Solidão é epidemia: entenda os riscos do envelhecimento sem apoio
Entenda como a ciência comprovaa que os amigos são capazes de prolongar a nossa vida
Quando uma das amigas não sabia com que roupa ir à festa, Cléa Guimarães logo emprestou seu vestido de lantejoulas. Outros colegas compartilharam peças essenciais, como tules e perucas, para irem compondo seus looks. A regra era só uma: ninguém podia chegar descaracterizado.
A preparação para a dança de drags — uma homenagem ao filme Priscilla, a Rainha do Deserto — animou, nos últimos meses, os alunos da oficina de beleza e bem-estar da Universidade da Terceira Idade (UnATI), programa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
A alegria da festa parecia impensável oito anos atrás. Em 2017, aos 67, a designer de móveis voltou sozinha ao Brasil apenas para resolver pendências e atualizar documentos. Ela vivia nos Estados Unidos havia mais de 10 anos. Durante a viagem, o marido faleceu, e ela foi impedida pela imigração de voltar para lá.
“Fiquei fora por muito tempo, então a gente cria novos costumes. Quando o Fred se foi, pensei: caramba, e agora? Meu dinheiro ficou lá, minha vida ficou nos EUA. Uma assistente social me ajudou com a burocracia e a certidão de óbito. Comecei a procurar casas comunitárias para conhecer e fazer amigos. As amizades que eu fiz nesses lugares me deram força”, conta.
O risco crescente do abandono na terceira idade
A história de Cléa ilustra um fenômeno crescente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um a cada quatro idosos se sente só — embora sejam os jovens de 13 a 17 anos os mais solitários. A OMS classifica a solidão como epidemia e ameaça à saúde pública, com efeitos na mortalidade comparáveis a fatores de risco associados a tabagismo, obesidade e sedentarismo.
Contar com alguém em momentos de necessidade reduz pela metade a probabilidade de perda de força, lentidão e declínio funcional.
E a população brasileira envelhece em ritmo acelerado. A idade média passou de 29 para 35 anos entre 2010 e 2022, e o número de pessoas 60+ cresceu mais de 50% no período, segundo o IBGE. As projeções indicam que, em 2070, quase quatro em cada dez brasileiros (37,8%) estarão nessa faixa etária — hoje, são cerca de 15%.
Ou seja, o cenário de “pandemia da solidão” pode significar um custo alto — por isso, o tema entrou de vez na pauta de políticas públicas mundo afora.
O papel do Estado na velhice
O Reino Unido criou, em 2018, o Ministério da Solidão para combater o isolamento social. Três anos depois, o Japão instituiu a Secretaria para Combate à Solidão e ao Isolamento, após o país registrar altos índices de suicídio relacionados ao distanciamento social na pandemia.
“A solidão é produto do nosso estilo de vida, que está nos adoecendo. Depois da aposentadoria, quando os filhos já cresceram, o volume das atividades fica menos intenso, e o convívio social também. Então, as amizades se tornam ainda mais importantes nessa fase. É crucial que o círculo social seja cuidado e até alargado”, explica Gustavo Arns, especialista em felicidade e psicologia positiva.
No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa, criado em 2003, reconhece o direito à convivência comunitária como um pilar da dignidade humana. Espaços como os centros-dia, criados pela política de assistência social, materializam esse princípio: oferecem acolhimento diurno, oficinas e atividades que estimulam vínculos afetivos e novas redes de apoio.
O que a ciência diz sobre a relação entre solidão e demência
A ciência ainda não crava o que vem primeiro, se é a solidão ou a depressão. Mas uma coisa é certa: ambas se alimentam. Um estudo do ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), conduzido com mais de 6 mil pessoas acima dos 50 anos, mostrou que 36% dos entrevistados se sentem solitários mesmo tendo uma vida social relativamente ativa. Outros 19% vivem o isolamento completo — sem vínculos próximos nem convivência frequente. Em comum, esses dois grupos carregam mais sintomas de depressão e menor satisfação com a vida.
Entre os 50+,36% se sentem solitários mesmo com vida social ativa. Outros 19% vivem o isolamento completo, sem vínculos nem convivência.
