Alice Carvalho: “Meu corpo dentro de determinadas roupas é político”
Alice Carvalho leva a vida,a carreira artística e a moda sempre à sua maneira: cheia de ousadia e consciente do seu papel no mundo
Alice Carvalho não esperou sentada pelo papel dos seus sonhos. Ela construiu as próprias oportunidades. Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, escreveu, em 2016, o roteiro da websérie Septo, uma história LGBT que só saiu do papel graças a um financiamento coletivo.
“Eu achava que só colegas e familiares iriam ajudar, contribuir com 10, 15 reais. Mas fomos abraçados por pessoas do país todo. Recebemos 289 contribuições, mais de R$ 16 mil. Foi a primeira vez que comecei a pensar sobre representatividade”, lembra. A série foi seu primeiro trabalho, rendeu prêmios no Brasil e no exterior, e abriu caminho para uma carreira de sucesso.
A estreia na televisão veio com Segunda Chamada, em 2019. Mas foi em 2023 que Alice se tornou um rosto conhecido em todo o país: Dinorah, de Cangaço Novo, lhe rendeu o Grande Otelo de melhor atriz.
No mesmo ano, voltou à TV aberta como Joaninha no remake de Renascer e, em 2025, assumiu Otília, em Guerreiros do Sol. No cinema, passou por Ângela e chegou ao Festival de Cannes com o premiado O Agente Secreto, longa de Kleber Mendonça Filho que representará o Brasil no Oscar.
Aos 29 anos, a potiguar transita com naturalidade entre várias camadas artísticas: já escreveu um livro de crônicas, fez parcerias com a banda BaianaSystem (e concorre junto com eles ao Grammy Latino 2025, com o álbum O Mundo Dá Voltas), e prepara seu primeiro longa-metragem como diretora.
Multiartista, Alice usa arte, moda, e música para afirmar sua identidade e dar representatividade a vozes que a representam, como mulher nor- destina, preta e bissexual.
CLAUDIA: De onde veio seu interesse pelas artes?
Alice Carvalho: Meu avô sempre teve um olhar para a música, ele tem uma coleção de discos imensa. E meu tio Antônio dava aulas de chorinho em Natal, hoje é maestro. Comecei a pegar o violão dele, com uns 8 anos, e ficava vendo o que fazer com aquilo. Desde o meu primeiro movimento na direção de ser artista, nunca tive uma repreensão dentro de casa.
Meu avô colocava o cenário da peça dentro do carro dele e me levava para o teatro. E ele faria o mesmo se fosse me levar para prestar concurso público. Tudo que eu faço tem muito mais a ver com mostrar para eles do que para o mundo.
Fui indicada a um prêmio de atriz revelação na Globo, com toda aquela pompa, e me emocionei porque ia levar meu avô comigo. Sempre que penso em sucesso, penso na alegria deles olhando para essa caminhada, mais do que em prêmios ou qualquer coisa.
CLAUDIA: O que você leva da Alice para suas personagens?
Alice Carvalho: Eu me levo inteira para as personagens. Não acredito que a gente consiga dar para um personagem algo que não exista dentro da gente. Ou pelo menos fazer com verdade e verossimilhança. Não gosto de trabalhar de fora para dentro, trabalho muito de dentro para fora.
CLAUDIA: O que as personagens, como Dinorah, de Cangaço Novo, trazem?
Alice Carvalho: Com Dinorah pude fazer um exorcismo da boa menina. E sempre com o personagem me protegendo para eu conseguir colocar para fora minhas feiuras também. Me permiti sentir a ira, a raiva, bater, dar porrada, falar absurdos. Dinorah não é uma personagem naturalista. Mas ela tem muita verdade.
Eu morria de medo de cavalo, tive de perder esse medo. Depois precisei entender a sensação de liberdade de cavalgar. Eu me cerco muito de aprendizados e de alguma meticulosidade para depois ser dionisíaca, por causa das minhas próprias inseguranças naturais da idade. É uma profissão muito bonita porque quanto mais velha, melhor você fica.
E não tem nada que você possa fazer com relação a isso, porque a gente não pode acelerar o tempo, nem as experiências. Então, vou me cercando dos cuidados, da atenção e do hiperfoco no trabalho.
CLAUDIA: Você foi ao programa Encontro, da Globo, com a camiseta da banda Grafith, de Natal. Você usa a moda como forma de expressão cultural e política?
Alice Carvalho: O meu corpo dentro de determinadas roupas também é um movimento político. Gosto que a forma de me vestir pareça orgânica, porque é, mas também é muito meticulosamente pensada. Se vou pela primeira vez num programa de TV aberta, com uma audiência absurda, vou levantar a autoestima do Rio Grande do Norte. Sempre me vi muito pouco na tela, então, o meu lugar de atenção com o Rio Grande do Norte tem esse carimbo específico, porque era o que eu queria ter tido.
Quando escolho a camisa da banda Grafith, que conheço desde sempre, passa por esse lugar. Assim como também é importante um corpo como o meu estar vestindo peças de alta-costura, da coleção nova da Gucci. Mais jovem, eu tinha mais resistência, achava a moda futilidade. Agora tenho um entendimento de que, se meu corpo é político, o que coloco ao redor dele também consegue ser de alguma maneira. Comunico muita coisa sem dizer uma palavra.
CLAUDIA: E o que você pensou quando usou os óculos Juliet na apresentação do filme O Agente Secreto, em Cannes?
Alice Carvalho: Ah, isso foi uma onda! Minha stylist, a Jaiara, montou tudo com muito cuidado, com a ajuda da minha companheira Gabriela Campos, figurinista de cinema, montamos tudo com moda nacional. Escolhemos a peça do Herchcovitch para entrar no tapete vermelho, tudo dialogando com a vibe de O Agente Secreto, um filme setentista.
Quando estava saindo de casa, vi aquela Juliet ali. E tem muito a ver com quem eu sou de verdade: maloqueira, de Parnamirim. Isso é algo que eu não vou, nem quero tirar de mim. Me montei toda, aí foi: ‘velho, eu vou botar isso aqui porque eu estou chique, estou na beca, mas eu estou de Juliet, eu sei de onde venho’. Foi uma loucura, porque foi muito autêntico e gerou uma repercussão grande. É uma peça símbolo para o Rio Grande do Norte, para Natal, para Recife.
CLAUDIA: Como foi gravar O Agente Secreto?
Alice Carvalho: Eu não tive tempo de ler o roteiro do filme porque estava gravando Renascer. Emilie [Lesclaux] e Kleber [Mendonça Filho] me ligaram para fazer essa participação na quarta-feira e eu ia gravar no domingo, único dia de folga na Globo. Eu não tinha condições de ler o roteiro gravando 14 cenas todos os dias.
Sabia sobre o que era, mas não conhecia nada sobre os outros personagens. Fui assistir pela primeira vez no Palais [Palais des Festivals et des Congrès, centro de convenções em Cannes]. E foi emocionante ver a beleza do trabalho dos meus colegas. Na cena final, que é catártica, fiquei tão emocionada, que não percebi que teve aplauso. Só percebi quando o Roberto de Orestes [ator] me cutucou: ‘É para você’. Eu estava fora do ar. Gosto de ser assim. Isso me protege.
Obviamente, quando acaba um momento como aquele, a primeira coisa que faço é ligar para a minha mãe, meu avô, minha avó e falar: ‘Você não acredita! Os gringos me aplaudiram no Palais! Eu mandando não sei quem tomar no cu, e eles aplaudindo’.
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