A destruição da reputação em Hollywood na Era Digital
Estamos mesmo "bem" informadas? Como identificar se a Narrativa É uma “Arma”?

Admito, com certo desconforto, que é provável que eu já tenha sido vítima de fake news, mesmo sempre tentando verificar fontes e avaliar os fatos com equilíbrio. Mais ainda, ao compartilhar minha opinião, fazê-la com responsabilidade. Nada além do que é esperado de qualquer jornalista. Mas, nos tempos atuais, isso tem sido um processo desafiador, como comprova o caso envolvendo a atriz Blake Lively.
Quase cancelada e duramente criticada em 2024 (mais sobre isso abaixo), sua decisão de levar a briga para a Justiça trouxe à tona uma questão crucial: estamos preparadas para lidar com a complexidade do que é Verdade na era digital? A história de Blake a conecta com figuras como Amber Heard, Angelina Jolie e Meghan Markle, todas mulheres que enfrentaram campanhas de difamação e julgamentos públicos implacáveis. Deixei muitas outras de fora.
O caso de Blake Lively é particularmente emblemático. Embora sua reputação já estivesse arranhada por críticas sobre sua postura grosseira com jornalistas estrangeiros, sua aparente indiferença em torno da questão de violência doméstica, que era o coração do filme É Assim Que Acaba, fez com que ela fosse jogada na arena da opinião pública e nada estava a seu favor.
As imagens e as entrevistas não são fakes: Blake é arrogante em algumas e mais preocupada em falar de florais, shampoo e joias nas outras. Quando questionada diretamente sobre apoio às vítimas de violência doméstica, em algumas entrevistas, disse que preferia olhar para a personagem como sobrevivente e focar na positividade. Soou despreparada e indiferente.
O que mudou? Novas evidências mostram que houve uma campanha orquestrada para destruí-la publicamente ressaltando essas falhas. E por que? Porque Blake não apenas se desentendeu com o diretor e co-estrela, Justin Baldoni, durante as gravações. Acusações de assédio sexual pairavam no ar e o fato de que ela e ele não se falaram ou posaram para fotos no lançamento, ressaltava a briga. Quando o elenco apoiou Blake e não Justin, ele resolveu agir antecipadamente.
Segundo mensagens reveladas em um processo judicial, que a TMZ acessou e o New York Times repercutiu, a equipe de crise que Baldoni contratou teria usado deliberadamente as próprias palavras de Blake contra ela, tudo para manipular a narrativa online e mudar a maneira que olhávamos para a atriz. Quando Blake alertou que isso estava acontecendo só aumentou a negatividade contra ela. A descoberta que ela estava certa é perturbadora e nos leva a uma reflexão mais ampla: por que o julgamento de mulheres é sempre tão implacável?

O Padrão Misógino
A cultura de responsabilizar mulheres pelos erros dos homens é antiga e persistente. Yoko Ono ainda é acusada de ser a causa da separação dos Beatles, apesar de os próprios músicos negarem isso. Nos anos 1950, Wallis Simpson foi vista como a mulher que “fez” o Rei Edward VIII abdicar do trono, mesmo que ele fosse inepto e desinteressado no papel de monarca.
Outras histórias são ainda mais devastadoras. Mia Farrow teve sua carreira e reputação destruídas após ser trocada por sua filha adotiva por Woody Allen, que ela havia acolhido ainda criança. Allen, até hoje, se defende das acusações de abuso sexual feitas por sua filha, Dylan Farrow, alegando que tudo foi uma invenção de Mia movida por vingança. A narrativa de que ela é uma mulher desequilibrada e vingativa persiste, enquanto o impacto emocional dessa história é subestimado.
Esse padrão continua a se repetir, com a imagem feminina frequentemente sendo moldada para atender aos interesses masculinos, enquanto suas falhas, reais ou exageradas, são usadas para justificar ataques.
O fator Amber Heard
O movimento #MeToo trouxe uma mudança indispensável na forma como abordamos acusações de assédio e violência sexual. No entanto, ele também revelou como o sistema ainda é moldado para descredibilizar mulheres. Amber Heard se transformou involuntariamente um exemplo delicado da situação. Antes de seu casamento com Johnny Depp, ela era uma atriz em ascensão. Após o divórcio, sua vida virou um campo de batalha jurídico e público.
Depp perdeu um processo de difamação no Reino Unido, mas venceu outro nos Estados Unidos, o que lhe rendeu apoio massivo na Internet. Heard, por outro lado, tornou-se o símbolo da “mulher manipuladora” que inventa acusações falsas, foi ridicularizada e criticada.
Embora a Justiça tenha desmascarado algumas de suas mentiras, sua denúncia de ter sido alvo de campanhas de difamação online foi amplamente ignorada. Hoje, é impossível discutir o caso sem reconhecer o impacto das redes sociais em moldar a percepção pública — algo que também afeta figuras como Blake Lively e Meghan Markle.
O Caso Blake Lively
Como comentei, quando surgiram as acusações do assédio sexual de Baldoni, ele contratou especialistas em gerenciamento de crises para “reverter a narrativa” e as mensagens mostram diálogos onde dizem coisas como “ele quer sentir que ela pode ser enterrada”. A resposta foi ainda mais assustadora: “Você sabe que podemos enterrar qualquer um.” Sabe quem enterra? Nós, consumidores desavisados.
O resultado foi devastador para Blake. Suas falhas, reais ou fabricadas, foram amplificadas, enquanto sua postura era atacada de forma desproporcional. O mesmo padrão é observado em casos como o de Meghan Markle e Príncipe Harry cuja luta contra tabloides inclui alegações de que sua própria família e a Família Real contribuíram para difamá-la. Até Angelina Jolie, que enfrenta um Brad Pitt disposto a manchar a reputação da ex publicamente enquanto se mantém como o homem vítima, está passando pelo mesmo momento. Perceberam o padrão?
Enterrando Reputações na Era Digital
O caso de Blake Lively não seria novidade se não apresentasse provas tão cabais como as que estão no processo contra Baldoni, com as cópias as conversas entre ele e equipe e da equipe entre si. Tudo expõe em detalhes como a manipulação de informações é usada nas redes sociais, que se tornaram um campo fértil para campanhas de difamação, Ali críticas legítimas são misturadas a ataques planejados, dificultando a separação entre o que é verdadeiro e o que é fabricado.
Minha conclusão é inquietante. Reconheço as falhas dois lados, incluindo os das mulheres, mas elas não justificam a intensidade das críticas que elas recebem. A misoginia estrutural continua a moldar narrativas públicas, colocando as mulheres em desvantagem mesmo quando possuem evidências a seu favor. No caso de Blake Lively, suas palavras finais são um alerta: “Espero que minha ação legal ajude a revelar essas táticas de retaliação sinistras para prejudicar pessoas que falam sobre má conduta e ajude a proteger outras pessoas que podem ser alvos.”
Mesmo sem simpatizar inteiramente com sua postura pessoal, não posso ignorar a gravidade do que foi revelado. A manipulação da informação nunca foi tão perigosa, e é essencial que tenhamos mais discernimento ao formar nossas opiniões. Vamos acompanhar os desdobramentos — e torcer para que a verdade prevaleça.
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