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Só sei falar de amor

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Liana Ferraz é colunista de CLAUDIA. Artista da palavra e da voz, é escritora com sete livros publicados em diferentes gêneros literários. Criadora do Grupo de Escrita Matinal.

Medo de sentir medo

O que é pior: morrer ou passar a vida com medo de viver? A escritora Liana Ferraz escreve sobre ansiedade, coragem e as escolhas que fazemos diante do medo 

Por Liana Ferraz 8 Maio 2026, 10h00 | Atualizado em 12 ago 2026, 18h13
Máquina de escrever antiga com uma folha de papel digitada, e duas folhas amassadas sobre uma mesa de madeira escura, sugerindo rascunhos descartados
A escrita pode ser levada a diversas direções (Pexels/Reprodução)
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Medo de sentir medo Priorizar nos meus resultados Google

Vira e mexe, sai da minha cabeça e vai para o papel essa frase bem clichê.

E confesso que eu fico olhando e numa dúvida se a tal frase é ótima… às vezes até um breve delírio de “nossa, que frase genial”, ou se é o maior lugar-comum do mundo.

Bom, não importa.

Eu brinco de escrever mais rápido do que o medo. Se eu fosse deixar todos esses pensamentos entrarem, escrever ou não escrever, eis a questão, estaria eternamente com a caveira na mão, enlutada por textos mortos.

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Eu não escreveria absolutamente nada. Simples assim.

Tudo isso pra dizer que esses dias me apareceu a seguinte frase:

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coragem: ter mais medo deperder a vida do que de morrer.

Achei genial.

Clichê, totalmente clichê.

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Nossa, não, é boa.

Uma vez ouvi de um amigo que eu estava sendo imprudente porque estava fazendo alguma coisa levemente perigosa. Ele falou: “você não tem medo de morrer?”.

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E eu respondi: “eu tenho muito medo de ficar a vida inteira com medo de morrer”.

Isso foi dito no auge de uma superação, ainda não total, de um quadro de ansiedade gravíssimo, em que eu realmente achava que o prédio que estava ia cair, que a mola de pilates ia partir minha cabeça ao meio e que todo e qualquer chão que passasse ia abrir uma cratera sob meus pés.

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Tudo, absolutamente tudo, me parecia muito perigoso.

Todos os finais que eu inventava pra mim eram catastróficos, não existia lugar seguro. É horrível viver assim. Só que, quando você tem ansiedade e está em crise, é exatamente assim que se vive.

Quando eu comecei a recuperar um pouquinho da lucidez, decidi que esse era o primeiro ponto de mudança radical na minha vida.

Eu tenho que ter medo da pior coisa que pode me acontecer, que é viver com medo e deixar de viver.

Esse gatilho simplesmente fez com que eu colocasse na balança “viajar de avião ou viver com medo de viajar de avião”.

Eu preferi superar o pavor tenebroso que sinto de estar no ar, achando, a qualquer momento, que tudo pode dar errado. Prefiro do que o medo perene de ficar o tempo inteiro me privando de viagens.

Outra decisão que tomei também foi a de escrever. Escrever mais rápido que o medo, lembra?

Mas não só isso: escrever e mostrar.

Eu me vi lá na frente, pensando no saldo, assim, da vida, naquele momento em que inevitavelmente você vai morrer (porque esse é, spoiler, o destino de todo mundo) e pensando que fiquei o tempo inteiro imaginando finais catastróficos, ou seja, a morte da minha dignidade (que não sei o que significa), a morte da minha reputação (nem tenho uma), ao invés de me lançar no mundo, mostrar minhas palavras, mostrar meus textos e correr o risco absoluto de ser ridícula.

Mas de chegar em algum momento da vida e olhar para trás e falar: quanta coisa eu experimentei ao jogar essas garrafinhas ao mar, que encontram aí do outro lado vocês que estão lendo, por exemplo, esta coluna.

Tudo isso é uma decisão de escolher mais acertadamente os medos.

Tenho medo de dar errado, de fracassar, de avião.

Mas o maior de todos continua sendo o medo de perder a vida por sentir medo.

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