Aos 17 anos, ela criou uma marca de moda para não abandonar a faculdade
Da sacoleira do Brás à fundadora da LV Store e de cursos online, a estilista antecipa tendências e transforma comportamento em vendas
Letícia Vaz tinha duas escolhas: ou dava um jeito de se sustentar em São Paulo, ou voltava para sua terra natal, Bragança Paulista, no interior do estado.
Aos 17 anos, ela ainda estava no segundo semestre do curso de jornalismo, em uma faculdade privada, quando a situação financeira dos pais apertou. Abandonar os estudos e voltar não era uma opção. Ela daria um jeito.
Pediu ao pai R$ 500 emprestados e foi até o Brás, bairro paulistano conhecido por roupas e tecidos mais baratos.
O primeiro cropped e o início das vendas
Ligada nas tendências de moda, por influência da mãe, que era costureira, decidiu produzir ela mesma um cropped.
“Eu gostava muito de estudar sobre tendências de moda. Onze anos atrás, não era tão fácil achar cropped. Eu procurei na Avenida Paulista e não achei. Então, eu mesma fiz e usei numa festa”, relembra Letícia.
“Todo mundo achou diferente e legal. Fizeram encomendas. Fiz uma grade P, M e G e comecei a vender.”
Ela não apenas conseguiu bancar os custos de vida, como também criou um negócio promissor.
O nascimento da LV Store
Em apenas um ano e meio, Letícia criou a LV Store, uma loja virtual de roupas. No início, ela apenas revendia peças. Depois, passou a estudar ainda mais as tendências e a desenhar e costurar modelos próprios.
“Sempre fui criadora de conteúdo para a marca. Eu buscava as peças, montava dicas de looks, mostrava o meu dia a dia, mas sempre levando para as roupas. As pessoas viam em mim uma menina com um estilo parecido, e que vende a peça que procuram. Foi o que fez a gente crescer tão rápido”, conta.
O sucesso da marca a fez perceber que a carreira de empresária da moda daria um futuro mais rentável do que o jornalismo. Aos 19 anos, trancou a faculdade e voltou para Bragança para dar um gás na empresa, com a criação de mais produtos e coleções.
Desafios iniciais no e-commerce
No início da trajetória da LV Store, em 2015, o e-commerce ainda engatinhava no Brasil. Letícia precisou aprender como torná-lo lucrativo.
“Essa foi minha primeira dificuldade: a tecnologia é um setor muito masculino, e eu sou muito nova. Então sempre tinha essa dificuldade de conseguir fornecedores, de conseguir reuniões ou sentar em lugares para falar sobre tecnologia”, diz.
Apesar disso, encontrou uma solução fora do país. Adotou uma tecnologia da Arábia Saudita para fazer as vendas, sem qualquer conexão com os Correios.
Com isso, saiu na frente dos concorrentes: os fretes custavam R$ 20 para todo o Brasil — fosse a encomenda para o Acre ou para algum lugar perto de Bragança.
Costureiras, confiança e um novo modelo de trabalho
O segundo desafio veio da juventude. Costureiras com anos de experiência não botavam muita fé na longevidade da empresa da jovem empreendedora.
“Eu entendi que, primeiro, precisaria me provar para elas. Porque elas não queriam trabalhar para mim, tinham medo de ser um sucesso passageiro, que depois seriam demitidas”, conta.
“Eu colocava as vagas de emprego e ninguém aparecia. Aí, quando eu conseguia contratar uma santa, eu contratava todo mundo que essa santa conhecia”, brinca.
Para conquistar essas costureiras, Letícia apostou em benefícios. Em vez de exigir produtividade, ofereceu flexibilidade.
“O setor de moda é o segundo que mais explora pessoas no mundo, com trabalho análogo à escravidão. Não basta trabalhar só das oito da manhã às cinco da tarde; elas precisam entregar, por exemplo, 750 camisetas em um dia. Para bater a meta, não conseguem nem levantar para ir ao banheiro ou tomar um café.”
Na LV Store, essa lógica não existia. Letícia apenas estabelecia horários de trabalho e liberava quem precisasse sair antes ou chegar mais tarde para cuidar dos filhos ou resolver questões pessoais. Todo mês, havia festas para as aniversariantes.
Mais do que isso, elas não eram tratadas como meras costureiras: Letícia ouvia opiniões sobre novas peças e dava liberdade criativa.
“Elas começaram a entender que era muito legal trabalhar lá, porque também podiam opinar. Eu fui muito sincera e falei: ‘Gente, vocês têm 30, 35 anos de costura, eu não. O que sei fazer muito bem é vender na internet. Vendo qualquer coisa. Então por que a gente não faz o seguinte: vocês também me ajudam a construir essa merda’”, lembra.
Cerca de 30% das costureiras que estão na LV Store até hoje começaram lá no início, quando a marca ainda engatinhava.
O teste definitivo e a virada na pandemia
A LV Store nunca teve estoque pronto para entrega. As peças só começavam a ser produzidas após a encomenda. Com a chegada da pandemia e do confinamento, Letícia não sabia como manter esse esquema.
“Eu tinha pânico de pensar em ter que demitir as pessoas.”
Mais uma vez, ela encontrou uma saída. Se já era referência em e-commerce, decidiu usar essa expertise. Lançou um curso com o “método LV”, ensinando como vender qualquer coisa na internet.
“Vendeu super bem. Foi uma forma de garantir que, se tudo desse errado, eu não precisaria demitir ninguém.”
Os números confirmaram o acerto. Em um mês, a empresa movimentou mais de R$ 1 milhão em vendas. “Hoje os números são maiores, mas, para a época, era algo astronômico”, diz.
O sucesso levou à criação de uma segunda empresa, a ModaLab, plataforma de cursos voltados ao e-commerce de moda. Enquanto isso, a LV Store seguiu vendendo roupas — agora adaptadas ao novo momento.
Em vez de peças de festa, a marca passou a apostar em looks confortáveis para ficar em casa: conjuntos de moletom, pijamas e, depois, uma coleção de tie-dye pronta, para quem não tinha tempo ou paciência de fazer em casa.
“Fomos nos adaptando como dava. Foi o período em que mais ganhamos exposição.”
Visão de futuro
Letícia Vaz nunca parou de estudar o mundo. Antes de criar uma coleção, mergulha em relatórios de comportamento, observa movimentos culturais e analisa forças simbólicas que moldam desejos.
Foi assim que antecipou a volta da América Latina ao centro do pop global — antes mesmo de Bad Bunny reforçar o orgulho latino no intervalo do Super Bowl.
“A pandemia foi um momento de muita frieza nos contatos, tudo era online. Daí surgiu a tendência clean girl, com roupas cinza, bege, preto, cabelo sem um fio fora do lugar. A gente sabia que, em algum momento, o maximalismo ia voltar. As tendências sempre são inversamente proporcionais à anterior”, afirma.
“E aí pensamos: o que é mais maximalista, mais calor, mais contato e mais felicidade do que a cultura latina?”
A leitura virou coleção. Em janeiro de 2026, a LV Store lançou a coleção Latinidades, com cores, sensualidade e referências ao imaginário latino.
Hoje, à frente de uma holding com seis empresas ligadas ao universo digital, Letícia prepara os próximos passos: investir em inteligência artificial aplicada ao e-commerce de moda e ampliar a frente educacional para pequenos empreendedores.
A lógica é a mesma que a fez sobreviver aos 17 anos: informação e adaptação rápida como vantagem competitiva.
Assine a newsletter de CLAUDIA
Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters:
Acompanhe o nosso WhatsApp
Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp.
Acesse as notícias através de nosso app
Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.







