O lado oculto do Projeto Verão: por que o peso volta tão rápido?
Especialistas explicam por que dietas radicais e treinos intensos na corrida pelo “corpo de verão” podem abalar metabolismo, emoções e gerar o efeito sanfona
As academias estão cheias, as dietas milagrosas viralizam sem parar nas redes sociais e a vontade de um novo corpo em poucas semanas não sai da cabeça. O chamado projeto verão é um velho conhecido no Brasil e, ainda hoje, a pressão para se encaixar nele continua causando danos. Especialistas alertam que a busca por resultados rápidos compromete a saúde, e quase sempre desaparece quando a estação acaba.
O projeto geralmente consiste em emagrecer, mas rápido, tão rápido que os resultados sejam percebidos durante a estação em que a pele fica mais à mostra.
A lógica por trás desse tipo veloz de emagrecimento costuma envolver restrição alimentar severa, treinos sem preparo adequado e uma relação tensa com o próprio corpo. Como resposta, o organismo ativa mecanismos de defesa que tornam a perda de peso instável e perigosa.
O corpo entra em modo de sobrevivência
Quando a restrição alimentar é intensa, o organismo não entende isso como uma estratégia para a estética, mas como uma ameaça. “Ele entra em adaptação metabólica, reduzindo o gasto energético”, explica a nutricionista Viviana Navarro.
Hormônios ligados à fome e à saciedade sofrem alterações, e o cortisol, hormônio do estresse, tende a aumentar. Irritabilidade, queda no desempenho físico e mental e fraqueza são só o começo.
Segundo Alessandra Lovato, nutricionista e professora da Newton Paiva Wyden, esse rompimento do equilíbrio metabólico faz com que o organismo se torne mais eficiente em estocar gordura e mais lento em gastar, um cenário perfeito para o temido efeito sanfona. “O corpo responde à restrição tentando recuperar o que foi perdido”, diz Viviana.
O peso volta e, muitas vezes, mais intenso
Um dos grandes problemas do projeto verão é que seus resultados costumam ir embora na mesma velocidade com que chegaram. Após a privação, é comum o aumento do apetite e maior eficiência no armazenamento de gordura. É como se o corpo entendesse que pode viver outro período de escassez e passasse a guardar energia para se proteger.
“Nosso organismo é inteligente. Quando passamos por um período de restrição alimentar, ele realiza diversas alterações hormonais para entrar em um modo de economia de energia. Ao voltarmos a comer normalmente, o corpo ainda está adaptado a esse período de escassez e, por isso, funciona de forma mais lenta”, explica Bruna Soares Faria, coordenadora do curso de Nutrição da Estácio.
Às vezes perdemos massa muscular, não gordura
E grande parte do peso perdido em dietas muito restritivas não é gordura, mas água e massa muscular, como destaca a nutricionista esportiva Thatiana Lancelott. “O corpo pode consumir sua própria massa muscular para se manter, ou seja, o peso que você vê baixando na balança não é gordura, e sim músculo, piorando a composição corporal. Pode causar também fadiga, lesões e até compulsão alimentar”, afirma.
Culpa é o ingrediente invisível que sabota resultados
Quando o assunto é projeto verão, alimentos são classificados como “bons” ou “ruins”, e qualquer escolha que não se encaixe na categoria do bem vira motivo de culpa.
Muitas vezes, essa classificação depende apenas da quantidade de calorias ingeridas. Não importa se o alimento é nutritivo ou não, o importante é que ele sirva para emagrecer.
“A culpa ativa um ciclo emocional que interfere diretamente no comportamento alimentar”, explica Viviana Navarro. O sentimento de fracasso gera estresse, eleva o cortisol e faz o cérebro buscar alívio imediato em alimentos mais palatáveis, de acordo com Alessandra.
Um ciclo de restrição, exagero e repetição é criado, o que prejudica tanto a saúde física quanto a emocional.
“A culpa ao comer pode gerar um ciclo de restrição e exagero, caminhando diretamente para o efeito sanfona. Ao classificar como comida certa ou comida errada você gera uma ansiedade alimentar que desencadeia até mesmo alterações hormonais, como o aumento do cortisol”, segundo Thatiana.
Quando o cuidado vira punição
A psicóloga e pesquisadora Renata Roma alerta que a lógica do “corpo ideal a qualquer custo” também pode desencadear ou agravar transtornos alimentares, especialmente em pessoas com baixa autoestima ou alto nível de perfeccionismo.
“Nesse contexto, dieta e exercício deixam de ser cuidado e passam a ser punição”, afirma. Redes sociais intensificam o problema ao vender corpos “perfeitos”, muitas vezes editados e com procedimentos estéticos, que geram comparação, vergonha e até abandono da prática de atividade física por vergonha ou sensação de não pertencimento.
“Dividir alimentos entre ‘permitidos’ e ‘proibidos’ e comparar o próprio corpo a imagens vistas na internet podem impor padrões inalcançáveis e gerar frustração”, afirma Isabela, nutricionista da Clínica Muzy.
E o treino, como fica?
Os treinos intensos costumam ser adotados na busca pelo “corpo ideal” para o verão. E é justamente o corpo que pode reagir negativamente quando não há um preparo adequado.
“O treinamento precisa sempre passar por uma fase de planejamento. Dentro desse projeto, existem etapas de adaptação, evolução intermediária e ciclo avançado”, explica Anderson Téu, personal trainer e educador físico da Academia Gaviões.
Sem a periodização, há risco de danos articulares e musculares. “Não se preparar para treinos intensos é muito mais perigoso do que se imagina.”
É natural perceber mudanças no corpo em pouco tempo, mas grandes resultados exigem paciência. “A evolução vem da constância. O visual muda rapidamente quando começamos a treinar, mas o sucesso está na continuidade”, reforça Anderson.
O discurso que ajuda e o que atrapalha
Resultados significativos podem, sim, acontecer, desde que haja acompanhamento profissional, estratégias adequadas e respeito ao funcionamento do corpo. “Precisamos pensar em uma alimentação regular, diversificada e que traga prazer e satisfação. É importante escutar o próprio corpo, quando queremos comer, o que queremos comer, e enxergar os alimentos de forma ampla, como fontes de nutrientes”, diz Bruna.
“O ideal é buscar discursos mais educativos e realistas, além de procurar auxílio de profissionais comprometidos e atentos ao contexto, rotina, cultura alimentar e saúde mental, sem promessas milagrosas. Geralmente, discursos alarmantes podem prejudicar a relação com a alimentação”, comenta Isabela.
Do ponto de vista do treino, por que não transformar essa prática em algo positivo? “Ao nos exercitarmos, geramos uma resposta biológica invisível, mas extremamente vantajosa. O corpo libera neurotransmissores que atuam diretamente no sistema de recompensa do cérebro. Quem pratica atividade física está sempre produzindo endorfina, dopamina e serotonina. Com isso, a saúde mental se mantém equilibrada, e é isso que sustenta a continuidade do hábito”, finaliza Anderson.
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