocasião em que a expressão “faltando um pedaço” soou mais apropriada para mim. O aspecto cruel do vazio que essa ausência ocupa é sentida no corpo. Uma dor física. Cicatriz permanente por não termos sido capazes de compreender a dimensão de um sentimento, justamente e talvez, por tentarmos estabelecer critérios para o sofrer.

De zero a dez, quem sofre com transtornos psiquiátricos ou problemas de saúde mental sente mil. E mil para mim não é o mesmo do que para você. Não há referência ou empatia capazes de delimitar o limiar de dor de cada pessoa. Essa foi uma das lições mais tristes que já aprendi: compreender que o que consigo aceitar para o outro pode ser insuportável. Nossa cultura de sacrifício e de culpa cristã, ao nos inebriar com ideias de padecer no paraíso, aplaude a capacidade “admirável” de suportar e conviver com o sofrimento. E isso não é fortaleza, é caminho para o adoecimento.

Reconhecer que não estamos dando conta de sustentar o esgotamento físico e mental é um passo fundamental para, literalmente, salvar vidas. O alargamento daquilo que consideramos aceitável como algo que “faz parte” e um dia “vai passar”, sem a menor sombra de dúvidas, está nos conduzindo a uma percepção radicalizada da existência, em que cada dia mais pessoas a consideram insustentável.

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Um caminho para a prevenção parece ser não ignorarmos a necessidade de posvenção, ou seja, de cuidar do luto por suicídio. É da ordem do inimaginável aquilo que se vive neste cenário e digo sem medo de errar que a sobrevivência só é possível pela ativação dos mais selvagens instintos de autopreservação – em geral restritos a quem não está quimicamente sob os efeitos da depressão.

No entanto, fazemos o oposto. Fugimos do assunto, tememos as palavras, ocultamos a dor e invisibilizamos a desesperada tentativa de cura para o sofrimento incalculável da mente – diante de uma sociedade que ainda julga e condena tal atitude.

Enquanto não olharmos para nossas dores e criarmos espaços seguros para o compartilhamento dos desafios e experiências de vida, seguiremos marchando, como sociedade, em direção ao abismo. A escolha pela morte pode ser evitada, se criarmos asas coletivas, se nos sustentarmos no voo e se compreendermos que a responsabilidade é de todos e todas e que cada pessoa que perdemos leva consigo uma parte de nós.

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Precisei de anos e muito trabalho interior para ser capaz de tocar publicamente nesse tema difícil, mas estou certa de que somente com conversas corajosas poderemos enfrentar questões de comportamento e saúde mental, estabelecendo ações coletivas de bem-estar e qualidade de vida que realmente possam promover transformações. O silêncio é o grito do medo e ele não presta para fazer escolhas e tomar decisões.

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Precisamos de trocas afetuosas, ambientes seguros e pessoas dispostas a estarem juntas na construção gentil daquilo que aplaca ou atenua nossas angústias existenciais. Precisamos ampliar nossa disponibilidade para o afeto e intencionar o cuidado gentil com o pulsar da vida em sua potência máxima de criação e recriação. Pois apenas a partir de corações acarinhados e criativos encontramos alternativas para a vida sempre valer a pena.

*Caso precise de ajuda ou conheça alguém que precisa, procure o CVV (Centro de Valorização da Vida) que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Acesse: https://www.cvv.org.br/ ou ligue: 188.

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