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Testosterona feminina: promessa de bem-estar ou risco oculto?

Geralmente associado aos homens, o hormônio entrou no universo feminino — há um descompasso entre as promessas de bem-estar e o que a ciência consegue sustentar

Por Marília Monitchele 15 fev 2026, 09h00 •
Ilustração de medicamentos coloridos
Não há dados científicos comprovados dos benefícios associados à reposição hormonal com testosterona para mulheres (Reprodução/Getty Images)
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  • Se você é mulher e frequenta consultórios privados, conversa sobre bem-estar com amigas ou passa algum tempo nas redes sociais, provavelmente já ouviu falar em testosterona.

    O hormônio, quase sempre associado ao universo masculino, começou a aparecer nos últimos anos como uma possível resposta para queixas femininas comuns: da queda da libido ao cansaço persistente, da falta de disposição à sensação difusa de “não ser mais a mesma”.

    A promessa é ampla, mas as informações disponíveis sobre seus efeitos reais costumam ser, quase sempre, imprecisas.

    Uso sem indicação oficial no Brasil

    Diferentemente de outros tratamentos hormonais, a testosterona não tem indicação aprovada para mulheres no Brasil.

    Ainda assim, circula no mercado privado por meio de prescrições médicas, fórmulas manipuladas e usos adaptados para além daqueles prescritos na bula.

    A promessa de bem-estar (e os riscos envolvidos)

    Em geral, o hormônio aparece associado a discursos de melhora global do bem-estar, como se pudesse responder, sozinho, a uma soma de desconfortos físicos, emocionais e sexuais que acompanham diferentes fases da vida feminina.

    Na prática, a suposta panaceia de benefícios pode vir acompanhada de efeitos colaterais, como queda de cabelo ou crescimento de pelos na face, agravamento da voz, virilização e até formação de trombos.

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    O que a ciência ainda não consegue responder

    Ao tentar entender o que sustenta esse uso, emerge um ponto de tensão: há oferta médica, há demanda real das mulheres, mas as respostas da ciência são limitadas e bastante específicas.

    Em outras palavras, os sistemas de informação disponíveis hoje não conseguem responder às perguntas que mais importam para a saúde feminina.

    O que mostram — e o que não mostram — os dados oficiais

    Isso não significa que não há dados. A Anvisa informa que existem registros sobre a comercialização de medicamentos que contêm testosterona no país reunidos no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).

    Esses dados, no entanto, vão apenas até 2021 e não identificam o sexo do paciente.

    Eles permitem saber quantos produtos à base de testosterona circularam, mas não quantos chegaram a mulheres, em que contexto ou com que objetivo.

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    De modo geral, os medicamentos registrados no Brasil são indicados para reposição hormonal em homens com hipogonadismo, embora a prescrição fora de bula seja permitida, desde que haja acompanhamento médico e esclarecimento dos riscos envolvidos.

    O alerta das sociedades médicas

    Para as sociedades médicas, a limitação de informação não é detalhe.

    “Não existem dados científicos ou epidemiológicos nacionais que permitam estimar quantas mulheres usam testosterona no Brasil”, afirma Tayane Fighera, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), ressaltando que não há levantamentos populacionais nem sistemas de monitoramento capazes de acompanhar esse tipo de prescrição.

    A entidade também chama atenção para o fato de que não existe deficiência de testosterona na mulher em nenhuma fase da vida, o que torna problemático o uso do hormônio como resposta genérica para sintomas inespecíficos.

    A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) confirma o vazio e amplia o contexto.

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    “Não existe nenhum produto registrado no Brasil para as mulheres usarem. E isso não é um problema só do Brasil. No mundo inteiro, praticamente não há produtos de testosterona testados e aprovados para mulheres”, afirma a presidente da entidade, Maria Celeste Osório Wender.

    Relato pessoal: ganhos e limites do uso

    Lara Gidalte, professora

    “Eu usava uma dose baixa, com monitoramento, e vi minha capacidade física mudar: eu me sentia mais forte, com mais energia”

    Há pouco mais de dois anos, a professora Lara Gidalte, de 38 anos, procurou por um endocrinologista após perceber uma queda persistente de energia que afetava sua rotina de treinos e atividades diárias.

