Oferta Relâmpago: Claudia por apenas 5,99

Solidão é epidemia: entenda os riscos do envelhecimento sem apoio

Entenda como a ciência comprovaa que os amigos são capazes de prolongar a nossa vida

Por Carol Castro
12 jan 2026, 18h41 •
Pessoas dançam em uma festa vista por uma janela iluminada, com silhuetas em movimento; imagem simboliza convivência comunitária, socialização e combate à solidão na terceira idade
Amizades ba terceira idade é benéfico para a saúde, segundo cientistas (Gerada por IA/CLAUDIA)
Continua após publicidade
  • Quando uma das amigas não sabia com que roupa ir à festa, Cléa Guimarães logo emprestou seu vestido de lantejoulas. Outros colegas compartilharam peças essenciais, como tules e perucas, para irem compondo seus looks. A regra era só uma: ninguém podia chegar descaracterizado.

    A preparação para a dança de drags — uma homenagem ao filme Priscilla, a Rainha do Deserto — animou, nos últimos meses, os alunos da oficina de beleza e bem-estar da Universidade da Terceira Idade (UnATI), programa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

    A alegria da festa parecia impensável oito anos atrás. Em 2017, aos 67, a designer de móveis voltou sozinha ao Brasil apenas para resolver pendências e atualizar documentos. Ela vivia nos Estados Unidos havia mais de 10 anos. Durante a viagem, o marido faleceu, e ela foi impedida pela imigração de voltar para lá.

    “Fiquei fora por muito tempo, então a gente cria novos costumes. Quando o Fred se foi, pensei: caramba, e agora? Meu dinheiro ficou lá, minha vida ficou nos EUA. Uma assistente social me ajudou com a burocracia e a certidão de óbito. Comecei a procurar casas comunitárias para conhecer e fazer amigos. As amizades que eu fiz nesses lugares me deram força”, conta.

    O risco crescente do abandono na terceira idade

    A história de Cléa ilustra um fenômeno crescente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um a cada quatro idosos se sente só — embora sejam os jovens de 13 a 17 anos os mais solitários. A OMS classifica a solidão como epidemia e ameaça à saúde pública, com efeitos na mortalidade comparáveis a fatores de risco associados a tabagismo, obesidade e sedentarismo.

    Contar com alguém em momentos de necessidade reduz pela metade a probabilidade de perda de força, lentidão e declínio funcional.

    E a população brasileira envelhece em ritmo acelerado. A idade média passou de 29 para 35 anos entre 2010 e 2022, e o número de pessoas 60+ cresceu mais de 50% no período, segundo o IBGE. As projeções indicam que, em 2070, quase quatro em cada dez brasileiros (37,8%) estarão nessa faixa etária — hoje, são cerca de 15%.

    Continua após a publicidade

    Ou seja, o cenário de “pandemia da solidão” pode significar um custo alto — por isso, o tema entrou de vez na pauta de políticas públicas mundo afora.

    O papel do Estado na velhice

    O Reino Unido criou, em 2018, o Ministério da Solidão para combater o isolamento social. Três anos depois, o Japão instituiu a Secretaria para Combate à Solidão e ao Isolamento, após o país registrar altos índices de suicídio relacionados ao distanciamento social na pandemia.

    “A solidão é produto do nosso estilo de vida, que está nos adoecendo. Depois da aposentadoria, quando os filhos já cresceram, o volume das atividades fica menos intenso, e o convívio social também. Então, as amizades se tornam ainda mais importantes nessa fase. É crucial que o círculo social seja cuidado e até alargado”, explica Gustavo Arns, especialista em felicidade e psicologia positiva.

    No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa, criado em 2003, reconhece o direito à convivência comunitária como um pilar da dignidade humana. Espaços como os centros-dia, criados pela política de assistência social, materializam esse princípio: oferecem acolhimento diurno, oficinas e atividades que estimulam vínculos afetivos e novas redes de apoio. 

    O que a ciência diz sobre a relação entre solidão e demência

    A ciência ainda não crava o que vem primeiro, se é a solidão ou a depressão. Mas uma coisa é certa: ambas se alimentam. Um estudo do ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), conduzido com mais de 6 mil pessoas acima dos 50 anos, mostrou que 36% dos entrevistados se sentem solitários mesmo tendo uma vida social relativamente ativa. Outros 19% vivem o isolamento completo — sem vínculos próximos nem convivência frequente. Em comum, esses dois grupos carregam mais sintomas de depressão e menor satisfação com a vida.

    Continua após a publicidade

    Entre os 50+,36% se sentem solitários mesmo com vida social ativa. Outros 19% vivem o isolamento completo, sem vínculos nem convivência.

