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Alice Carvalho: “Meu corpo dentro de determinadas roupas é político”

Alice Carvalho leva a vida,a carreira artística e a moda sempre à sua maneira: cheia de ousadia e consciente do seu papel no mundo

Por Carol Castro
21 out 2025, 17h44 •
Foto de Alice Carvalho usando um look composto por camiseta preta e saia rosa
Alice usa choker, top e saia de seda, scarpins e bolsa, Gucci (Jessica Pauletto/CLAUDIA)
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  • Alice Carvalho não esperou sentada pelo papel dos seus sonhos. Ela construiu as próprias oportunidades. Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, escreveu, em 2016, o roteiro da websérie Septo, uma história LGBT que só saiu do papel graças a um financiamento coletivo.

    “Eu achava que só colegas e familiares iriam ajudar, contribuir com 10, 15 reais. Mas fomos abraçados por pessoas do país todo. Recebemos 289 contribuições, mais de R$ 16 mil. Foi a primeira vez que comecei a pensar sobre representatividade”, lembra. A série foi seu primeiro trabalho, rendeu prêmios no Brasil e no exterior, e abriu caminho para uma carreira de sucesso.

    A estreia na televisão veio com Segunda Chamada, em 2019. Mas foi em 2023 que Alice se tornou um rosto conhecido em todo o país: Dinorah, de Cangaço Novo, lhe rendeu o Grande Otelo de melhor atriz.

    No mesmo ano, voltou à TV aberta como Joaninha no remake de Renascer e, em 2025, assumiu Otília, em Guerreiros do Sol. No cinema, passou por Ângela e chegou ao Festival de Cannes com o premiado O Agente Secreto, longa de Kleber Mendonça Filho que representará o Brasil no Oscar.

    Aos 29 anos, a potiguar transita com naturalidade entre várias camadas artísticas: já escreveu um livro de crônicas, fez parcerias com a banda BaianaSystem (e concorre junto com eles ao Grammy Latino 2025, com o álbum O Mundo Dá Voltas), e prepara seu primeiro longa-metragem como diretora.

    Multiartista, Alice usa arte, moda, e música para afirmar sua identidade e dar representatividade a vozes que a representam, como mulher nor- destina, preta e bissexual.

    CLAUDIA: De onde veio seu interesse pelas artes?

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    Foto de Alice Carvalho usando um look composto por camiseta marrom, calça marrom e óculos. Ela está sentada numa cadeira e com as mãos apoiadas no rosto
    Óculos, camisa de manga curta, cinto, calça e mules, Gucci (Jessica Pauletto/CLAUDIA)

    Alice Carvalho: Meu avô sempre teve um olhar para a música, ele tem uma coleção de discos imensa. E meu tio Antônio dava aulas de chorinho em Natal, hoje é maestro. Comecei a pegar o violão dele, com uns 8 anos, e ficava vendo o que fazer com aquilo. Desde o meu primeiro movimento na direção de ser artista, nunca tive uma repreensão dentro de casa.

    Meu avô colocava o cenário da peça dentro do carro dele e me levava para o teatro. E ele faria o mesmo se fosse me levar para prestar concurso público. Tudo que eu faço tem muito mais a ver com mostrar para eles do que para o mundo.

    Fui indicada a um prêmio de atriz revelação na Globo, com toda aquela pompa, e me emocionei porque ia levar meu avô comigo. Sempre que penso em sucesso, penso na alegria deles olhando para essa caminhada, mais do que em prêmios ou qualquer coisa.

    CLAUDIA: O que você leva da Alice para suas personagens?

    Foto de Alice Carvalho usando um look composto por vestido branco de gola alta
    Blusa de gola alta e saia, Gucci (Jessica Pauletto/CLAUDIA)
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    Alice Carvalho: Eu me levo inteira para as personagens. Não acredito que a gente consiga dar para um personagem algo que não exista dentro da gente. Ou pelo menos fazer com verdade e verossimilhança. Não gosto de trabalhar de fora para dentro, trabalho muito de dentro para fora.

    CLAUDIA: O que as personagens, como Dinorah, de Cangaço Novo, trazem?

    Foto de Alice Carvalho usando um look composto por blazer e saia
    Casaco, saia com barra de renda e scarpins, Gucci (Jessica Pauletto/CLAUDIA)

    Alice Carvalho: Com Dinorah pude fazer um exorcismo da boa menina. E sempre com o personagem me protegendo para eu conseguir colocar para fora minhas feiuras também. Me permiti sentir a ira, a raiva, bater, dar porrada, falar absurdos. Dinorah não é uma personagem naturalista. Mas ela tem muita verdade.

