Irmã Rosita Milesi, referência na defesa de refugiados, é finalista do Prêmio CLAUDIA 2025
Conheça a história da primeira brasileira a receber o Prêmio Nansen da ONU, dedicada à defesa de migrantes e refugiados no Brasil
Algumas pessoas passsam anos tentando descobrir para o que, de fato, foram predestinadas. Nem sempre, porém, este objetivo é revelado – e quando é, geralmente envolve dinheiro e ambição. Mas não foi assim com a Irmã Rosita Milesi.
Faz mais de 40 anos que proteger refugiados, migrantes e apátridas é a missão de vida da religiosa católica e advogada brasileira. Um trabalho social árduo, que é movido pela fé e esperança em um mundo melhor e igualitário.
A trajetória de Irmã Rosita
Essa missão ganhou força com o Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios e, mais tarde, com o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), do qual é diretora.
Há mais de duas décadas, a instituição abre caminhos para que migrantes e refugiados encontrem dignidade, pertencimento e reais possibilidades de reconstrução.
Muito antes disso, porém, ela já lançava as bases de pontes antes inimagináveis. Em 1997, teve papel decisivo na formulação da Lei de Refúgio, que ampliou o conceito legal de quem tem direito à proteção.
Duas décadas depois, também participou dos debates que resultaram na Lei de Migração de 2017, garantindo mais direitos e prevenindo casos de apatridia.
Reconhecimento merecido
Pouco tempo depois, em 2024, recebeu o Prêmio Nansen do ACNUR, maior reconhecimento da ONU para pessoas e organizações que se destacam na defesa de refugiados, tornando-se a primeira brasileira a conquistar essa honraria. Sua atuação também foi homenageada no Brasil, com o Prêmio Faz Diferença do jornal O Globo.
Fé e justiça social foram o fio condutor de suas escolhas, que a levaram, merecidamente, ao reconhecimento internacional. Agora, ela é também uma das finalistas na categoria Trabalho Social do Prêmio CLAUDIA 2025.
Abaixo, Irmã Rosita Milesi conta à CLAUDIA detalhes pouco conhecidos do compromisso com o trabalho social:
C: Você dedica quase 40 anos à proteção de refugiados, migrantes e apátridas. Em que momento percebeu que essa seria a missão da sua vida?
I: Para mim, cumprir uma missão junto aos refugiados e migrantes foi algo gradual: uma vocação nascida do carisma da minha congregação e que conquistou espaço em minha vida. A jornada começou na Congregação das Irmãs Missionárias Scalabrinianas, cuja inspiração vem de São João Batista Scalabrini — o “Pai dos Migrantes”.
Junto com outras irmãs e apoiadores, fundamos, em Brasília, o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), em 1999, para dar forma organizada a esse compromisso de fé e justiça social. Desde então, o IMDH tem trabalhado para acolher, apoiar e contribuir na integração de refugiados, refugiadas, migrantes e apátridas, dando especial atenção a quem enfrenta maiores vulnerabilidades.
C: De que maneira sua vocação religiosa inspira o compromisso com a defesa dos direitos desses grupos?
I: Como religiosa, aprendi a ver em cada pessoa a imagem de Jesus: isso torna inaceitável olhar para quem migra forçosamente apenas como estatística. O IMDH foi a concretização institucional desse compromisso com a integralidade do ser humano, tornando possível articular atendimento jurídico, saúde, educação e inserção social, e atuar em favor do acesso a esses direitos para todas as pessoas, independentemente da condição migratória em que se encontram.
A vocação me inspira não só a acolher, mas a escutar para promover autonomia — acesso à saúde, proteção contra violência de gênero, capacitação profissional para que, as que assim quiserem, conquistem sua independência, e caminhos para participação social.
Viver essa vocação implica construir redes ao transformar relatos de dor em políticas e práticas de proteção. O reconhecimento do Prêmio Nansen é, para mim, um convite a multiplicar essa missão — porque a fé que não se traduz em justiça e acolhida não é fé por inteiro.
C: Como foi participar da criação da Lei de Refúgio e da Lei da Migração e ver seus impactos na vida das pessoas?
I: Sinto-me muito tocada por essa pergunta — é um tema que carrego no coração há muitos anos. Quando participamos da elaboração da Lei de Refúgio (1997), éramos movidos por uma visão humanitária profunda: queríamos que o Brasil fosse realmente um porto seguro para quem foge de perseguições, guerras e violações de direitos. Trabalhei ao lado de outros ativistas, da sociedade civil e de refugiados para que pudéssemos garantir uma lei que respeitasse os padrões internacionais, mas que ampliasse o conceito de refugiado para acolher aqueles que realmente precisavam de proteção.
Foi um processo desafiador — eu sempre lembrava que “qualquer lei dura muitos anos, boa ou ruim”. Justamente por isso, não podíamos aceitar que fosse formulada com limites que deixassem de fora pessoas vítimas de grave e generalizada violação de direitos humanos. À época, fizemos até um pedido ao Vaticano para que motivasse o governo brasileiro, reforçando a importância de uma definição mais ampla de refugiado — e o Vaticano atendeu.
Anos depois, quando se abriu o debate para a Lei de Migração (2017), tive novamente a oportunidade de contribuir. Para mim, participar desses processos foi ajudar a dar rosto humano à legislação: não são apenas artigos de lei, mas vidas reais, histórias de dor, resiliência e esperança. Esse é o sentido da minha vocação: transformar a lei em rede de acolhida, justiça e liberdade.
