Por que você não para de pensar em comida (mesmo sem fome)
Tem gente que não para de pensar em comida, mesmo sem fome — e sofre com isso. Conheça o food noise, condição que desconcentra e provoca transtorno
Antes da abertura de um concerto, tudo o que se ouve é barulho. Os músicos afinam seus instrumentos para que as notas soem no mesmo tom. É dissonante, caótico e, para o médico Philipp Sabanas, a metáfora perfeita sobre como funcionava sua mente. Há, porém, uma diferença: na cabeça dele, o barulho nunca cessava.
Só que o problema de Sabanas não era propriamente com sons: nada atordoava mais seus pensamentos do que a comida. Ao acordar, sua primeira atividade mental era planejar o que comeria ao longo do dia. Enquanto almoçava, já pensava no jantar. Podia até não sentir fome, mas sentia a necessidade de imaginar o próximo prato.
E, veja bem, é natural que a comida ocupe espaço na mente, seja para organizar compras, preparar refeições ou marcar jantares, mas para o doutor, ideias e imagens sobre alimentação invadiam seus pensamentos o tempo todo. Experiências como a dele são cada vez mais relatadas e ganharam até nome: food noise (ou “ruído alimentar”, em tradução livre).
Ainda não existe uma definição clínica formal para a condição, mas quem convive com ela descreve a sensação de que o cérebro simplesmente não silencia os pensamentos relacionados aos alimentos.
Não se trata apenas de vontade de comer: é como se fosse uma preocupação constante com calorias, nutrientes, horários. Uma enxurrada de pensamentos que atrapalha o trabalho, destempera os momentos de descanso e torna difícil focar em qualquer coisa que não seja… comer.
“São pensamentos intrusivos, contínuos e negativos que representam desafios tanto no que diz respeito à dieta — porque, às vezes, a única maneira de silenciar ruídos alimentares é comendo — como no impacto em atividades diárias pela falta de concentração”, diz o endocrinologista Filip Knop, médico-chefe da Novo Nordisk e professor da Universidade de Copenhague, durante coletiva de imprensa no Congresso da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes (EASD 2025)*.
Por que o food noise acontece?
A ciência ainda tenta entender por que algumas pessoas passam o dia ruminando sobre o assunto. Não há uma resposta definitiva, mas os pesquisadores acreditam que se trata de um fenômeno multifatorial. Uma das hipóteses envolve o mecanismo de recompensa ligado à alimentação, especialmente entre quem consome alimentos industrializados em demasia.
“A comida ultraprocessada é projetada para maximizar a palatabilidade (combinação ideal de açúcar, gordura e sal). Eles ativam os circuitos de recompensa cerebral, em especial o sistema dopaminérgico”, explica Elaine Dias, endocrinologista e metabologista com PhD pela USP.
“A alta recompensa cria uma memória alimentar forte, tornando o cérebro hiper-responsivo a esses alimentos. A busca constante por essa sensação faz com que os pensamentos sobre comida se tornem intrusivos.”
O mecanismo ajuda a explicar por que algumas pessoas com obesidade têm dificuldade para ajustar hábitos alimentares. “Estudos de neuroimagem mostram que pessoas com sobrepeso ou obesidade apresentam maior ativação em áreas cerebrais de recompensa diante de imagens ou cheiros de alimentos”, explica Marcella Garcez, médica nutróloga e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia.
Mas o sistema de recompensa não é o único motivador. “Estresse emocional, privação de sono e exposição constante a estímulos alimentares também podem contribuir para o food noise”, segundo Marcella.
Um bom exemplo deste último são as redes sociais, onde comer virou entretenimento. Vídeos virais de mukbang, em que pessoas consomem quantidades absurdas de comida, ou de ASMR, em que sons de alimentos são explorados para gerar sensação de relaxamento, despertam a vontade de provar aquilo que se vê e podem intensificar pensamentos sobre alimentação.
Além disso, dietas extremamente restritivas também podem provocar respostas no corpo e na mente que aumentam a busca por comida. Ou seja, tem muito caroço nesse angu.
