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Entre carreira e casa: o desequilíbrio que ainda freia a liderança feminina

Quando o cuidado da vida doméstica permanece concentrado nas mulheres, a disponibilidade profissional também se torna desigual

Por Flávia Drummond – diretora de marketing na Dasa 8 mar 2026, 09h00
Colagem com duas imagens de Flavia Drummond, diretora de marketing da Dasa, sorrindo
Flavia Drummond é atual diretora de marketing da Dasa (Divulgação/Divulgação)
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  • Nos últimos anos, ocorreram avanços importantes na participação feminina no mercado de trabalho, no acesso à educação e na presença em posições de liderança. Mulheres ampliaram sua qualificação, consolidaram trajetórias profissionais e passaram a ocupar funções estratégicas em diferentes setores. Em muitos lares, dividem igualmente — ou assumem majoritariamente — o sustento da família. A independência financeira deixou de ser exceção e se tornou realidade para milhões.

    Ainda assim, há uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: quando a renda se equilibra, por que o tempo não se equilibra na mesma proporção?

    A soma silenciosa das pequenas renúncias

    No Brasil, mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados com outras pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Mesmo quando a contribuição financeira é equivalente — ou maior — a organização da rotina familiar permanece, em muitos casos, concentrada nelas.

    Não se trata de falta de amor ou de parceria, mas de uma lógica que atravessa gerações e que, muitas vezes, nunca foi revisada. A gestão da casa, dos compromissos, da rotina escolar, das consultas médicas e dos imprevistos continua, quase de forma automática, sob a mesma responsabilidade. É justamente aí que se forma algo menos visível, mas determinante para o futuro profissional, porque essa escolha — frequentemente silenciosa — impacta diretamente as trajetórias de liderança.

    Liderar não exige apenas competência técnica ou visão estratégica; exige disponibilidade. Disponibilidade para assumir projetos complexos, viajar quando necessário, permanecer em reuniões decisivas e aceitar desafios que ampliam escopo e responsabilidade. Quando o tempo doméstico permanece desproporcionalmente concentrado, a disponibilidade profissional também se distribui de forma desigual.

    Essa diferença raramente é abrupta. Ela se constrói aos poucos, na soma de decisões aparentemente pontuais: um projeto recusado, uma viagem adiada, uma promoção postergada porque o momento “não era o ideal”. Pequenas escolhas que, acumuladas, moldam trajetórias inteiras.

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    Mulher sentada trabalhando de frente para dois computadores em projetos residenciais
    (Freepik/Reprodução)

    Quando a escolha parece natural, mas não é

    Ao longo da minha carreira, encontrei mulheres extremamente competentes — muitas delas responsáveis pelo sustento da família — que ainda eram as primeiras a reorganizar a agenda diante de qualquer imprevisto doméstico. Não por imposição explícita, mas por hábito, por expectativa implícita, por entenderem que era natural que assim fosse. Enquanto isso, seus parceiros seguiam acelerando, não necessariamente por maior preparo, mas por maior continuidade. E continuidade é um ativo silencioso quando falamos de posições no topo.

    É importante afirmar que não há certo ou errado nas escolhas de cada família. Cada mulher deve ter autonomia para decidir o que faz sentido para sua vida. O que precisa ser garantido é que essa seja, de fato, uma escolha — e não uma expectativa sustentada por padrões nunca questionados.

    Dividir despesas não é o mesmo que dividir responsabilidades

    Existe também um outro lado dessa equação. Quando a divisão de responsabilidades se torna mais equilibrada e o cuidado passa a ser compartilhado, muitas mulheres enfrentam julgamento. São questionadas por não assumirem sozinhas o cuidado, por priorizarem compromissos profissionais ou por não estarem sempre disponíveis no espaço doméstico, como se existisse um único modelo aceitável de dedicação feminina, ou como se a ambição profissional ainda precisasse de justificativa.

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    Essa tensão ajuda a explicar por que, mesmo com níveis semelhantes de formação e participação crescente no mercado de trabalho, as mulheres continuam sub-representadas nos níveis mais altos das organizações. A equidade profissional não começa na sala do conselho; ela começa muito antes, na forma como o tempo é dividido dentro de casa.

    Políticas corporativas são necessárias, mas não serão suficientes se a disponibilidade continuar sendo moldada por padrões silenciosos que determinam quem pode avançar com maior fluidez. Talvez a pergunta mais relevante seja simples: estamos dividindo apenas as despesas ou também estamos dividindo as responsabilidades e as oportunidades?

    Porque, no fim, liderança não é apenas competência. É também condição. E a disponibilidade que molda o topo começa muito antes do escritório.

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