Caetano estaciona no Leblon
A partir da célebre manchete sobre Caetano Veloso, a escritora Liana Ferraz reflete sobre um tempo em que transformamos a própria rotina em notícia
Não sei se vocês se lembram da fatídica manchete de jornal. Talvez um dos primeiros memes do Brasil, Caetano estacionar no Leblon e virar notícia era risível.
Quem se importa com o carro estacionado por Caetano Veloso?
Bom, esses dias eu estava com saudades de viver num tempo em que só o Caetano estacionava no Leblon, porque não sei se vocês perceberam, mas estamos vivendo uma época em que Joana come ovos pela manhã e Fábio faz uma série de bíceps e Maria Clara reprova na autoescola.
Notícias de jornais que não são mais jornais são compostas por pessoas que não são públicas e assuntos que não são relevantes ocupam grande parte da nossa jornada de informação diária. Rolo o feed do Instagram e, na vitrine virtual, sujeitos mortais e desesperados, numa ilusão triste de relevância e tapete vermelho, ocupam-se em ser seus próprios paparazzi. Perseguindo-se.
Que fique claro: constatei isso ao postar minha mão segurando uma xícara de café.
Liana toma café no Butantã.
Pouca gente se interessou e foram poucas as interações. Como assim eu não sou interessante o suficiente para ser amada via wi-fi enquanto mostro minha rotina? Fiquei genuinamente triste.
Susto!
É preciso reconhecer os tombos e perceber que o erro não estava no chão, nem nos pés, mas no salto absurdo que calcei para caminhar no terreno irregular. Só caí porque me vesti de uma ilusão sedutora e fatal: quem não quer brincar de superstar, meu bem?
Como é bom e dolorido, ao mesmo tempo, quando a gente dá com a cara no chão do real.
Teve um tempo também em que o Caetano reclamaria seu direito à privacidade. Provavelmente, não foi ele quem elegeu essa notícia descabida como relevante o suficiente para uma manchete fugaz que se eternizou.
No entanto, eu, mãos no volante e foto do visor do som do carro, escancaro minha privacidade de forma não só voluntária como estratégica e noticio em veículo de mídia controlado por mim o bombástico acontecimento:
Liana ouve pagode pelas ruas de São Paulo.
Vendi minha privacidade (ok, eu e todo mundo) por uns dois ou três corações vermelhos de mentira. Vendi minhas manchetes, coloquei-me na vitrine. Girando no espeto, grito:
— Compre-me!
Sem nem perceber que estou furada.
Ao meu lado, João corta laranja em Londres; Rafaela lê romance de época em Atibaia; Sérgio come o melhor frango assado da zona norte.
Faltará estacionamento para tanto carro.
Faltará vida para tanta manchete.
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