76 anos Abril: Claudia por apenas 9,90
Imagem Blog

Diário De Uma Quarentener

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Projeto 1619 do NY Times

A partir do projeto do jornal New York Times sobre o processo de escravidão nos EUA, a escritora comenta acerca da negação da desigualdade no mundo

Por Juliana Borges 17 jul 2020, 21h59
Hands to heaven
 (maurizio siani/Getty Images)
Continua após publicidade

São Paulo, 17 de julho de 2020.

Em 2019, o jornal New York Times (EUA) lançou uma iniciativa provocadora: The 1619 Project. Com ensaios da jornalista Nikole Hannah-Jones, o projeto apresentava uma outra perspectiva sobre o “nascimento da nação” americana, questionando o ano de 1776 como a data de “fundação” dos Estados Unidos.

E por que 1619? Em agosto de 1619 pisaram, no porto do estado da Virgínia, entre 20 e 30 africanos sequestrados para serem escravizados. Assim, como provocam os ensaios do projeto, o sistema bárbaro de dominação e escravização de pessoas inaugura a sociedade norte-americana, sendo parte do seu mito de origem. Além disso, os ensaios apresentam 17 trabalhos literários, de compositores e escritores negros contemporâneos, que escolheram esses eventos em 400 anos que aniversariava a nação. Esses processos criativos foram organizados cronologicamente, como explica o próprio site do projeto, sendo incluída uma introdução com o momento histórico correspondente. Ainda houve parceria com o Smithsonian’s National Museum of African-American History and Culture para o material visual da história da escravidão americana.

O projeto e o trabalho desenvolvido por Nikole Hannah-Jones é primoroso. De tão incrível e bem construído e narrado, o projeto ganhou o Prêmio Pulitzer desse ano – o mais importante prêmio americano para as áreas de jornalismo, composição musical e literatura e que é administrado pela Columbia University, da Ivy League (grupo de universidades de ponta americanas).

Era de se esperar que, em um ano de intensas manifestações e de levantes, ações e discussões envolvendo a pauta racial, mas principalmente demandando políticas e ações antirracistas nos Estados Unidos, que esse projeto fosse celebrado e bem utilizado para que um processo de responsabilização e reparação de fato acontecesse no interior de uma nação que se constitui e tem como um de seus pilares usar as diferenças como instrumento para hierarquizar, escravizar e aculturar povos e culturas, sob uma falsa narrativa, e carregada de política, de superioridade x inferioridade. Mas, infelizmente, não é o que tem acontecido.

Continua após a publicidade

É fato que muitos celebram o prêmio e tem utilizado esse potente e desafiador projeto como ponto de partida para diversas discussões. Mas, pasme, a onda trumpista resolveu escolher esse um projeto para o contra-ataque supremacista. Aliás, diversos ataques políticos e em redes sociais, colunas e jornais tem sido realizados contra vários pesquisadores, escritores e ativistas antirracistas, sejam negros ou brancos. O fato de se posicionar faz, mesmo de pessoas brancas, um alvo supremacista. O nível é tão absurdo que o Secretário de Estado norte-americano, a pasta mais importante do Executivo do país, resolveu fazer declarações atacando o projeto, chamando o NY Times de comunista (veja o absurdo!), em uma ação que, obviamente, tem impactos de atiçar os ataques que o jornal vem recebendo, mas principalmente Nikole Hannah-Jones tem enfrentado, inclusive com ameaças de morte.

Quando falamos que o debate racial é tão importante, não é por mero acaso. A prova de sua importância e sua centralidade em uma agenda emancipatória está exatamente nos ânimos que ele suscita quando colocado na mesa. Quem quer, realmente, enfrentar as dificuldades, feridas abertas e sanar os problemas acarretados no seio de nações importantes para reconfigurar futuros de igualdade, justiça e paz tem sido constantemente chamado de anti-patriota. Quando, na verdade, a negação para enfrentar essas questões que tem consequências dramáticas em nossas sociedades até hoje é que estão no cerne da manutenção desses problemas.

Hoje, por exemplo, saiu uma entrevista de um financiador brasileiro dizendo que desconfia quando algum texto fala em”desigualdades”. Ou seja, há a tal da ideologia “morgan freeman” a todo vapor. Como se não falar de problemas fizesse com que eles magicamente desaparecessem. Mas a prática e a história apresentam o contrário, que cada vez que nos recusamos a enfrentar problemas de frente e negamos as principais questões de nossos países com passados construídos no colonialismo, o que fazemos é perpetuar desigualdades e esses problemas vão, cada vez mais, sendo aprofundados. Eu, inclusive, desconfio de quem nega que existam desigualdades, de quem não queira falar de desigualdades. Não que eu me surpreenda com a falta de perspectiva e defesa dos interesses nacionais dos grupos dominantes brasileiros, que sequer podem ser chamados de elites diante de tanta venda e desprendimento da construção de, ao menos, um Estado de bem-estar social no Brasil.

Continua após a publicidade

O filósofo e intelectual norte-americano Jason Stanley, que estuda o neofascismo nos Estados Unidos – mas que, diante da realidade brasileira, tem se debruçado sobre nós em suas reflexões e estudos atuais – em diálogo com o seu livro “Como funciona o fascismo: a política do ‘nós’ e ‘eles’” (L&PM, 2018), apresentou um ponto importante para entendermos essa história toda: o mito de um passado glorioso e que, portanto, quem o questiona é visto como uma ameaça que precisa ser destruída. Quando, em verdade, sabemos que só resolvemos problemas reais, e que são fatos em nossas sociedades, se os enfrentarmos.

Vejo muito disso no Brasil, infelizmente. E já falamos sobre essa negação e recusa por aqui, mas é um ponto que sempre vamos voltar. Não se trata de ameaçar, mas de querer, de verdade, compreender nossos principais gargalos para conseguirmos superá-los. Ou queremos sempre ser essas sociedades que fazem das diferenças desigualdades?

Para Nikole Hannah-Jones, como já o fiz privadamente hoje, meu afeto público. Como ela mesma disse em tweet recente: que tempos!

Continua após a publicidade

Acompanhe o Diário de Uma Quarentener

Todas as mulheres podem (e devem) assumir postura antirracista:

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Completo

Moda, beleza, autoconhecimento, mais de 11 mil receitas testadas e aprovadas, previsões diárias, semanais e mensais de astrologia!
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 52% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Receba Claudia impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 12,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).