    “O primeiro ponto de alerta nessa fase é a depressão. É o mais comum de se ver assim quando essas pessoas estão muito solitárias. É importante prevenir a solidão, porque depois disso, provavelmente, vem a depressão, com humores negativos, tristeza, sentimento de menos-valia, achando que a vida não vale a pena, desinteresse”, explica Anita Liberalesso Neri, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e pesquisadora do envelhecimento.

    “Depois as coisas se complicam. Você fica fragilizado e sujeito a infecções, exposto a doenças variadas, como infarto. E se você compensar na comida, é provável que se torne uma pessoa obesa. Sendo obesa, você não vai fazer exercício físico, não vai se arrumar. Então, é um rol de coisas.”

    Segundo uma revisão de estudos conduzida nos EUA, pessoas idosas que vivem isoladas ou se sentem solitárias têm 50% mais risco de desenvolver algum tipo de demência, além de 30% mais chances de sofrer um AVC ou doença cardíaca. A solidão também está associada a um aumento de 26% na mortalidade prematura por todas as causas — índices comparáveis aos efeitos do tabagismo e da obesidade sobre a saúde.

    O poder da amizade em vidas longevas

    Duas mulheres idosas sorriem e conversam sentadas em um banco ao ar livre, segurando bolas de bocha; cena representa amizade na terceira idade e envelhecimento com apoio social
    Com o envelhecimento da população, as relações precisam ser moldadas (Freepik/Reprodução)
    Continua após a publicidade

    Se a solidão causa doenças, ter amigos perto beneficia a saúde. Outro estudo do ELSI-Brasil mostra que o apoio social — poder contar com alguém em momentos de necessidade — reduz pela metade a probabilidade de fragilidade (perda de força, lentidão e declínio funcional). 

    A explicação para isso vem também da neurociência. Quando estamos relaxados, ao lado de amigos e familiares, o corpo produz endorfina, um dos hormônios ligados à sensação de prazer, que reduzem o nível de cortisol (hormônio do estresse). “Esse é um dos exemplos do que acontece quimicamente quando estamos com amigos. É importante, na correria do dia a dia, encontrar esses espaços de refúgio e respiro, em qualquer idade”, diz Arns.

    As amizades se tornam ainda mais importantes na velhice. É crucial que o círculo social seja nutrido e até ampliado nessa fase da vida.

    “É fundamental atribuir sentido e significado ao que fazemos; é um elemento da felicidade. Como vemos muito propósito na criação dos filhos e no trabalho, isso deixa uma lacuna em relação ao que antes movia nossa existência. Então, precisamos abraçar outras possibilidades. As atividades em si são neutras, nós é que damos a elas valores”, argumenta o especialista. 

    A novas redes de apoio da terceira idade

    Em busca de seu próprio sentido, após a perda do companheiro e o retorno ao Brasil, Cléa se reencontrou na UnATI — inaugurada em 1993, o programa oferece 60 oficinas no formato híbrido (livres e gratuitas), em diferentes áreas temáticas, como mídias sociais, informática, ginástica cerebral, nutrição, yoga, origami.

    Continua após a publicidade

    “Minha geração não quer mais só fazer aulas de dança e tricô. Nós queremos conhecimento. A Uerj se tornou a extensão da minha vida, porque lá eu tenho apoio”, diz. Além das oficinas de beleza, participa também de aulas de inglês (para refinar o vocabulário), de Canva e de redes sociais.

    O novo sonho de Cléa é criar uma ecovila em Itatiaia, na Serra da Mantiqueira fluminense. Na prática, seria um espaço de cohousing (comunidades colaborativas, criadas em 1970, na Dinamarca, em que as pessoas compartilham atividades e cuidam uma das outras). 

    “A ecovila possibilita um ecossistema de pessoas ativas, com mais de 60 anos, que já se aposentaram. É para elas coabitarem e se ajudarem. Não é só uma casa de repouso, porque quem quiser vai poder trabalhar. Nós vamos ter uma fazenda, vamos fazer queijos e geleias. Vamos ter energia solar e carros elétricos, iguais aos de golfe, para andar por lá”, conta.

    Mais que um projeto de moradia, a ecovila é uma metáfora do que ela construiu: um modo de envelhecer sem se isolar, com propósito e companhia. “Minha geração é precursora. Estamos preparando a vida de vocês para quando chegarem à nossa idade”, diz, orgulhosa.

    As mãos entregam a idade — até você usar um destes 6 cremes

    Continua após a publicidade

    Assine a newsletter de CLAUDIA

    Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters: 

    Acompanhe o nosso WhatsApp

    Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp

    Acesse as notícias através de nosso app 

    Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA DE VERÃO

    Digital Completo

    Moda, beleza, autoconhecimento, mais de 11 mil receitas testadas e aprovadas, previsões diárias, semanais e mensais de astrologia!
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    OFERTA DE VERÃO

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba Claudia impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 9,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.