“O primeiro ponto de alerta nessa fase é a depressão. É o mais comum de se ver assim quando essas pessoas estão muito solitárias. É importante prevenir a solidão, porque depois disso, provavelmente, vem a depressão, com humores negativos, tristeza, sentimento de menos-valia, achando que a vida não vale a pena, desinteresse”, explica Anita Liberalesso Neri, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e pesquisadora do envelhecimento.
“Depois as coisas se complicam. Você fica fragilizado e sujeito a infecções, exposto a doenças variadas, como infarto. E se você compensar na comida, é provável que se torne uma pessoa obesa. Sendo obesa, você não vai fazer exercício físico, não vai se arrumar. Então, é um rol de coisas.”
Segundo uma revisão de estudos conduzida nos EUA, pessoas idosas que vivem isoladas ou se sentem solitárias têm 50% mais risco de desenvolver algum tipo de demência, além de 30% mais chances de sofrer um AVC ou doença cardíaca. A solidão também está associada a um aumento de 26% na mortalidade prematura por todas as causas — índices comparáveis aos efeitos do tabagismo e da obesidade sobre a saúde.
O poder da amizade em vidas longevas
Se a solidão causa doenças, ter amigos perto beneficia a saúde. Outro estudo do ELSI-Brasil mostra que o apoio social — poder contar com alguém em momentos de necessidade — reduz pela metade a probabilidade de fragilidade (perda de força, lentidão e declínio funcional).
A explicação para isso vem também da neurociência. Quando estamos relaxados, ao lado de amigos e familiares, o corpo produz endorfina, um dos hormônios ligados à sensação de prazer, que reduzem o nível de cortisol (hormônio do estresse). “Esse é um dos exemplos do que acontece quimicamente quando estamos com amigos. É importante, na correria do dia a dia, encontrar esses espaços de refúgio e respiro, em qualquer idade”, diz Arns.
As amizades se tornam ainda mais importantes na velhice. É crucial que o círculo social seja nutrido e até ampliado nessa fase da vida.
“É fundamental atribuir sentido e significado ao que fazemos; é um elemento da felicidade. Como vemos muito propósito na criação dos filhos e no trabalho, isso deixa uma lacuna em relação ao que antes movia nossa existência. Então, precisamos abraçar outras possibilidades. As atividades em si são neutras, nós é que damos a elas valores”, argumenta o especialista.
A novas redes de apoio da terceira idade
Em busca de seu próprio sentido, após a perda do companheiro e o retorno ao Brasil, Cléa se reencontrou na UnATI — inaugurada em 1993, o programa oferece 60 oficinas no formato híbrido (livres e gratuitas), em diferentes áreas temáticas, como mídias sociais, informática, ginástica cerebral, nutrição, yoga, origami.
“Minha geração não quer mais só fazer aulas de dança e tricô. Nós queremos conhecimento. A Uerj se tornou a extensão da minha vida, porque lá eu tenho apoio”, diz. Além das oficinas de beleza, participa também de aulas de inglês (para refinar o vocabulário), de Canva e de redes sociais.
O novo sonho de Cléa é criar uma ecovila em Itatiaia, na Serra da Mantiqueira fluminense. Na prática, seria um espaço de cohousing (comunidades colaborativas, criadas em 1970, na Dinamarca, em que as pessoas compartilham atividades e cuidam uma das outras).
“A ecovila possibilita um ecossistema de pessoas ativas, com mais de 60 anos, que já se aposentaram. É para elas coabitarem e se ajudarem. Não é só uma casa de repouso, porque quem quiser vai poder trabalhar. Nós vamos ter uma fazenda, vamos fazer queijos e geleias. Vamos ter energia solar e carros elétricos, iguais aos de golfe, para andar por lá”, conta.
Mais que um projeto de moradia, a ecovila é uma metáfora do que ela construiu: um modo de envelhecer sem se isolar, com propósito e companhia. “Minha geração é precursora. Estamos preparando a vida de vocês para quando chegarem à nossa idade”, diz, orgulhosa.
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