Issey Miyake: o estilista que transforma origamis em peças revolucionárias
Issey Miyake construiu uma linguagem própria ao unir simplicidade, inovação e conforto em criações que atravessam o tempo
Era a partir de um origami que Issey Miyake (1938-2022) dava vida a suas criações. Diferentemente de estilistas que começavam pelo traço, o criador japonês percebia que suas peças não poderiam ser desenhadas, pois ganhavam forma enquanto eram feitas.
Assim, esculturas retangulares e hexagonais se transformavam em calças, saias e vestidos.
Do origami para as roupas
Na mesa que dividia com sua equipe, formada por pessoas de diferentes gerações — entre 20 e 70 anos —, havia uma série de papéis brancos que dariam origem ao que, mais tarde, seria desenvolvido em poliéster reciclado especialmente criado para suas roupas.
Elas tinham movimento e eram descoladas do corpo. Era assim que sua metodologia, de estudar o que há entre o corpo e a peça, tornava suas roupas revolucionárias.
Moda, arte e experimentação
A experimentação era a alma de um estilista ambicioso na criação de conceitos originais para aquilo que hoje chamamos de design atemporal.
Da mesma forma, tornava difusas as fronteiras entre moda, arte e perfumaria, permitindo que sua sensibilidade atravessasse esses territórios.
Muitos o conhecem pelas pregas que se tornaram sua assinatura ou pelas fragrâncias que ampliaram o reconhecimento de seu nome.
Mas toda a sua obra era guiada pela profunda conexão com a natureza, linhas limpas inspiradas na simplicidade da cultura japonesa , o uso da tecnologia, a experimentação com variadas técnicas e materiais, e um permanente senso de praticidade.
Acima de tudo, Miyake buscava mostrar que existem diferentes formas de expressão.
Afinal, segundo ele, não criava moda nem tendências, mas, sim, maneiras de as pessoas se expressarem.
Primeiro, o estilista
Antes de se tornar conhecido por criar as golas altas pretas usadas por Steve Jobs, Issey Miyake, nascido em Hiroshima, em 1938, foi um garoto inspirado pelo design da ponte que atravessava para ir à escola — a Peace Bridge, projetada pelo escultor e designer Isamu Noguchi — e pela vitrine de um ateliê de roupas.
No entanto, foi na Universidade de Arte de Tama que percebeu como a moda poderia funcionar como elo de diferentes disciplinas.
De Hiroshima a Paris
Aos 27, mudou-se para Paris, onde passou por um período de aprendizado em ateliês. A experiência foi decisiva para que, em 1970, fundasse sua marca e desenvolvesse sua visão de design.
Nela, combinava artesanato tradicional, inovação no desenvolvimento de materiais e uma ideia de conforto construída a partir de estudos sobre o quimono.
Essa pesquisa resultou em uma ruptura com a silhueta ocidental, por meio de roupas flexíveis, pensadas para vestir diferentes tipos de corpo e fundamentadas no conceito de A Piece Of Cloth.
Depois, as pregas
Talvez a assinatura mais reconhecível de Issey Miyake sejam os plissados. Se o conceito A Piece of Cloth nasce da ideia de que uma peça pode surgir de um único pedaço de tecido — assim como um origami é criado a partir de uma única folha de papel —, o estilista imaginou que as pregas poderiam trazer ainda mais leveza às roupas se fossem aplicadas apenas após sua confecção.
Para isso, as peças eram produzidas em poliéster reciclado, com o dobro ou o triplo do tamanho final desejado.
Em seguida, eram parcialmente costuradas, dobradas, prensadas entre folhas de papel e submetidas ao calor, que fixava permanentemente as pregas.
Roupas que não amassavam e podiam ir à máquina
O resultado revelou não apenas uma silhueta mais fluida, mas também uma estrutura capaz de preservar sua forma ao longo do tempo de maneira mais eficiente do que os métodos tradicionais de plissagem.
Foi assim que nasceu, em 1993, a coleção Pleats Please Issey Miyake, composta por roupas que pareciam dançar sozinhas e que funcionavam como uma espécie de antídoto à ideia de que praticidade significava apenas vestir “uma camiseta com calça jeans”.
Afinal, as peças plissadas eram inovadoras, também, por outros dois motivos: não amassavam e podiam ser lavadas na máquina.
A lua e a Torre Eiffel
Pode ser que não pareça tão literal, mas o frasco de L’Eau d’Issey, primeiro perfume criado pela marca de Issey Miyake, lançado em 1992, foi inspirado em uma noite em que o estilista viu a Lua alinhada ao topo da Torre Eiffel.
Tão atemporais quanto suas roupas, as linhas e a esfera que coroa a tampa revelam uma interpretação dessa cena parisiense.
Quando a natureza virou perfume
Criado em parceria com Jacques Cavallier Belletrud, o perfume deu origem a diferentes interpretações, além da versão masculina, hoje considerada um clássico.
Entretanto, para Miyake, havia um princípio inegociável. Mesmo determinado a criar uma fragrância que traduzisse sua estética, acreditava profundamente que a natureza era a melhor perfumista.
Da roupa aos frascos
Uma vez reconhecidas as dobraduras — e, consequentemente, os motivos geométricos — que marcaram a obra de Issey Miyake, o frasco do novo Lumière d’Issey se torna uma referência imediata à estética do criador japonês.
Composto por facetas triangulares de vidro que refletem a luminosidade, ele traduz outra característica essencial da natureza.
Como transformar a luz em fragrância
Como o próprio nome do frasco sugere, os perfumistas Fabrice Pellegrin e Marie Salamagne tiveram o desafio de transformar essa luminosidade em uma fragrância.
O resultado combina néroli e mandarina-verde nas notas de topo; flor de laranjeira, frésia e almíscar branco no coração; e pistache, notas amadeiradas e sândalo no fundo.
“Fiéis ao espírito de Issey Miyake, buscamos uma sensibilidade refinada de equilíbrio, harmonia e movimento”, conta Pellegrin.
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