Você sabe o que realmente significam ‘patrimônio’ e ‘matrimônio’? A resposta incomoda
A colunista Paola Carvalho reflete a origem dessas palavras e ressignifica os termos nos dias atuais
Você já parou para pensar na origem e no significado das palavras “patrimônio” e “matrimônio”? Ando intrigada, perguntando aqui e acolá se já refletiram sobre que significado, afinal, carregam essas palavras. A conversa só se alongou quando puxei o assunto depois de assistir O Céu da Língua, peça em que Gregório Duvivier faz uma ode crítica e divertida à língua portuguesa e aos seus desvios.
Vou, então, ousar filosofar à la Sócrates para buscar a essência das duas expressões e descortiná-las. Não é tarefa simples, precisamos admitir que pouco sabemos.
A viagem pela etimologia
Vamos à etimologia: a raiz da palavra; como ela foi sendo escrita e pronunciada ao longo dos séculos; o que ela significava antes e agora. De certa forma, a comparação pode parecer pedante, meio nariz em pé. Te convido, entretanto, a ficar aqui, talvez, até o seu queixo cair, assim como aconteceu quando a minha ficha caiu — e já brincando com tantos dizeres, ora cômicos, que naturalizamos.
O peso histórico de “patrimônio”
Patrimônio vem do latim patrimonium, formado por pater (pai) e monium (posse ou condição). Assim, o sentido original, lá na Roma antiga, remetia à propriedade, à continuidade do nome e da linhagem. Com o tempo, o conceito foi se ampliando.
Na Idade Média, passou a incluir bens da Igreja. No sentido moderno, até ganhou um valor coletivo e simbólico, referindo-se a tudo o que constitui a herança cultural, histórica e natural de um povo. Os centros históricos de Salvador, Ouro Preto, Olinda e Paraty, por exemplo, estão na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.
Entretanto, o Leão — não o Papa, o do imposto de renda — não nos deixa esquecer que o patrimônio ainda está fortemente ligado a bens e a autoridade cobra cada vez mais satisfação. Se vacilar no valor da declaração no Imposto de Renda, é certo que cairá na malha fina.
A origem espelhada (e reveladora) de “matrimônio”
Mas mudemos de lado. A palavra “matrimônio” tem uma origem próxima — e curiosamente espelhada — à de “patrimônio”. Na Roma Antiga, matrimonium não se referia à relação afetiva, significava que a mulher passava a estar sob a autoridade do marido com o papel de gerar descendentes legítimos. Ou seja, estava ligado à função social da mãe.
O casamento legitimava os filhos para herdar o patrimonium (os bens e o poder do pai) — um assegurava a transmissão da vida, o outro a transmissão dos bens. Com o tempo, o termo foi se transformando.
Como a Igreja moldou a palavra
Na Idade Média, sob influência da Igreja, matrimonium passou a ser considerado um sacramento, elevando o casamento à esfera religiosa. Amém! Na modernidade, adquiriu o sentido mais amplo de união entre duas pessoas, associada ao amor, parceria e contrato civil.
A dupla revela muito sobre as bases patriarcais das instituições ocidentais, uma vez que o matrimônio segue gerando ou protegendo o patrimônio — para os homens, na maior parte das vezes, é preciso dizer.
Quando linguagem e poder se cruzam
As palavras carregam memória, cultura, política, valores e até desigualdades. É mesmo fascinante. Em O Segundo Sexo (1949), Simone de Beauvoir analisa como a cultura ocidental construiu a mulher como “o outro do homem”, o complemento, não o sujeito autônomo. Outras correntes propõem romper essa estrutura e ressignificar ambos os conceitos — fazendo do matrimônio um espaço de autonomia e do patrimônio, um bem comum.
E o que isso significa hoje?
Mudamos de século, de roupa e de discurso. Mulheres, mais do que nunca, podem ser herdeiras, conquistar os seus bens, fazer a gestão do patrimônio da família, liderar empresas, investir seu próprio dinheiro. No fim das contas — e há sempre uma conta — deixemos o latim, criemos outros significados.
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