C: Como surgiu a ideia de criar o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e qual foi o maior desafio no início da instituição?
I: A ideia do IMDH nasceu da urgência concreta de atender quem chegava fragilizado ao Brasil no fim da década de 1990. O trabalho já vinha sendo feito nas nossas comunidades e no Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), que tive a oportunidade de viabilizar em 1988.
Mas, com o crescimento dos fluxos e das necessidades, percebemos que era preciso estruturar uma organização dedicada não só ao acolhimento imediato, mas também à assistência jurídica, à inserção laboral e à defesa dos direitos humanos. Assim, em 1999, juntaram-se esforços e nasceu o IMDH, em Brasília, oferecendo um atendimento ao mesmo tempo técnico e acolhedor para migrantes, refugiados e apátridas.
O maior desafio nos primeiros anos foi transformar compaixão em estrutura efetiva. Havia muitas portas fechadas: poucos recursos financeiros, pouca sensibilidade institucional para o tema. A rede de proteção estatal e comunitária que hoje já vemos, na época não existia.
Tivemos de aprender na prática. Essa experiência nos ensinou que é preciso sempre multiplicar os braços, chamar à solidariedade e à participação. Hoje, ao olhar para trás, vejo que as dificuldades iniciais forjaram uma organização mais sólida e uma rede mais ampla, capaz de continuar defendendo a dignidade de quem vem de longe.
C: De que maneira a política atual, principalmente com a ascensão da extrema-direita, tem impactado o trabalho de proteção a refugiados e migrantes?
I: Sabe, eu sempre digo que a migração é, antes de tudo, sobre pessoas. Por isso, me entristece quando vejo que, em alguns contextos políticos mais recentes, especialmente com grupos que adotam discursos mais radicais, a pauta do refúgio e da migração acaba sendo usada para despertar medo ou hostilidade. Isso fere muito, porque não estamos falando de números, mas de vidas que já passaram por perdas profundas.
Percebemos que esse clima pode alimentar atitudes de xenofobia, e isso cria barreiras adicionais para quem chega já tão fragilizado… E eu sempre destaco a condição das mulheres e das crianças. No entanto, procuro sempre lembrar — e lembrar às pessoas — que refugiados e migrantes não são uma ameaça; eles são uma riqueza. Trazem cultura, saberes, trabalho e contribuem de maneira significativa para as comunidades que os acolhem.
C: O trabalho de mulheres e religiosas em direitos humanos nem sempre é visto. Que mudanças você acredita serem necessárias para ampliar esse reconhecimento?
I: Eu acredito que, ao longo da história, o trabalho de tantas mulheres — religiosas ou leigas — sempre esteve muito ligado ao cuidado silencioso, aquele que nem sempre aparece, mas sustenta a vida. Falo isso com esperança de que possamos avançar.
Para que esse reconhecimento aumente, penso que precisamos, primeiro, educar a sociedade a olhar com mais sensibilidade para os trabalhos que não buscam visibilidade, mas que transformam profundamente a realidade.
Acredito que o reconhecimento virá naturalmente quando entendermos que esse serviço não é apenas um trabalho social, mas uma expressão de fé e de compromisso com a vida. Quando a sociedade enxergar isso com mais clareza, não apenas as religiosas, mas todas as mulheres que atuam pelos direitos humanos serão vistas com o respeito e a gratidão que já merecem há muito tempo.
C: O Prêmio Nansen é um reconhecimento internacional inédito. O que significou para você receber essa homenagem?
I: Receber esse reconhecimento foi, acima de tudo, um gesto de esperança e a reafirmação de que a dignidade humana — de cada pessoa que cruza fronteiras buscando proteção — importa. Para mim, não foi um prêmio pessoal: foi, sobretudo, uma homenagem a todas as pessoas refugiadas, migrantes e apátridas que passaram pela minha vida e a tantas outras que não chegam aos holofotes, mas carregam consigo histórias de dor, coragem e recomeço.
Fiquei profundamente emocionada ao saber que sou a primeira mulher brasileira a receber esse prêmio. Mas, mais do que orgulho, senti responsabilidade: a responsabilidade de continuar trabalhando, de fortalecer o acolhimento e de seguir defendendo que migrantes e refugiados não são dados ou estatísticas, mas vidas humanas com sonhos e medos — e também com força para recomeçar.
O Prêmio CLAUDIA 2025
O Prêmio CLAUDIA chega a sua 25ª edição, celebrando mulheres que transformam o Brasil em diferentes áreas. A edição 2025 será realizada em 9 de dezembro, às 20h, no Roxy Dinner Show, Rio de Janeiro, e destaca finalistas que se tornaram referência em cultura, educação, negócios, direitos da mulher, saúde, inovação, sustentabilidade, trabalho social, influência digital e impacto do ano.
O júri desta edição reúne nomes influentes e plurais, como Zezé Motta, Maria da Penha, Luiza Helena Trajano, Ana Fontes e a jornalista Aline Midlej, além das representantes da Editora Abril: Karin Hueck (editora-chefe de CLAUDIA), Helena Galante (diretora de núcleo da Abril) e Andrea Abelleira (VP de Publishing da Editora Abril).
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