Sexo entre mulheres transmite ISTs? Entenda os riscos e a prevenção
Desmistifique a ideia de que mulheres lésbicas estão isentas de ISTs. Saiba como se prevenir e a importância do acolhimento médico
A ideia de que mulheres que se relacionam com outras mulheres não precisam se preocupar com infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ainda existe, inclusive dentro dos consultórios médicos. A falsa sensação de segurança costuma partir de uma associação equivocada: se não existe penetração, também não há necessidade de proteção.
Na prática, porém, orientação sexual não determina o risco de contrair uma IST. O que importa são as práticas sexuais e as formas de exposição, que podem envolver contato entre mucosas, secreções e sangue.
“Durante muito tempo, a prevenção foi focada apenas na relação sexual com penetração entre homem e mulher. Como não existe risco de gravidez entre duas mulheres, muitas pessoas acabaram associando, de forma totalmente equivocada, que também não haveria risco de infecções sexualmente transmissíveis”, explica Ana Paula Fabrício, ginecologista e especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela Santa Casa de Araçatuba.
Segundo a especialista, essa desinformação está presente tanto entre pacientes quanto entre alguns profissionais da saúde, o que pode dificultar o acesso a orientações adequadas e contribuir para diagnósticos tardios.
Como as ISTs são transmitidas entre mulheres?
Não é necessária a penetração com pênis para que a infecção seja transmitida. Entre mulheres, a transmissão pode ocorrer principalmente pelo contato entre mucosas e secreções infectadas, além do compartilhamento de brinquedos sexuais.
“O sexo oral também pode transmitir HPV, herpes, sífilis e gonorreia. É importante lembrar que o HPV também pode estar presente na cavidade oral, e não apenas na região genital”, afirma a médica.
O contato entre vulvas também pode permitir a transmissão de algumas infecções, especialmente aquelas transmitidas pelo contato pele a pele. Já brinquedos sexuais compartilhados podem carregar secreções de uma pessoa para outra quando utilizados sem proteção ou higienização.
Entre as ISTs que podem afetar as mulheres que fazem sexo com mulheres estão HPV, herpes genital, sífilis, clamídia, gonorreia e tricomoníase.
A vaginose bacteriana também merece atenção nesse contexto. Embora não seja classificada pelo Ministério da Saúde como uma IST, a condição está relacionada a um desequilíbrio da microbiota vaginal e pode estar associada à atividade sexual.
Não ter sintomas significa não ter uma IST?
Outro ponto que torna a prevenção importante é que algumas infecções podem permanecer silenciosas durante bastante tempo.
“A pior infecção é aquela oculta, que você não sabe o que tem. Uma delas é o HPV, mas também existe a clamídia, que pode levar à doença inflamatória pélvica, e também a gonorreia, que pode permanecer assintomática por alguns períodos”, explica.
O HPV é um dos principais exemplos. De acordo com a médica, a maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas, e o vírus pode permanecer latente por meses ou anos. Algumas infecções persistentes podem provocar alterações celulares relacionadas ao câncer de colo de útero.
A ausência de risco de gravidez não exclui a importância da prevenção
De acordo com a médica, um dos maiores obstáculos para a prevenção entre mulheres lésbicas está justamente na associação entre contracepção e proteção contra ISTs. “A ausência do risco de gravidez não significa ausência do risco de infecções”, reforça.
Quando essa crença faz com que exames, testes e preservativos deixem de fazer parte da rotina, infecções podem permanecer sem diagnóstico e continuar sendo transmitidas.
A prevenção não se resume apenas a relações sexuais: entre as possibilidades estão o uso de preservativos nos brinquedos sexuais, sua higienização antes e depois de serem compartilhados e o uso de barreiras de látex durante o sexo oral.
O problema é que esses métodos ainda são pouco conhecidos. “Os métodos de barreira, como preservativos para brinquedos sexuais e barreiras de látex para sexo oral, ainda são pouco utilizados. O problema é a falta de informação e a dificuldade de acesso a ambos, tanto da barreira quanto dos brinquedos sexuais. Os dois contribuem para as infecções.”
Por que o HPV merece atenção especial?
O HPV é uma das principais preocupações porque não depende de uma relação heterossexual para ser transmitido. “O HPV é transmitido pelo contato pele a pele e entre as mucosas, independentemente da orientação sexual. Mulheres que fazem sexo com mulheres podem adquirir e transmitir o vírus, muitas vezes sem saber que têm a infecção”, explica a especialista.
Por isso, ter apenas relações com mulheres não elimina a necessidade da vacinação contra o HPV nem do rastreamento do câncer de colo de útero.
No Brasil, as recomendações para o rastreamento passam por uma mudança. As novas diretrizes do Ministério da Saúde adotam o teste molecular de DNA-HPV como exame primário para pessoas com colo do útero entre 25 e 64 anos que iniciaram a vida sexual.
Quando o resultado é negativo, o intervalo recomendado pode chegar a cinco anos. Nos locais em que a nova tecnologia ainda não chegou, o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, continua sendo utilizado conforme o protocolo de rastreamento.
Ou seja, a frequência não é determinada pelo fato de a mulher se relacionar com homens ou mulheres, mas pelas diretrizes de rastreamento, idade, histórico e resultados anteriores de exames.
E o HIV? Mulheres lésbicas podem precisar de PEP?
A transmissão sexual do HIV entre mulheres é considerada menos frequente, mas isso não significa que toda exposição seja isenta de risco.
“Se uma das parceiras tiver HIV sem tratamento adequado, ou mesmo com tratamento, a profilaxia precisa ser feita. O tema ainda é pouco discutido, pois há a falsa percepção que essa população não tem risco para infecções sexualmente transmissíveis”, explica a médica.
Situações que envolvam contato com sangue ou outras exposições consideradas de risco precisam ser avaliadas por um profissional da saúde. A Profilaxia Pós-Exposição, conhecia como PEP, é uma medida de emergência utilizada para reduzir o risco de infecção pelo HIV após determinadas exposições.
A PEP deve ser iniciada o mais rápido possível (72 horas após a exposição), e o tratamento dura cerca de 28 dias.
A indicação é feita de acordo com a exposição, não com a orientação sexual da pessoa. “Os medicamentos profiláticos não são indicados pela orientação sexual”, reforça a especialista.
Quando o preconceito chega ao consultório
A falta de informação não é apenas responsabilidade das pacientes. “Quando o profissional presume a orientação sexual da paciente ou evita abordar a vida sexual de uma forma acolhedora, isso compromete tanto o diagnóstico quanto a prevenção”, diz a especialista.
Para a médica, a formação dos profissionais de saúde também precisa avançar nesse sentido: “Precisamos formar mais profissionais preparados para oferecer um atendimento sem julgamento, baseado em evidências e centrado na necessidade individual de cada paciente.”
Desmistificar a ideia de que lésbicas não pegam ISTs não significa transformar o sexo entre mulheres algo perigoso, mas reconhecer que saúde sexual também passa por informação e acesso a um cuidado que considere diferentes formas de viver a sexualidade.
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