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Só sei falar de amor

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Liana Ferraz é colunista de CLAUDIA. Artista da palavra e da voz, é escritora com sete livros publicados em diferentes gêneros literários. Criadora do Grupo de Escrita Matinal.

Eu, você e a multidão que inventamos para aplacar o tédio

Entre desejo, intimidade e ausência, Liana Ferraz escreve sobre as pessoas que inventamos a dois — e que continuam existindo quando o amor termina

Por Liana Ferraz 13 fev 2026, 10h00 | Atualizado em 11 ago 2026, 19h30
Uma mulher deitada na cama com os olhos fechados e um homem sentado no chão ao lado, olhando para baixo, ambos em um quarto com luz natural
O que acontece com as memórias quando uma relação chega ao fim? Liana Ferraz transforma desejo, saudade e esquecimento em uma multidão que insiste em permanecer (Edwin Tan/Getty Images)
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Eu, você e a multidão que inventamos para aplacar o tédio Priorizar nos meus resultados Google

A gente não gostava de fazer nada que não fosse cobertor. Mas um dia você resolveu trincar os olhos numa fumaça. E resolveu dançar pra mim de calça jeans aberta sem camisa.

De alguma forma acho que foi a única vez que vi você se exibindo tanto. Com os olhos trincados e a boca sem saber fechar decidiu vir pra cima de mim sem medo de não ser bem recebido.

E foi. Bem. Recebido.

No meio dos olhos e da fumaça te chamei de Leonardo. Você se assustou e eu gargalhei também. Leonardo DiCaprio, meu amor.

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A partir daí era nossa pequena viagem chamar de outro alguém nossos corpos. Eu te chamava de Leonardo, Brad, Kurt, Julian, Antony e todos aqueles que me fizeram descobrir que existe corpo fora da cabeça e que dá choque sem a gente mandar. Você me chamava de Angelina, de Catherine, de Uma. A gente inventou uma multidão.

Na rua, decidimos que acharíamos alguém e que levaríamos esse alguém para nossos vermelhos e danças de nomes tantos. Eu topava que fosse mulher. Você topava que fosse homem.

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Sentávamos num café em busca de alguém sem nome pra gente chamar do que quisesse. Engraçado como ninguém parecia bom o suficiente pra gente. Engraçado como beber no fim da tarde, deixar um cigarro arder os olhos e esfregar o desejo na quina da mesa de bar faz a gente se sentir invencível e imortal.

Vimos uma menina uma vez. Eu fui lá. Se ela gostasse de mim, seria nossa. Quando percebi, estava me apaixonando por ela. E pensando que veríamos filmes e que seria preciso aumentar o cobertor.

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Ou expulsar você dele. Deixei pra lá.

Comecei a gostar de chegar na nossa casa e brincar com você de dar nota para nossos candidatos. E de rolar no chão de rir e colocar um vinil do Milton e rolar no chão de chorar. Me lembro da gente passar horas e horas sem acender a luz e deixando a janela compor nosso âmbar, nossa sépia. Pensar que hoje nem sei mais onde está aquela foto.

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Seus olhos trincados, Léo, Angelina, Kurt, Milton e o cobertor devem estar guardados bem amarelados esperando que eu os olhe pra colocar de novo dançando em mim esse retrato da gente que fica rodopiando no espaço da memória.

Esquecer e guardar você é uma multidão em silêncio, muda, diante de um show que nunca começa.

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Esquecer e guardar e perder você é uma procissão sem reza, uma mesa de aniversário sem que nunca comece o parabéns.

Esquecer e perder e enterrar você e fazer fingir em mim que você nunca existiu é morar numa casa cheia de coisas encaixotadas e perceber, de repente, que o que está nas caixas são bebês que precisam ser alimentados.

Escrevo agora para alimentar tudo que você não se lembra, mas eu sim.

Alimento os filhotes e são pássaros e os vejo criar asas.

Gosto de inventar você. E ao inventar você, fazer vestir a roupa que eu quiser e assoprar na minha cara as capas dos discos que me fizeram sempre achar que a vida tinha uma esquina que a gente cruzava e começava a sentir prazer sem dor.

Mas a vida…

A vida é uma rotatória, amor.

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