Emar Batalha: a constante jornada de reinvenção da designer de joias dos famosos
Empresária vence infância marcada por perdas, prospera no mercado e agradece seu sucesso com criação da ONG Alimentando o Bem
Emar Batalha não entendia por que uma das mulheres do curso de cerâmica rendia cada vez menos. Tentou conversar com ela – em vão, a funcionária não quis abrir o jogo. Apurou um pouco mais até descobrir: o filho de apenas cinco anos passava o dia todo sozinho em casa.
Não era uma escolha dela – simplesmente não havia onde deixá-lo. Todo dia de manhã, ela fazia o que era possível: colocava o café da manhã para ele e saía para trabalhar. Só voltava à noite. Vez ou outra, uma vizinha aparecia por lá para ver como ele estava.
Emar chorou por dias. A filha dela, Alice, tinha quase a mesma idade – e doeu imaginá-la sozinha por tanto tempo. Era aquela a realidade de muitas das mulheres da comunidade do Perequê, no Guarujá, litoral de São Paulo. Foi ali que, em 2021, ela começou a dar vida ao Instituto Alimentando Bem.
“Eu não parava de chorar. Porque, nessa idade, entre 5 e 6 anos, existe um gap: a criança não pode ir para a escola, mas também não pode ir para a creche”, conta. “Foi aí que criei o Infância Caiçara, um lugar onde as mães podem deixar seus filhos, caso não tenham uma rede de apoio.”
É difícil imaginar que ela, dona de uma das maiores marcas de joias do país, entenda bem de perrengue e pobreza. Mas o passado dela tem um longo período de dificuldades – e o sobrenome, Batalha, pareceu prever a história dela.
Uma vida de perrengue
À primeira vista, pode soar irreal dificuldades financeiras na história de uma das mais famosas designers de joias do país. Mas a vida de Emar tem inúmeros capítulos de tristeza e dificuldades – e, talvez, o próprio sobrenome fosse um presságio da infância e adolescência dela.
Ainda garota, aos 10 anos, ela viu o pai tentar atirar na mãe, por não aceitar o término do relacionamento. Errou. Mas não erraria na segunda tentativa. Pouco meses depois do primeiro atentado, ele a matou – e Emar ficou sob os cuidados da avó materna e da tia.
No primeiro ano depois do crime, a família ainda recebeu pensão alimentícia. Depois veio a dureza de verdade: viviam com pouco mais de um salário mínimo, que vinha do trabalho da tia como servente em um hospital. Eram sete pessoas dividindo uma casa de dois quartos. “A gente só tinha comida da escola. Não tinha dinheiro para comprar gás de cozinha”, lembra.
Aos 14 anos, começou a trabalhar como babá dos vizinhos. Aos 15, foi atrás dos meios-irmãos por parte de pai e foram eles que pagaram sua primeira mensalidade do curso técnico de contabilidade. A vida começou a melhorar ali. Arrumou um emprego numa construtora, com um bom salário, mas tinha um só problema: ficava a mais de 300 quilômetros de casa. Para não largar os estudos, ela voltava todos os finais de semana – de carona com caminhoneiros desconhecidos.
Foi ali, ainda adolescente, que descobriu as joias, quase por acidente. Uma cunhada vendia peças de prata e oferecia 50% de comissão; Emar topou revender entre as colegas de trabalho. Em seis meses, percebeu que ganhava mais com isso do que com o salário fixo. Pediu demissão. Ela batia de porta em porta, com uma bolsa mais pesada que o próprio corpo.
Da prata, foi para o ouro, graças aos empréstimos que pegava de parentes e bancos. Abriu a primeira loja em Colatina, depois se mudou para Vitória, onde passou a apostar em eventos e relacionamentos para construir a marca. Foi lá que conheceu a cantora Preta Gil – um encontro que impulsionaria a carreira de Emar.
A virada com Preta Gil
Em um desses eventos, Emar cogitou convidar Preta, que estava na cidade para um show. Era 2003 e a cantora ainda lutava para conquistar seu espaço no meio musical. Ainda assim, a empresa de Emar ainda não comportava um investimento tão alto. Teve uma ideia: trocar joias por visibilidade. Pediu a sua assessora de imprensa para enviar fotos e um brinco para a cantora.
