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Mulheres na Paulista contra o estupro

Teve de tudo na manifestação: Bebês. Militantes aguerridas. Performance. Jogral. Enfrentamento à PM... Uma luta criativa para tratar de um assunto muito sério: a violação de mulheres

Por Patrícia Zaidan Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
2 jun 2016, 19h21 • Atualizado em 27 out 2016, 20h59
Ricardo Toscani
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  • A primavera feminista continua dando flores e frutos. As mulheres adquiriram traquejo na briga contra Cunha, em 2015, e ontem (1/6) tomaram várias cidades do país com atos públicos, passeatas e vigílias para combater o estupro. “Mexeu com uma mexeu com todas”, foi o que mais se ouviu. Era uma referência ao animalesco estupro coletivo contra uma menina de 16 anos, do Rio de Janeiro. Vou me ater à manifestação de São Paulo, que começou na Avenida Paulista, desceu a Augusta e terminou na Praça Roosevelt com uma ciranda que me emocionou muito. Já chovia quando, dançando, as mulheres entoaram: “Companheira me ajude, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”.

    No Masp, o ponto de partida, o abre-alas se formou rapidamente com um grande número de mães e bebês nos carrinhos ou amarradinhos no peito, naqueles tecidos coloridos – o sling. Seguiram firmes no meio de batuques, apitos e flashes dos fotógrafos.

    Ricardo Toscani
    Ricardo Toscani ()

    Quem gastasse alguns minutos lendo os cartazes que as manifestantes empunhavam teria um eficiente resumo do intrincado momento pelo qual passa o país. Esta mensagem, por exemplo, chamava a atenção para a necessidade de a escola discutir a violência contra as mulheres — “Todo estuprador um dia foi aluno. #ÉpraFalardeGêneroSim”

    Listo mais algumas: “A Cinderela acordou”; “Nem recatada nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar”; “Imagina se os homens tivessem nojo do estupro assim como eles têm de menstruação”; “Juntas contra 33”; “Por que a vítima deve provar a sua inocência?”; “A PM também estupra”; “Você vai se arrepender de enfiar o pau em mim”; “Eu não preciso da sua proteção. Eu quero a sua reinvenção”; “Sem mulher livre não tem democracia”; “Meu corpo é laico”; “Fora Temer”. E a célebre frase de Simone de Beauvoir: “Toda opressão cria um estado de guerra”.

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    A HISTÓRIA DE CADA UMA:

    Ricardo Toscani
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    O cartaz que Larissa Bortoloso, 25 anos, administradora de mídias sociais, levou à passeata não é slogan. Nele estava escrito: “Eu tinha 12 anos, eu estava em casa. A culpa não é da vítima”. Essa acreana perdeu a mãe, depois o pai e, aos 8 anos, foi morar com uma irmã mais velha. O cunhado entrava no quarto, passava a mão no corpo da menina, que dormia. Ficava a dúvida: Seria isso um carinho? Larissa tinha 12 anos quando o marido da irmã penetrou sua vagina com a mão. “Ele era violento. Eu tive medo de contar o que tinha acontecido”, disse. Mas acabou se abrindo com a pastora da igreja frequentada pela família. 
    O resultado: a autoridade religiosa reuniu-se com o casal e Larissa. Fizeram ali um pacto de silêncio. “Se eu contasse para alguém, seria castigada por Deus”. Ficou entendido que as roupas que ela usava e a sua rebeldia atiçaram o diabo – e ele induziu o cunhado ao comportamento libidinoso e perverso. Simples assim. “Aos 18 anos, eu estava morando sozinha”, contou Larissa. “Mas arrasto até hoje o trauma, que afetou minha vida sexual e emocional. 

    Patricia Zaidan
    Patricia Zaidan ()

    Pâmela Araújo, com ajuda de Marcela Solto, vestiu a camiseta de passeata. Está grávida, vai ter o bebê – um menino — em 15 ou 20 dias. É do coletivo Chega de Assédio no Transporte. “Já sofri várias cantadas e assédios no ônibus e metrô, até mesmo barriguda”, afirmou. Já Nina Weingrill está orgulhosa por levar Mia, de um ano e meio, à passeata. Ela quer que o bebê cresça com consciência. 