    “Eu sempre tive uma vida muito ativa, com prática regular de exercícios, e de repente minha disposição não era mais a mesma”, conta.

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    O tratamento foi conduzido com acompanhamento médico multidisciplinar e incluiu o uso de um gel à base de testosterona, associado a cápsulas manipuladas de oxandrolona, com foco específico na melhora do desempenho físico e da composição corporal.

    Após cerca de um ano, o protocolo foi interrompido devido à queda de cabelo, um efeito adverso relativamente comum.

    Ainda assim, Lara relata benefícios percebidos durante o período.

    “Eu usava uma dose baixa, com monitoramento, e vi minha capacidade física mudar: eu me sentia mais forte, com mais energia”, diz.

    Hoje, ela avalia a experiência de forma ambivalente, reconhecendo tanto os ganhos quanto os limites do tratamento, que continua suspenso.

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    Ilustração colorida de remédios encapsulados em prateleira
    Médicos discutem reposição hormonal feminina com testosterona no Brasil (Reprodução/Getty Images)

    O que a ciência realmente reconhece

    Do ponto de vista científico, o consenso é bem mais estreito do que a circulação do tema faz parecer. Hoje, há apenas uma indicação reconhecida para o uso de testosterona em mulheres: o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após avaliação cuidadosa e exclusão de outras causas possíveis.

    Fora desse contexto específico, as evidências disponíveis são escassas ou inconclusivas.

    Doses, riscos e limites

    “Os estudos que mostram algum benefício trabalham com doses fisiológicas, muito controladas, e em situações muito específicas”, explica o ginecologista Eduardo Motta, do Hospital Sírio-Libanês.

    “Quando a testosterona passa a ser associada a ganhos amplos de energia, desempenho físico ou composição corporal, geralmente estamos falando de doses acima do fisiológico e aí os riscos aumentam.”

    Segundo ele, não se trata de demonizar o hormônio, mas de reconhecer seus limites. “Não existe hormônio capaz de resolver, sozinho, questões que envolvem estilo de vida, saúde mental, relações e envelhecimento.”

    Onde nasce o ruído do debate

    Esse recorte ajuda a entender por que o debate costuma gerar ruído. Enquanto a ciência trabalha com indicações restritas e critérios rigorosos, o mercado privado tende a diluir essas fronteiras, oferecendo respostas mais rápidas para demandas legítimas, mas ainda sem respaldo científico.

    Clínicas de longevidade, farmácias de manipulação e conteúdos nas redes sociais ampliam o alcance do tema, muitas vezes sem o mesmo cuidado em explicitar limites, incertezas e riscos.

    Entre a prática responsável e o excesso de promessas

    Isso não significa que todas as prescrições sejam irresponsáveis. Há médicas e médicos que atuam dentro dos critérios científicos disponíveis, reconhecendo a testosterona como exceção, não como regra.

    O problema, apontam as sociedades médicas, surge quando a promessa se expande mais rápido do que o conhecimento, e quando decisões íntimas passam a ser tomadas em um ambiente de informação incompleta e expectativas infladas.

    Um dilema maior da saúde feminina

    Nesse cenário, o debate sobre testosterona deixa de ser apenas sobre usar ou não usar um hormônio.

    Ele revela um dilema mais amplo da saúde feminina contemporânea: mulheres vivem mais, trabalham mais, acumulam funções e são constantemente convidadas a manter desempenho físico, emocional e sexual elevados.

    A busca por soluções é compreensível. O desafio está em garantir que essas escolhas sejam feitas com clareza sobre o que se sabe e, sobretudo, sobre o que ainda não se sabe.

    O contexto brasileiro

    No Brasil, esse debate ganha contornos próprios. A maior parte do uso ocorre fora do sistema público de saúde, em um mercado privado fragmentado, com acesso desigual à informação e à especialização médica.

    Enquanto algumas mulheres conseguem acompanhamento rigoroso e monitoramento contínuo, outras entram em contato com o tema por meio de discursos simplificados, que nem sempre deixam claros os limites do que a ciência consegue afirmar hoje.

    Nesse contexto, a discussão sobre testosterona funciona como um termômetro: ela revela o interesse crescente das mulheres por soluções de bem-estar, mas também a dificuldade histórica do sistema de saúde em produzir dados, consensos e orientações voltadas especificamente para o corpo feminino.

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