Quem é Leila Oliveira, a brasileira que lidera a Warner Music e aposta em projetos com propósito
Primeira mulher na presidência da Warner Music Brasil, Leila Oliveira usa a posição mais alta da hierarquia para amplificar novas artistas
Leila Oliveira não conteve as lágrimas ao acompanhar a gravação do álbum Minhas Andanças, de Cleber Augusto, no estúdio da Warner Music Brasil, no Rio de Janeiro. Há mais de 20 anos, um câncer na garganta tirou a voz do ex-vocalista do Fundo de Quintal. Mas a equipe da Warner conseguiu recuperá-la — e colocar o cantor, mais uma vez, historicamente, à frente do lançamento de um novo disco. E em boa companhia: ao lado de cantores como Péricles, Diogo Nogueira, Roberta Sá, Marvvila, Mumuzinho e Xande de Pilares, entre outros.
Para chegar à voz dele, a equipe alimentou uma inteligência artificial com gravações antigas do cantor. E convidou Alexandre Marmita, artista com timbre parecido, para interpretar as canções — tudo sob a supervisão de Cleber, que orientava como ele mesmo cantaria alguns trechos. Com tudo pronto, a IA alterou a voz de Alexandre e a deixou muito semelhante à de Cleber.
“Fico arrepiada só de lembrar da felicidade da família. As filhas dele disseram que havia tempo que não o viam tão feliz. Quando fizemos os convites, os artistas deram um jeito na agenda para topar. No fim, faltou até música para tanta gente. Foi tão bacana, coisas assim fazem a diferença”, comemora Leila. “A gente sabia que, provavelmente, não seria o tipo de álbum com apelo gigante para render a audiência das grandes playlists. Ele tem outra característica, é um projeto grande que vai ser consumido durante muito tempo. Foi uma das coisas mais gratificantes que já fiz na minha carreira”, conta.
Há quase quatro anos, Leila assumiu a presidência da Warner, onde trabalha desde 2013. E são projetos assim, com propósito, que mais motivam a executiva a trocar as horas ao lado do filho pelo dia a dia no escritório. “Preciso estar muito apaixonada pelo que estou fazendo para dizer: ‘Cara, vou para Goiânia ficar três dias lá e o meu filho vai estar em casa’. Por isso precisamos de propósito e responsabilidade. Estamos mexendo com o sonho das pessoas”, diz. E ela gosta de perceber a mesma empolgação em sua equipe.
“Se a gente não acreditar no que faz, fica muito complicado inspirar os outros. As plataformas, por exemplo, viram de quinta para sexta-feira. Os novos lançamentos, as playlists principais saem na virada para sexta. E vejo, nos grupos, a galera vibrando. Se elas olham essas playlists esse horário é porque estão apaixonadas pelo trabalho também.”
Carreira no entretenimento
Lá atrás, quando a pirataria ainda desafiava as receitas das gravadoras, Leila trabalhava no portal Terra. Eles haviam lançado um projeto diferente e à frente do seu tempo. Enquanto o iTunes ainda vendia músicas ou álbuns inteiros para download, o Terra oferecia o Sonora — que era, basicamente, uma versão experimental dos atuais aplicativos de streaming, como Deezer e Spotify.
Não deu certo naquela época, mas foi quando ocorreu a primeira aproximação de Leila com o mundo profissional da música. Ela negociava os direitos autorais com as gravadoras para disponibilizar aos clientes do Sonora — e também os pacotes negociados entre o portal e as agências internacionais de notícias.
Até que um de seus colegas, Alfonso Perez-Soto, recebeu uma proposta para estruturar o departamento de novos negócios da Warner Music — que nada mais era do que a migração para o mundo digital, ainda pouco conhecido. Alfonso a convidou para integrar o time regional da América Latina.
“Ele me disse: ‘preciso de alguém forte no Brasil e eu acho que essa pessoa é você’. Achei muito bacana, porque sempre o admirei como negociador. É uma daquelas pessoas de quem você quer absorver conhecimento”, diz. Ela aceitou e, de quebra, ainda trocou São Paulo pela cidade do Rio de Janeiro, uma antiga paixão da administradora.
Naquele momento de transição digital, o primeiro desafio de Leila era convencer as equipes a lançarem as músicas no formato digital antes de os discos chegarem às lojas físicas. Além disso, a indústria da música mantinha uma visão punitiva na internet, bloqueando vídeos de usuários comuns no YouTube por violação de direitos autorais. Leila acompanhou e participou ativamente dessa virada de chave, até o mercado entender que o conteúdo gerado pelo público era, na verdade, uma forma de popularizar ainda mais as canções e os artistas.
Não demorou para o departamento de “novos negócios” virar o negócio principal da gravadora, o que, consequentemente, impulsionou a carreira de Leila. De gerente, passou a diretora comercial, diretora geral e, por fim, assumiu a presidência da Warner Music Brasil em 2022.
Sororidade sonora
A nomeação gerou uma onda de comoção no setor. Logo nas primeiras semanas, ela se surpreendeu com a avalanche de mensagens recebidas de mulheres de todo o mercado de entretenimento. Elas finalmente se sentiam representadas na cadeira principal de uma grande companhia.
“Isso me pegou! Recebi várias mensagens quando assumi o cargo, era muita gente comemorando e vibrando comigo. E aí eu pensei: tá, e agora? O que eu faço com isso? Como uso minha posição para fazer a diferença?”, questiona.
Ela encontrou a resposta: criar propósitos com responsabilidade — o que inclui diversificar não apenas o escritório, como também o catálogo de artistas contratados. E ela se orgulha do que ela e a Warner fizeram até aqui.
“Alguns segmentos são majoritariamente masculinos, como o pagode. Então a gente tem a Marvvila conosco, que é extremamente respeitada no mundo do pagode. O urbano, com o rap e o trap, ainda é muito masculino também”, conta. “A gente assinou agora com a Bia Soull. A música dela é de uma liberdade sexual gigante, mas com elementos musicais que vêm da soul music.”
No fim das contas, é quase a mesma lógica do projeto de Cleber Augusto. Se a caneta de Leila foi capaz de devolver a voz a ele, ela também usa o peso de sua cadeira para dar cada vez mais voz às mulheres — ainda que enfatize: “É um movimento que tem de ser da indústria toda”.
“O que faz diferença mesmo em uma empresa é o nosso olhar de mulher, não tentar ser o que a gente não é. A minha vivência tem que vir para a mesa para abrir mais portas, trazer mais gente e fazer com que essas mulheres sejam ouvidas com o respeito que merecem”, completa.
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