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Elisa Lucinda lança romance com textos íntimos e inquietantes

Escrito a partir de anotações no bloco de notas de seu celular, a obra ressalta vozes de sua infância e das mulheres do subúrbio onde cresceu

Por Marina Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
16 Maio 2019, 19h15 • Atualizado em 18 fev 2020, 08h33
Elisa Lucinda
 (Caio Basílio/CLAUDIA)
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  • Disparar a liberdade interior em cada leitor. Essa é a vontade da capixaba Elisa Lucinda com Livro do Avesso – O Pensamento de Edite (Malê). A poeta, que é também atriz, jornalista, professora e cantora, lança um romance que gosta de chamar de “fofoca da alma”.

    “Criei esse livro meio escondida de mim mesma. Eu estava escrevendo Fernando Pessoa – o Cavaleiro de Nada (Record, 2014), mas, ao mesmo tempo, internamente surgia Edite. A pressão com o sufocante prazo de entrega do outro título fez nascer em mim um mundo de poesia”, explica.

    “Naquela época, estava tão empenhada que tudo que brotava no meu coração e era poesia virava capítulo”, relembra sobre o processo da obra, que foi finalista no Prêmio São Paulo de Literatura em 2015.

    Mas o turbilhão de sentimentos e pensamentos não cessou nem desapareceu. Eles continuavam cutucando Elisa até que ela lhes desse atenção. Foram registrados em 450 notas em seu celular, que, depois de lapidadas, viraram seu mais recente livro, o 18º de sua carreira como escritora.

    “Comecei a notar que tinha um estilo diferente, algo oral. Eram vozes da minha infância, vozes que permeavam as mulheres do subúrbio onde cresci. É uma obra muito feminina, embora sirva para toda a humanidade.”

    A protagonista

    Edite, a protagonista e narradora, divide com o leitor suas vivências e opiniões ao longo das 156 páginas. “Tem uma descrição que ela faz de um sonho em que foi para a Índia, onde comprou vários objetos de recordação. Ela acorda lamentando a mala ter ficado dentro do sonho, porque não passou na fresta da realidade. Mas um dia desperta de outro sonho que teve com uma música inteira de Geraldo Vandré e se recorda de toda a letra. Ela conclui que na alfândega do onírico para a realidade não passam substantivos concretos, só abstratos. São conclusões pessoais sobre o mundo dela”, explica Elisa.

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    Versos que ensinam

    A relação de Elisa com a poesia é antiga. Ainda criança, aos 11 anos, durante uma apresentação no colégio, leu em público um poema e encantou a todos, inclusive sua mãe, que a colocou para estudar declamação. Até os 17 dedicou-se fervorosamente às aulas. Depois, ingressou na faculdade de jornalismo.

    Aos 19 anos, se tornou poeta e descobriu Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Paulo Leminski, entre tantos outros grandes escritores. “A poesia foi meu primeiro teatro. Aprendi que ali tem história, enredo, personagem, sentimento, começo, meio e fim”, descreve.

    Em 1998, fundou a Escola Lucinda de Poesia Viva e, dez anos depois, criou no Rio de Janeiro, com a atriz Geovana Pires, a Casa Poema, instituição socioeducativa que promove o desenvolvimento da capacidade de expressão, com aulas o ano todo. Versos de Liberdade é um dos trabalhos da instituição, que tem o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

    O projeto ensina a arte de falar poemas a jovens infratores já condenados. “Eles ganham acesso ao próprio discurso e descobrem que podem pensar, falar e articular, inclusive para lutar pelos seus direitos. A poesia é muito boa, instrui. Só ler já educa. Não tem poema estimulando a violência, mas sempre levando à paz, buscando justiça. São palavras altruístas de quem deseja o bem do mundo.”

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    Outra iniciativa é Cozinha & Voz, em parceria com a chef Paola Carosella, voltado para travestis, mulheres e homens transexuais em situação de vulnerabilidade. As aulas juntam o ensino da poesia com práticas na cozinha. “Estimulamos cada um a achar sua voz e depois a Paola oferece um curso prático de assistente de cozinha, capacitando os participantes. Isso reforça a inclusão”, diz Elisa.

    Pelas lentes da poesia

    Na voz, no teatro, na literatura e até na dramaturgia. A poesia está em todos os âmbitos da vida de Elisa. É também um tipo de terapia. “Tenho vários poemas para resolver problemas de amor, questões que não compreendi. Escrevo para esclarecer. Muita coisa aprendi pela lente da poesia, é um dos papéis dela.”

    Contudo, não é só nos momentos de dificuldade que ela produz – nos de felicidade também. Elisa admite que, para ela, funciona como um diário. “Não publico tudo que escrevo, mas escrevo em profusão.”

    Um dos ensinamentos de Elisa como professora é que fazer poesia não consiste em seguir uma lista de regras para produzir um bom texto. É algo que deve vir de dentro. Descreve o poema como uma tradução, um retrato, algo desafiador. “É tocar o coração do outro com beleza e verdade. Mesmo que seja ilusão, tem que ser de verdade”, afirma.

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    Em um processo tão profundo, o final precisa ser libertador, um alívio. E, do jeito que Elisa descreve, parece uma parte mais fácil de entender para quem não é familiar com esse mundo. “Quando termino um poema, fico satisfeita. É como se tivesse acabado de comer um prato muito bom”, finaliza com uma boa gargalhada.

    Livro Elisa Lucinda Editora Malê
    (Divulgação/Divulgação)

    O Livro do Avesso – O Pensamento de Edite’ (Malê) custa R$ 38* e pode ser adquirido por aqui.

    *Preço consultado em maio de 2019. Sujeito a alteração.

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