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Ana Claudia Paixão

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A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

Yara Shahidi e o desafio de ser Sininho no século 21

Depois de 70 anos estereotipada, a fada que é um dos maiores símbolos da Disney recebe atualização

Por Ana Claudia Paixão 28 abr 2023, 15h36 | Atualizado em 4 jun 2026, 15h22
Fada da Disney
Sininho é interpretada pela primeira vez por atriz negra. (Disney/Reprodução)
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A jovem Yara Sahidi ganhou projeção internacional na ótima série Black-ish, mas é como a fada Sininho em Peter Pan e Wendy que será eternizada. Não é uma tarefa tão fácil ‒ ela é a primeira atriz negra a interpretar a icônica personagem que já foi vivida nas telas por Julia Roberts, Keira Knightley, Ludivine Sagnier, entre outras. A inclusão e atualização de Sininho na história é um movimento mais do que bem-vindo. Afinal, ela tem extrema importância na narrativa e já foi mostrada de todas as formas: ciumenta, apaixonada, sapeca e… incompreensível!

Pois é, por falar apenas o ‘idioma das fadas’, não entendemos o que ela quer dizer, o que rende uma longa tese sobre machismo, mas é outra pauta. No momento, vale lembrar foi a nossa querida Sininho, muito mais do que a fofa Wendy, que encontrou um atalho para o coração dos fãs, sendo merecidamente um dos símbolos mais reconhecidos do universo da Disney.

Na obra original de J.M. Barrie, de 1904, e na peça de 1911, ela era descrita como “uma fada comum”, que consertava panelas e chaleiras para suas companheiras. Como mencionei, sua fala, por ser em outro idioma, soava para ouvidos humanos como sininhos, daí seu nome. Apenas os fluentes no idioma, como Peter Pan, conseguem entendê-la. Ainda presa à visão estereotipada do perfil feminino da época, é descrita como temperamental, às vezes mal-humorada, ciumenta, vingativa e curiosa – não necessariamente nessa ordem –, sendo especialmente prestativa e gentil apenas com Peter Pan.

Para justificar a dualidade de sua personalidade, o autor alegou que seu “tamanho” (igual a um dedo) era limitante, ou seja, por ser tão pequena, não conseguia ter mais de um sentimento ao mesmo tempo. Tipo: quando a raiva a consome, não tem espaço físico para ter compaixão, a levando a tomar decisões precipitadas. Ainda bem que na animação e nos filmes o destino trágico dela ficou de fora (ela morre um ano depois que Wendy e os irmãos deixam a Terra do Nunca, e até Peter se esquece dela).

Sem surpresa, mesmo com visual andrógino, o lado sexy do desenho colocou nossa Sininho numa caixa. Linda, de minissaia, quadril acentuado e cabelo no corte estilo pixie, reza a lenda que era inspirada em Marilyn Monroe, mas ela foi uma combinação de três mulheres. O rosto de Ginni Mack, o corpo de Kathryn Beaumont, que também serviu de modelo para Alice, e as pernas (adultas e bem torneadas) da bailarina Margaret Kerry, na época nomeada como “as mais bonitas do mundo”. Em outras palavras, a criação de Sininho – loira e de olhos azuis – é um mar de estereótipos que exclui culturas que nunca foram representadas na história ou, ainda pior, foram deturpadas. Por isso, 70 anos depois do lançamento do filme, ter Yara no elenco sinaliza uma inclusão necessária.

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Quem é Yara?

Yara Sayeh Shahidi, filha de mãe americana e pai iraniano, nasceu em 2000, em Minneapolis, e nove anos depois já estreava no cinema, ao lado de ninguém menos que Eddie Murphy no filme Imagine Só. Também estava em Salt, ao lado de Angelina Jolie, antes de fazer sucesso como Zoey Johnson, em Black-ish. Formada em Sociologia e African American Studies, em Harvard, Yara sempre mesclou arte com ativismo, sendo que circulava entre os grandes artistas, literalmente, desde o berço, porque seu pai, Afshin Shahidi, foi um dos principais fotógrafos do cantor Prince, e ela é prima do rapper Nas.

Ter uma jovem talentosa como Yara é uma nova energia para Sininho e um longo caminho desde que ela era apenas uma luz cruzando o palco. A atriz nem pestanejou em aceitar o desafio e ser o rosto de um ícone para novas gerações. Para ela, Julia Roberts foi a fada mais marcante justamente por ser tão diferente do desenho de Infelizmente a reação à escolha de uma atriz negra para o papel teve reação conturbada, e, para manter sua saúde mental, Yara se afastou das redes sociais. Ela entende que está à frente de um movimento que vai além de “trocar etnias’, atualizando as histórias para que reflitam o mundo de hoje. Sininho pode falar no idioma ininteligível das fadas, mas sua mensagem silenciosa em Peter Pan e Wendy é ouvida, alto e claramente. Sem ruídos para atrapalhar.

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