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Crônicas de Mãe

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Em primeira pessoa, mães compartilham histórias reais sobre os desafios, as descobertas e os encontros que transformam a maternidade.

Mãe ‘raiz’ ou mãe ‘Nutella’? A maternidade real não cabe em rótulos

Entre a educação positiva e a criação dos anos 90, Isabella Marano compartilha as culpas e contradições de criar uma filha sem buscar a perfeição

Por Isabella Marano* em depoimento a Marina Marques 18 ago 2026, 14h00 | Atualizado em 27 ago 2026, 12h06
Mulher de pele clara, cabelo ruivo ondulado e longo, usando batom rosa, brinco dourado e colar de corrente, olhando para a câmera com expressão séria, em fundo cinza
Nem "raiz", nem "Nutella": Isabella Marano fala da maternidade real (Tercianne Melo/Divulgação)
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Mãe ‘raiz’ ou mãe ‘Nutella’? A maternidade real não cabe em rótulos Priorizar nos meus resultados Google

Se a internet estivesse certa, eu provavelmente seria uma péssima mãe. Já perdi a paciência, gritei e repeti frases que jurava que nunca diria. Também já chorei de culpa depois de fazer aquilo que prometi que jamais faria.

Sempre fui curiosa e, quando engravidei, pensei que faria da maternidade mais um assunto para dominar. Achei que quando a Donatella nascesse, já teria todas as respostas.

Os livros continuam na minha estante e, às vezes, tenho vontade de rasgá-los. Não demorou para descobrir que a vida real não funciona desse jeito.

O primeiro choque veio na amamentação. Queria muito que fosse exclusiva, mas não consegui. Passei semanas tentando fazer dar certo, com mastite e consultoras de amamentação, enquanto minha filha chorava de fome e eu me sentia um fracasso.

Entrei num baby blues e, hoje, quase não me lembro do primeiro mês de vida dela. Foi minha médica quem trouxe um pouco de realidade para o momento: “Isabella, dá mamadeira para essa criança”. Minha mãe dizia exatamente a mesma coisa, e a “mãe dos anos 90” que hoje aparece nos meus vídeos é inspirada nela. “Você tomou leite de vaca de saquinho e não morreu.”

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No dia em que aceitei dar a mamadeira, comecei a aproveitar minha maternidade. Até então, nem tinha fotos com minha filha. Quando consegui respirar, veio outra descoberta: a maternidade da internet não parecia em nada com a minha.

Mulher de cabelo castanho e jaqueta preta sentada, rindo com os olhos fechados, enquanto uma menina loira de roupa preta a abraça por trás, fazendo sinal de paz com a mão, ambas sorrindo em um fundo marrom
Isabella Marano e a filha, Donatella, de 4 anos (Divulgação/Divulgação)

Queria aquelas fotos lindas na piscina, mãe plena, criança sorrindo. Minha filha tinha outros planos. Em vez de posar, jogava água e transformava qualquer tentativa de registro numa cena de sobrevivência. Foi quando percebi que o problema não era a maternidade, mas a comparação. A culpa apareceu logo depois.

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Já chorei assistindo a especialistas dizendo que criança não deveria ir para a creche. E pensava: então a creche serve para quem? Marmanjo? Parecia que sempre existia alguém falando que eu podia fazer melhor, mesmo quando já estava fazendo de tudo.

Foi tentando entender esse lugar que nasceu a mãe híbrida. As pessoas adoram colocar a maternidade em caixinhas: ou você é “mãe raiz” ou é “mãe Nutella”.

Nunca consegui me reconhecer em nenhuma delas. Sou um pouco da educação que recebi da minha mãe, um pouco do que aprendi com especialistas e muito daquilo que a vida me obriga a fazer quando a teoria acaba.

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Tem dias em que acordo decidida a colocar em prática tudo o que aprendi sobre educação positiva. Converso olhando nos olhos, abaixo na altura da criança, valido sentimentos, ofereço opções, respiro fundo. Até a Donatella resolver me dar um tapa na cara. Ou jogar uma chave em mim durante uma birra. Nessas horas, os anos 90 dominam.

Outro dia ela resolveu que não queria tomar banho. Expliquei, negociei, acolhi os sentimentos. Não adiantou. Quando vi, estava repetindo exatamente as frases que ouvi a infância inteira: “Quem manda aqui sou eu!”.

Mulher de cabelos escuros e cacheados, vestindo regata branca e calça jeans, com expressão de surpresa e boca aberta, segurando um espelho oval na mão esquerda, em um palco com fundo preto e uma faixa vertical vermelha à direita
Isabella Marano em cena da peça Filho da Mãe, em cartaz no Rio de Janeiro (Tercianne Melo/Divulgação)
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Ela tomou banho entre lágrimas. Depois fui eu quem chorou de culpa. Perco a paciência, depois me arrependo.

Tem também a saga para sair de casa. Você oferece o casaco rosa. Ela quer o branco. Você pega o branco. Ela decide que não quer casaco nenhum. Você oferece outra opção. O relógio vai andando, até o bigode começar a suar. Chega uma hora em que a educação positiva acaba e você veste a criança na marra.

Quando comecei a mostrar essas contradições nas redes, as mães, as quais chamo de guerreiras, começaram a dizer: “Esta sou eu”. Elas também gritavam e depois choravam de culpa. Foi aí que eu entendi que existia uma comunidade inteira.

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Acho que um dos maiores medos das mães é traumatizar os filhos. Você não pode gritar, nem colocar no cantinho do pensamento, não pode perder a paciência.

Mulher de pele clara, cabelo preso, regata branca e calça jeans escura, sentada no chão com os joelhos abraçados, rosto erguido e olhos fechados, sob um foco de luz circular em um fundo escuro
Isabella Marano em cena da peça Filho da Mãe, em cartaz no Rio de Janeiro (Tercianne Melo/Divulgação)

E, de tanto tentar não traumatizar a criança, quem acaba traumatizada é a mãe.

As informações que temos hoje são valiosas, mas informação não pode virar prisão. Não existe um jeito certo de criar filhos porque não existe uma criança igual à outra. É por isso que desconfio de qualquer lista com “10 passos para educar seu filho”.

Talvez seja por isso que eu tenha escolhido fazer humor, pois rir deixa tudo mais leve. Se eu não conseguir rir da negociação interminável para vestir uma roupa, corro o risco de passar a infância da minha filha tentando alcançar uma perfeição que nunca existiu.

Hoje tenho certeza de que sou mãe híbrida. No fim das contas, estamos todas tentando fazer o mesmo: criar nossos filhos com o melhor que conseguimos oferecer naquele dia.

Às vezes a gente acerta, às vezes erra. Mas nunca deixa de amar. E talvez seja justamente isso que nossos filhos vão lembrar quando crescerem. 

*Isabella Marano (@isabellamarano) é atriz, jornalista, roteirista e mãe da Donatella, de 4 anos. Atualmente está em cartaz com a peça Filho da Mãe, no Rio de Janeiro. A peça (confira aqui os ingressos) nasce diretamente da experiência de Isabella como mãe. Foi a partir da maternidade que começou a compartilhar suas vivências na internet, criou uma identificação com o público e percebeu que aquelas histórias e reflexões poderiam ganhar uma nova dimensão no teatro.

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