    Eu morria de medo de cavalo, tive de perder esse medo. Depois precisei entender a sensação de liberdade de cavalgar. Eu me cerco muito de aprendizados e de alguma meticulosidade para depois ser dionisíaca, por causa das minhas próprias inseguranças naturais da idade. É uma profissão muito bonita porque quanto mais velha, melhor você fica.

    E não tem nada que você possa fazer com relação a isso, porque a gente não pode acelerar o tempo, nem as experiências. Então, vou me cercando dos cuidados, da atenção e do hiperfoco no trabalho.

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    CLAUDIA: Você foi ao programa Encontro, da Globo, com a camiseta da banda Grafith, de Natal. Você usa a moda como forma de expressão cultural e política?

    Foto de Alice Carvalho usando um look composto por blusa branca de gola alta, bolsa preta de couro e colar dourado
    Vestido, choker e bolsa, Gucci (Jessica Pauletto/CLAUDIA)

    Alice Carvalho: O meu corpo dentro de determinadas roupas também é um movimento político. Gosto que a forma de me vestir pareça orgânica, porque é, mas também é muito meticulosamente pensada. Se vou pela primeira vez num programa de TV aberta, com uma audiência absurda, vou levantar a autoestima do Rio Grande do Norte. Sempre me vi muito pouco na tela, então, o meu lugar de atenção com o Rio Grande do Norte tem esse carimbo específico, porque era o que eu queria ter tido.

    Quando escolho a camisa da banda Grafith, que conheço desde sempre, passa por esse lugar. Assim como também é importante um corpo como o meu estar vestindo peças de alta-costura, da coleção nova da Gucci. Mais jovem, eu tinha mais resistência, achava a moda futilidade. Agora tenho um entendimento de que, se meu corpo é político, o que coloco ao redor dele também consegue ser de alguma maneira. Comunico muita coisa sem dizer uma palavra.

    CLAUDIA: E o que você pensou quando usou os óculos Juliet na apresentação do filme O Agente Secreto, em Cannes?

    Foto de Alice Carvalho usando um look composto por vestido cinza
    Minivestido e scarpins, Gucci (Jessica Pauletto/CLAUDIA)

    Alice Carvalho: Ah, isso foi uma onda! Minha stylist, a Jaiara, montou tudo com muito cuidado, com a ajuda da minha companheira Gabriela Campos, figurinista de cinema, montamos tudo com moda nacional. Escolhemos a peça do Herchcovitch para entrar no tapete vermelho, tudo dialogando com a vibe de O Agente Secreto, um filme setentista.

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    Quando estava saindo de casa, vi aquela Juliet ali. E tem muito a ver com quem eu sou de verdade: maloqueira, de Parnamirim. Isso é algo que eu não vou, nem quero tirar de mim. Me montei toda, aí foi: ‘velho, eu vou botar isso aqui porque eu estou chique, estou na beca, mas eu estou de Juliet, eu sei de onde venho’. Foi uma loucura, porque foi muito autêntico e gerou uma repercussão grande. É uma peça símbolo para o Rio Grande do Norte, para Natal, para Recife.

    CLAUDIA: Como foi gravar O Agente Secreto?

    Alice Carvalho: Eu não tive tempo de ler o roteiro do filme porque estava gravando Renascer. Emilie [Lesclaux] e Kleber [Mendonça Filho] me ligaram para fazer essa participação na quarta-feira e eu ia gravar no domingo, único dia de folga na Globo. Eu não tinha condições de ler o roteiro gravando 14 cenas todos os dias.

    Sabia sobre o que era, mas não conhecia nada sobre os outros personagens. Fui assistir pela primeira vez no Palais [Palais des Festivals et des Congrès, centro de convenções em Cannes]. E foi emocionante ver a beleza do trabalho dos meus colegas. Na cena final, que é catártica, fiquei tão emocionada, que não percebi que teve aplauso. Só percebi quando o Roberto de Orestes [ator] me cutucou: ‘É para você’. Eu estava fora do ar. Gosto de ser assim. Isso me protege.

    Obviamente, quando acaba um momento como aquele, a primeira coisa que faço é ligar para a minha mãe, meu avô, minha avó e falar: ‘Você não acredita! Os gringos me aplaudiram no Palais! Eu mandando não sei quem tomar no cu, e eles aplaudindo’.

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