Flertar e sentir atração por outros é traição? Psicanalista responde
Por mais que tentemos controlar, sentir atração por outras pessoas faz parte de nossa estrutura psíquica e biológica
Mesmo estando dentro de uma relação monogâmica, todos nós já sentimos atração — física, afetiva ou intelectual — por outros. Aliás, é uma fantasia acreditar que, a partir do momento em que assumimos um compromisso com alguém, paramos de ter quaisquer sentimentos pelas pessoas que não estão no relacionamento. Nutrir um desejo constante por situações, objetos e pessoas faz parte da estrutura psicológica do ser humano. Aliás, é o que nos move.
Contudo, se é natural sentir atração por outras pessoas estando dentro de uma relação, podemos dizer o mesmo sobre o flerte? Será que o ato de demonstrar afeto pelo próximo pode ser classificado como traição? Para responder essas e outras perguntas, CLAUDIA entrevistou a psicóloga e psicanalista Raquel Baldo. Veja a seguir:
Flertar estando numa relação monogâmica é natural?
Antes de bater o martelo se é traição ou não, Raquel nos convida a refletir sobre algo importante: a influência da cultura em nossa percepção de amor e relacionamento: “Algumas pessoas dentro de vínculos amorosos preferem arcar com o peso das normas sociais, vivendo e até reproduzindo essa ideia de que o compromisso afetivo representa uma privação dos prazeres. Elas sentem que, sim, estar num namoro ou casamento é sinônimo de perder a liberdade de ser, desejar, descobrir e vivenciar as sensações do mundo”, diz.
Porém, nem todas as pessoas conseguem se moldar a essas normas. Nestes casos, a psicóloga explica que o flerte acaba se transformando numa forma de escapar da repressão do desejo: “Há uma fantasia de que não estamos fazendo nada de errado, já que não existe concretização física. Sem declarações explícitas, beijos, toques e sexo, sentimos que não estamos quebrando um compromisso, mas apenas encontrando uma portinha de escape para se manter na relação”, aponta.
Então, sim, é natural que as pessoas acabem flertando dentro dos relacionamentos, visto que as motivações para isso têm raízes no subconsciente (que é bombardeado por questões morais, sociais, culturais, etc).
Inclusive, a fantasia de que alguém irá nos satisfazer por completo — e que é obrigatório se sentir assim — nos faz reprimir uma série de estímulos gerados pela vida em sociedade. “O conceito de ‘alma gêmea’ gera o efeito inverso: ao invés de nos prender a um único indivíduo, acabamos desenvolvendo uma necessidade de flertar para atender as demandas do inconsciente, que não quer deixar de sentir desejos”, esclarece.
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Flertar é natural… mas pode ser considerado como traição?
Psiquicamente, Baldo esclarece que o flerte pode acontecer de diversas maneiras: através de uma fala, olhar, tom de voz, movimentação corporal ou até toques: “Quando flertamos, estamos insinuando interesse por aquele indivíduo. É um cortejo”, clarifica.
Agora, ok… Se eu estou demonstrando interesse por outro, mesmo estando numa relação monogâmica, é traição, certo? De acordo com a psicanalista, não necessariamente: “Precisamos entender se a pessoa sabe que está flertando, pois vivemos numa sociedade que permite alguns atos sendo camuflados como brincadeiras e piadas inocentes. É tipo aquela fala clássica: ‘Aqui a gente faz assim mesmo’ ou ‘Isso é só brincadeira de amigo’. É através desses disfarces que há a permissão do flerte. Nestas situações, não estamos falando sobre traição, pois não há contratos sendo rompidos”, diz.
Todavia, a especialista aponta que o cenário muda a partir do momento em que assumimos — para nós mesmos ou para amigos próximos — que queremos evidenciar o nosso interesse. “Mesmo que eu não vá concretizar nada, já estamos falando de uma quebra de contrato”, declara. E por quê? Para entender isso, Raquel nos aconselha a analisar novamente o conceito da monogamia.
“Esse modelo não fala apenas sobre assumir alguém e permanecer ali. A ideia da monogamia é carregar essa fantasia psíquica de que não temos interesse por mais ninguém. Agora, isso é praticamente impossível. O que nos faz ser saudáveis é manter as nossas ‘punções vitais’, termo que usamos para definir aquela energia que nos inspira a trabalhar, dançar, nos divertir e, sem sombra de dúvidas, nos interessar por uma diversidade de pessoas.”
Flertar é infidelidade sim (numa cultura monogâmica)
Independente de ser saudável ou não, a monogamia é a base da maioria dos relacionamentos. Portanto, a nossa estrutura psicológica acaba sendo formada e influenciada por esse modelo que institui o contrato a dois. “Esse acordo geralmente não inclui a liberdade de expressar os seus desejos por outras pessoas, então o flerte pode ser sim uma traição. Se estamos juntos, fica subentendido que você só deseja a mim. Se isso acontece fora de nossa dinâmica, está errado”, exemplifica Raquel.
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Casamento aberto pode ser uma possibilidade
Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, flertar com outros não significa que está na hora de terminar o vínculo. Na verdade, sentir essa necessidade pode ser sinal de que está na hora de repensar os seus padrões afetivos: “Nestes cenários, o ideal seria considerar uma relação aberta. Abrir o relacionamento não necessariamente significa que o casal irá sair beijando e transando com todo mundo. Às vezes, apenas permitir o flerte já é abertura o suficiente para os dois”, aconselha.
A psicanalista pontua que, sim, é possível que dois indivíduos se escolham, se amem e aceitem que é natural ter desejo por outros: “Às vezes, reprimir o desejo de flerte é entrar num processo psíquico contrário a sua existência, o que pode inclusive ser uma traição consigo mesmo”, dispara.
Por fim, a especialista reitera: flerte é uma declaração de nosso instinto, e não uma confirmação de que a relação está ruim. Na verdade, flertar significa não conseguir mais conter os impulsos do desejo: “Levando em consideração a estrutura biológica do ser humano, talvez aceitar isso fosse o caminho mais natural”, conclui.
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