Até agora, não existem critérios diagnósticos formais para ruídos alimentares em manuais como o CID-11 ou o DSM-5, que já tipificam, por exemplo, o Transtorno de Compulsão Alimentar. Na prática clínica, porém, os médicos identificam o problema durante a anamnese.
Eles observam a energia mental que o paciente gasta planejando refeições, refletindo sobre o que não podem comer ou lidando com culpa e ansiedade relacionadas à comida. Também consideram o impacto da carga mental constante na concentração no trabalho, nos estudos ou no lazer, assim como o histórico de dietas restritivas.
Existe solução para o food noise?
Embora a sensação de não conseguir parar de pensar em comida não seja nova — afinal, relatos sobre isso existem há muito tempo —, o tema é recente na ciência. Ganhou destaque quando a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, passou a ser associada à redução de ruídos alimentares.
No estudo INFORM, publicado em setembro de 2025, pesquisadores investigaram tanto os mecanismos da obesidade quanto a experiência de quem convive com esse fenômeno.
“Muita gente ainda associa a obesidade com força de vontade, gula ou falta de exercício, mas essa é uma visão reducionista. Queríamos entender a fisiopatologia da obesidade e como as pessoas se relacionam com esse novo termo, o food noise”, afirma o endocrinologista Knop.
Os resultados chamaram atenção. “Aproximadamente dois terços dos participantes relataram sofrer com ruídos alimentares. Após perderem peso com semaglutida, observamos uma redução de 46% na incidência”, detalha Knop. Além disso, 64% dos participantes relataram melhora da saúde mental. “Se você elimina pensamentos negativos, intrusivos e incontroláveis, é natural que isso se traduza em bem-estar”, diz ele.
Relatos de pacientes em ensaios clínicos apontam para um “silenciamento” ou “redução do volume” dos pensamentos sobre comida. O motivo estaria na ação dessas moléculas sobre os circuitos de recompensa do cérebro.
“Há evidências de que os análogos de GLP-1 — hormônios sintéticos que imitam a ação do GLP-1 natural, produzido pelo intestino para regular o apetite e a glicose no sangue — modulam os circuitos de recompensa dopaminérgicos, reduzindo a resposta hedônica (o prazer intenso) aos alimentos, especialmente os hiperpalatáveis. Ao diminuir a recompensa, o cérebro naturalmente reduz a prioridade e a obsessão pela busca de comida”, explica Elaine.
Não é rara a dúvida sobre como um remédio para diabetes e emagrecimento pode ajudar num problema que parece mental. Mas, segundo a endocrinologista, “a distinção entre psicológico e fisiológico é artificial na endocrinologia e no metabolismo.”
Ela explica que o cérebro é um órgão metabólico, enquanto o food noise é uma manifestação neurobiológica com componentes psicológicos. Os agonistas de GLP-1 agem diretamente no sistema nervoso central, tratando o impulso que alimenta os pensamentos intrusivos sobre comida.
“Ele trata o componente neurobiológico que impulsiona os pensamentos relacionados à alimentação. Também causa um silenciamento do impulso, modulando o apetite e a recompensa cerebral”, aponta. Ou seja, o medicamento calibra os sinais de fome e de saciedade que estavam alterados. Com os sinais fisiológicos normalizados, os pensamentos recorrentes e intrusivos de buscar comida são reduzidos.
O médico Sabanas, citado no início da reportagem, sentiu a mudança. “Escutava coisas como ‘é só comer duas maçãs por dia’; isso nunca funcionou para mim. Se antes era um caos, como no início de um concerto, com o tratamento é como quando a música começa”, relata.
Especialistas mencionam outras estratégias para lidar com ruídos alimentares, como planejar refeições com antecedência, substituir o “ruído mental” por atividades físicas, meditação ou práticas de atenção plena e evitar dietas extremamente restritivas. A ciência ainda precisa entender melhor o food noise (de onde vem, o que agrava e como controlar) para que este seja o início de um concerto (e de um conserto) que silencie as distrações e evoque toda satisfação que uma boa comida pode oferecer.
*A jornalista viajou a convite da Novo Nordisk
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