Elas investem mais: mulheres entram no mercado de fundos imobiliários com aportes maiores que os homens
Dados da B3 revelam que, embora sejam minoria na bolsa, as mulheres investem com mais segurança e valores mais altos em FIIs
Naquele domingo, saí andando por aí. Queria absorver vitamina D e cuidar da flacidez que chora o abandono do colágeno, aquele ingrato que foi embora sem avisar e nem deixou pistas. Não era qualquer lugar, era a orla do Leblon, me lembrei do autor Manoel Carlos e vivi uma história que bem poderia virar um capítulo de novela.
Percorrendo o calçadão, do lado direito, na areia, está a barraca que leva o nome da proprietária: Ângela. Tomo água de coco? Do lado esquerdo, no asfalto, a barraca do marido dela: Luciano. Compro um livro dele? Fiquei na dúvida entre o coco e o livro, bateu mais forte o coração de mãe bibliófila, que sempre quer mais um para a sua fila de leitura.
Do calçadão ao sebo sobre rodas
Ângela e Luciano trabalhavam juntos na barraca da praia até que veio a pandemia. Então, ele foi para longe do mar, para dentro do bairro. Numa esquina da Ataulfo de Paiva, começou a recolher doações de livros e vender por precinho camarada. Nunca mais parou. Assim, hoje, em um sebo sobre rodas, faz circular obras entre a vizinhança e os turistas.
Naquele dia, Luciano levou caixas temáticas — parte dos 30 mil livros que acumulou em casa nesse período. Entre tantos exemplares, me apaixonei por um calendário ilustrado do impressionista Monet, cheio de anotações singulares. Um agendamento de entrevista para a BBC, um dia dedicado ao Oscar, outro ao Grammy, um só para Drew Barrymore e até para Kurt Cobain. Quem seria essa pessoa?
Na caixa ao lado, identificada pela plaquinha “Gestantes”, investigo capas: Mãe sexy, Verdades que ninguém te conta, A culpa é da mãe, Babá, No bad Kids, Pai crônico… Espera, tem mais um título: um guia financeiro chamando atenção para fundos de investimentos imobiliários (FIIs).
Lições de bolso na beira da praia
É curioso e faz sentido. Os tais FIIs negociados na B3, a bolsa de valores do Brasil, permitem que você invista no mercado imobiliário com valores baixos. Você se torna cotista de um portfólio (seja de prédios ou títulos) e recebe uma parcela proporcional dos aluguéis e rendimentos: uma bela conquista de renda passiva. Hoje em dia, basta um aplicativo, seja de banco ou de corretoras para começar.
O mercado de FIIs vive um processo acelerado de transformação no país, diante da democratização da bolsa e no meio da busca por diversificação de carteira, especialmente em um ambiente de juros elevados. Nos últimos cinco anos, o número de pessoas físicas investindo em FIIs praticamente dobrou: são quase 3,2 milhões de brasileiros, segundo a B3. Na sua maioria, porém, do sexo masculino. As mulheres representam apenas 26% do total de investidores em FIIs, contra 74% de homens.
Elas investem com mais segurança
Ainda assim, a B3 revela um dado interessante: quando mulheres decidem investir, aportam valores maiores. Em março de 2026, o valor mediano investido por elas em FIIs era próximo de R$ 5,3 mil, enquanto entre os homens ficava em torno de R$ 3,5 mil, quase R$ 2 mil a mais. Ou seja, quando decidem, entram menos por impulso, mais informadas, com mais segurança.
Talvez seja essa a maternidade contemporânea nos bairros ricos do Brasil: ler sobre culpa na areia, vigiar a flacidez no espelho e estudar renda passiva entre um mergulho e outro. Pode ser uma mãe do Leblon, uma personagem de Manoel Carlos ou, ainda, a antiga dona do livro doado ao Luciano. Que continue assim.
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