Preta adorou. E abriu a ela as portas do meio artístico. Da noite para o dia, Emar virou queridinha das revistas de celebridade. Aí 0 negócio decolou: abriu lojas em São Paulo, Brasília e Salvador.
“A Preta deu o pontapé inicial, porque eu passei a frequentar a casa dela, ia em festas. Então entrei mesmo nesse meio, fiz joias para o casamento da Juliana Paes, para a Ivete Sangalo, Ana Maria Braga. Fui até para a Ilha de Caras”, relembra, aos risos.
O dinheiro trouxe, entre outras coisas, uma casa de praia no Perequê, com vizinhos milionários, como o apresentador Fausto Silva e o banqueiro Roberto Setúbal. Só que ali a desigualdade era escancarada. Ao lado do condomínio de luxo, moravam famílias extremamente pobres. E, aos 50 anos, em meio à pandemia de covid, ela enxergou essas pessoas – e decidiu se movimentar.
“Pela minha história de vida, eu já vinha num projeto de, aos 50 anos, montar algo para devolver tudo isso que eu consegui. Só que eu queria fazer em Colatina, na minha cidade natal. A minha ideia era comprar a casa onde foi a casa da minha mãe e fazer uma creche”, conta. “Só que a pandemia veio e fiquei um ano morando na minha casa de praia, e fui conhecer o território. Aí falei: ‘Não, eu não posso só usufruir desse território e não devolver nada a ele.”
Alimentando o bem
Não foi a pandemia que fez Emar dar vida ao Instituto Alimentando o Bem. Foi uma tempestade pesada no litoral do sudeste que carregou as casas de mais de 500 famílias. Era tanta gente com fome que ela decidiu, junto com sua cozinheira, fazer e doar marmitas – a paixão pela gastronomia a levou, anos antes, a fazer cursos na primeira turma da Le Cordon Blue, uma das escolas mais renomadas da área, em São Paulo.
No primeiro dia, fizeram 70 pratos. Apareceram 140 pessoas. Nos dias seguintes, apareceu ainda mais gente: mais de 200, todos os dias. Emar contratou 20 pessoas para ajudá-la. Foram quase 3 mil marmitas doadas naquelas primeiras semanas.
Mas encher barriga não bastava. Em suas visitas pela comunidade, Emar via cestas básicas empilhadas, com botijões de gás vazios, e sem nenhuma proteína. “Eu não queria fazer caridade, queria ensinar essas mulheres a trabalhar. Aí decidi ensiná-las a fazer chocolate e a vender. Eu gosto da área de criação, então vou inventando coisas”, diz. Nascia, ali, a primeira frente do Instituto Alimentando o Bem.
Em cinco anos, a ONG, que era para ser pequena, cresceu e, hoje, conta com 51 funcionários. Além do chocolate, vieram fábricas de cerâmica, costura e velas, reunidas sob a Inclusão Produtiva. A Rede Cidadã, com assistentes sociais e psicóloga de plantão, virou porta de entrada para quem precisa de ajuda para acessar programas do governo. O Morada Digna já realocou 53 famílias que viviam em palafitas às margens do mangue – o instituto paga o aluguel de outras 52 enquanto o projeto habitacional definitivo não sai do papel. E o Infância Caiçara, criado depois daquele episódio da mãe que trancava o filho de 5 anos em casa, hoje atende 70 crianças em contraturno escolar, com outras 298 na fila de espera.
E é dentro do instituto – não na loja de joias – que Emar se sente mais inteira.
“Os dias mais felizes da minha vida são os dias que eu tô aqui dentro, eu posso ser eu mesma. Eu só resgatei a minha mãe com a ONG, nunca tive que fazer tanta terapia quanto tenho hoje. Ela me reacende diariamente”, afirma. “O legado que eu quero construir é um legado em vida. A minha Hermès não vai ser enterrada comigo. A minha joia da minha própria marca não vai ser enterrada comigo, mas a energia dessas pessoas vai.”
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