O que uma viagem ao Marrocos me ensinou sobre dinheiro e investimentos
Hoje, ter parte do patrimônio fora do país é menos uma estratégia de privilégio e mais uma estratégia de proteção
Quando desembarquei no Marrocos, percebi que estava diante de uma contradição curiosa. De um lado, comerciantes negociavam tapetes, especiarias, cerâmicas e abayas, aquela vestimenta de mulheres islâmicas, da mesma forma que seus antepassados faziam há séculos. De outro, turistas do mundo inteiro pagavam com cartões internacionais, transferências instantâneas e aplicativos que atravessam continentes em tempo real.
Ali, entre o antigo e o moderno, me ocorreu uma pergunta: por que tantas mulheres brasileiras ainda pensam seu dinheiro apenas dentro das fronteiras do Brasil?
O mundo ficou maior. E o nosso patrimônio?
Lembrei das palavras da Carolina Okamura, do BTG Pactual, especialista em offshore, em nossa conversa durante a Casa Clã Finanças, maior evento de finanças pessoais para mulheres da Abril. Ela chamou atenção para algo simples: muitas mulheres ainda enxergam investimentos internacionais como algo distante, quando hoje eles já fazem parte do planejamento comum.
Algumas respostas nascem no contexto. No Brasil, particularmente, mulheres em sua maioria foram educadas para administrar a casa antes do patrimônio, a controlar gastos antes de discutir riqueza, a sobreviver às crises antes de planejar o longo prazo. Portanto, investir, ainda mais no exterior, pode parecer assunto reservado a grandes fortunas.
Investir fora do Brasil deixou de ser exceção
A expressão “offshore” ganhou um ar quase clandestino, como se estivesse inevitavelmente associada a paraísos fiscais e escândalos políticos. A fama das Ilhas Cayman tem uma manchinha por aqui. Mas o mundo tem mudado a passos largos. Hoje, ter parte do patrimônio fora do país é, muitas vezes, menos uma estratégia de privilégio e mais uma estratégia de proteção.
Para muitas brasileiras, a internacionalização financeira já começou, e de formas simples: um fundo global, uma conta internacional para viagens ou mesmo investimentos dolarizados. E o que está por trás dessa decisão não é apenas a busca por rentabilidade, é também a compreensão de que nossa vida é mesmo global.
Nossa vida já é global. Nosso dinheiro também deveria ser?
Estamos construindo vidas que atravessam fronteiras. Trabalhamos remotamente para empresas estrangeiras, criamos filhos em dois países, planejamos intercâmbios para nós mesmas, sabemos que viveremos mais do que as gerações anteriores, temos autonomia para nos divertir onde quer que seja. Ainda assim, concentramos quase todo o patrimônio em uma única economia.
Diversificar perspectivas e ampliar repertório, na vida e no bolso, nos leva a entender que patrimônio, moeda, risco e futuro não precisam estar presos às fronteiras nacionais. Enxergar para além do Brasil não significa fugir dele, mas não depender exclusivamente dele.
Não coloque todos os ovos em um único país
No mercado financeiro existe um ditado que se popularizou: “não coloque todos os seus ovos em uma cesta apenas”. Isso se refere à carteira de investimentos, ou seja, não colocar todo o dinheiro em um único produto. Essa diversificação passa por previdência, renda fixa, fundos, ações e por aí vai. Podemos pensar, entretanto, em um outro sentido, o de não colocar todos os ovos em um país apenas diante de possibilidades internacionais cada vez mais acessíveis.
Na viagem de duas horas entre Casablanca e Tânger, enquanto o trem bala Al Boraq avançava a 320 quilômetros por hora e eu tomava um chá de hortelã devagarinho, os pensamentos voavam e aterrissavam.
Os mercadores marroquinos aprenderam há séculos que depender de uma única rota comercial é arriscado. Existe uma lição aí. Em um mundo cada vez mais conectado, concentrar todas as nossas referências em um único lugar pode ser mais arriscado do que imaginamos.
Ampliar horizontes, afinal, é reconhecer que existem muitos caminhos possíveis para chegar mais longe.
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