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    Ricardo Toscani
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    Laura Santos fechou a cara e se jogou na frente da fileira de homens da tropa de choque da PM. “Vou resistir”, bradou ela, com mais três manifestantes. Os policiais não cederam. Pareciam dispostos a tudo para impedir que as manifestantes seguissem, como o pretendido, até a Consolação e, de lá, descessem rumo à Roosevelt. A saída foi a rua Augusta, estreita, cheia de ônibus e bem mais escura que a importante Avenida Paulista. Uma tentativa de diminuir a visibilidade do ato das mulheres, certamente.
    Larissa Iuele, 17 anos, tapou os mamilos com duas fitas adesivas pretas. “Meus pais me apoiam. Não estão aqui porque trabalham”, afirmou. A mãe dela é uma feminista — relatou a garota — sem nunca ter estudado os direitos das mulheres. “E eu, que sou secundarista, discuti o feminismo na ocupação da minha escola pública, a Fernão Dias.” 

    PARCEIRÕES

    Ricardo Toscani
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    Os homens se fizeram presentes. Carregavam cartazes e alguns deles até exibiam na camiseta: “Chega de Estupro” ou “Estupro nunca mais”. Tomás Amaral, arquiteto, estava sozinho. “Vim apoiar e aprender com elas. Passou da hora de desconstruir ideias antigas sobre gênero”, declarou. “O homem tem que mudar para acabar com o eterno embate que mantém com a mulher”.  O empresário Bruno Chiariello acompanhava a sua parceira. “Essa manifestação não muda o mundo, mas, minimamente, leva à reflexões. Uma trabalhadora simples, que nos vê aqui, sente que não está só e pode denunciar o marido violento. Já os homens precisam entender que a mulher não é o eletrodoméstico de cuidar de filhos e de casa”

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    A CIRANDA CONTINUA

    Patricia Zaidan
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     A passeata terminou alegre, criativa, com performances, marchinhas e adaptações de canções populares – como A Luz de Tieta, de Caetano Veloso, que na rua virou: “Eta, eta, eta, Eduardo Cunha quer controlar minha bu….”. Tinha um varal onde penduraram roupas manchadas de tinta, como se fosse sangue. Algumas máscaras. E muito improviso, como o das amigas de Amanda Figueiredo que simularam um momento funk: “Nossa pose é uma afronta. Bela e recatada não é um padrão de mulher. Aliás, nem padrão queremos ter”, explicou Amanda. 

    Ricardo Toscani
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    O jogral foi o grande fecho. Na Roossevelt, antes da ciranda, uma mulher ao megafone falou pausadamente. E todas as outras repetiram o seu discurso em voz alta. Assim, lá no fundo, bem longe, ouviu-se o que ela dizia. Era a amazonense Maria das Neves de Sá Macedo Filha, estudante de direito. Ela lembrou o número de estupros no país, fez menção à libertação que o feminismo promove, à importância de as mulheres se manterem unidas para mudar a si mesmas e transformar a sociedade. Disse que o governo Temer é machista e que não reconhece Fátima Pelaes como representante das mulheres. Ex-deputada, Fátima retirou, naquele dia mesmo, o que havia declarado em 2010 – que era contra o aborto, mesmo em caso de estupro como prevê a lei. Fátima integra o segundo escalão do governo federal, no cargo de Secretária de Políticas Públicas para as Mulheres.
    A mãe de Maria das Neves morreu no parto. Por isso, a militante recebeu em seu nome a palavra “Filha”. Uma feminista não nasce, se torna. “A cada dia, me vejo mais defensora das mulheres. O que tenho feito é honrar a luta da minha mãe, uma negra, doméstica e corajosa”. Foi a amazonense quem anunciou que no próximo domingo (5/6) as mulheres voltam à Paulista, às 14 horas, “para discutir e criar consciência”. E depois puxou a ciranda: “Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor…”. Terminada a dança de roda, ela recomendou um abraço. Forte e solidário.

    Foi uma demonstração de sororidade — aquele sentimento que uma mulher tem por todas as outras e pelas causas de libertação que as une. Uma irmandade. Uma experiência fraterna, que está nas ruas e é vivenciada por mulheres cada vez mais jovens. Muitas meninas chegando já com um discurso vibrante de independência. A manifestação que saiu da Paulista mostrou exatamente isso.

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