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Professora ensina jovens a usar a performance artística para se expressar

Temas como racismo estrutural e saúde pública eram trabalhados nas perfomances. A professora Camila Nunes venceu o Prêmio Educador Nota 10

Por Esmeralda Santos (colaboradora)
21 set 2020, 17h00 • Atualizado em 22 out 2020, 13h21
 (CLAUDIA/CLAUDIA)
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  • A professora Camila Nunes Rossato, 36 anos, precisou interromper nossa conversa para colocar o pequeno Miguel, de apenas 18 dias, para dormir. Em licença-maternidade, ela lembra que nunca pensou em ser professora – sua primeira formação foi em audiovisual.

    “Eu tinha um certo preconceito com a profissão. Sempre quis trabalhar com cinema e produção. Só que quando essa graduação terminou, não conseguia nada na área e fiquei um tempo sem saber o que fazer”, explica.

    Arrumou emprego em um banco e, em meio à inquietação com a sua trajetória profissional, juntou-se a um grupo para praticar trabalho voluntário dentro de escolas públicas. “Eu atendia uma turma do ensino médio e era muito legal. Foi uma experiência incrível, a primeira vez que eu tive contato com adolescentes. Serviu de gatilho para pensar sobre educação“, conta.

    Encantada, Camila voltou para a faculdade, dessa vez para licenciatura em Artes Visuais. “Achei que era uma complementação do que eu estudei em audiovisual”, argumenta ela, que juntou sua experiência no voluntariado com sua licenciatura e atualmente é professora de artes na escola municipal de ensino fundamental Prof. Marina Melander Coutinho, em São Paulo.

    Performando problemáticas através da arte

    A turma do 9º ano com quem Camila colocou a performance artística em prática já tinha tido contato com ela durante o ensino fundamental I e II. Naquela época, Camila já havia proposto experiências com o corpo. Isso foi importante para que eles pudessem realizar um trabalho mais denso e desafiador. “Eu tinha uma certa resistência com a performance, porque achava que era uma linguagem muito conceitual e de difícil entendimento. Normalmente, quem compreende é o próprio artista”, conta ela.

    Depois de pesquisar e mostrar exemplos para seus alunos, ela apresentou livros didáticos para que os estudantes se apropriassem sozinhos do conceito e pudessem produzir seus trabalhos com autonomia.

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    Os alunos desenvolviam, então, o trabalho colaborativo autoral, uma exigência da prefeitura que consiste em pesquisas que conduzam os estudantes a perceber os desafios locais e globais que mais o incomodam. “Diante do desafio de olhar pra performance como algo a se trabalhar em sala de aula, eu achei interessante unir as pesquisas que eles realizavam com a linguagem performática”, elucida a professora.

    Projeto
    Alunos do 9º ano performando nas escolas (Foto: Camila Nunes Rossato/Arquivo pessoal)

    O principal desafio de juntar a pesquisa com a performance, segundo Camila, é a disponibilidade do corpo. “Esse corpo presente é difícil quando você é adolescente, embora as turmas fossem muito abertas a experimentar. É uma exposição muito grande quando o seu corpo é o suporte da obra. Imagine um adolescente se expondo, expondo suas fragilidades em uma fase que é tão difícil lidar com elas. Foi desafiador, apesar deles já terem tido contato com essa linguagem”.

    Temas como depressãosaúde pública, racismo estrutural e feminismo vieram à tona. Camila compartilhou referências de artistas como Marina Abramovic e Eleonora Fabião para que eles ampliassem o que já sabiam sobre os temas escolhidos. “Os projetos aconteciam em formato de vídeo ou áudio, e depois retornávamos pra sala de aula para que eles me dissessem qual era o elemento performático do trabalho deles e onde eles enxergavam a presença do artista”, conta Camila.

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    Projeto “Corpo Performático” vence Prêmio Educador Nota 10
    Alunos do 9º ano performam questões sociais levantadas no Trabalho Colaborativo Autoral (Camila Nunes Rossato/Arquivo pessoal)

    Um mapa visual também demonstrava o que os alunos tinham entendido através de textos e desenhos. “Pedi pra eles imaginarem que as pessoas não conheciam o que eles estavam fazendo. Eles tinham que apresentar uma exposição contando sobre o tema. Ao final, tínhamos um projeto de curadoria do que os alunos haviam feito ao longo do ano”, conta Camila.

    Depois de todo o envolvimento dos alunos na arte performática e seus inúmeros elementos, nos dias de apresentação do TCA alguns grupos utilizaram o conteúdo produzido com Camila. “Foi o primeiro ano que uma performance foi apresentada pra narrar um processo de pesquisa escrita”, lembra a professora.

    Reconhecimento além das salas de aula

    Camila conta que o trabalho foi tão intenso que o resultado reverbera até hoje. Um podcast foi criado por alguns alunos onde ela era convidada e eles contavam sobre as performances, e um grupo de alunos se unia a ela uma vez ao mês de forma online para discutir os temas de seus trabalhos. “O maior indício dessa aprendizagem é perceber que ela não se findou com o ano letivo, ela permanece na vida de muitos estudantes. Isso é uma aprendizagem significativa”, explica.

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    O projeto de Camila foi reconhecido pelo Prêmio Educador Nota 10, o maior e mais importante prêmio da educação brasileira, que há 22 anos reconhece o trabalho de professores da rede pública. “Esse prêmio é também um afago pra mim. É ter a oportunidade de levar aquilo que você acredita para uma amplitude muito maior. Esse prêmio me diz que tem alguém olhando pra você em um momento de tantas fragilidades e que a educação não é uma prioridade”, expressou ela.

    Conversando sobre notícias ruins com as crianças

     

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